Música
Caetano Veloso na Internet - Muitas Tardes Com
Eu tinha 7 anos quando vi e ouvi Caetano Veloso cantar Alegria, Alegria com os Beat Boys no Festival da Record, em 1967. Em casa, todos foram hipnotizados por Chico Buarque entoando Roda Viva. Chico e a música eram bonitos. Mas eu, fã de Roberto Carlos, senti um clima de Jovem Guarda na marcha-rock do Caetano, que, a um só tempo, parecia contido e transgressor. Alegria e preguiça - aquela banda de iê-iê-iê e um cantor timidamente atrevido com os olhos cheios de cores. Era o começo.
De lá para cá, me tornei músico popular e Caetano, uma referência para a minha geração. Em 1977, uma década depois de Alegria, Alegria, eu cursava o Colégio Equipe, em São Paulo, onde o hoje apresentador Serginho Groisman organizava shows. Eu era seu assistente e bilheteiro. Por conta desse primeiro subemprego, peguei Cartola e Clementina de Jesus na rodoviária, entreguei o cachê nas mãos de Luiz Gonzaga e comprei um conhaque na padoca para o Gilberto Gil aquecer a voz. Mais tarde, foi a vez de Caetano ir ao Equipe. Abriu o show com Festa Imodesta, samba que compôs e que Chico gravou no disco Sinal Fechado. Naquela época, eu também começava a compor e imaginei imodestamente que Caetano um dia cantaria uma música minha. Mas, com o tempo, acabei sublimando o desejo insano.
Em 2008, quando Caetano e o antropólogo Hermano Vianna lançaram o blog Obra em Progresso, passei a frequentar o boteco virtual e a comentar os posts. Caetano escrevia com um apetite inacreditável. Tudo era assunto: Noel Rosa, Fidel Castro, sociolinguística. Um grupo de umas 20 pessoas, mais assíduas, criava uma instigante intimidade entre si e Caetano comentava as nossas mensagens de maneira muito informal. Nascia ali um coletivo que passou a ser chamado de "pessoal do blog".
Um ano depois, o grupo foi à estreia de zii e zie, o mais recente show de Caetano, no Rio de Janeiro. No camarim, tivemos o primeiro encontro cara a cara com o cantor, que saudava um por um e adivinhava nomes. Interação e afeto imediatos. Um acontecimento emocionante que detonou o tabu de que a internet promove o isolamento e a repressão do contato presencial.
Em Salvador, um novo encontro. Depois do show na Concha Acústica do Teatro Castro Alves, fomos à casa de Caetano e terminamos a noite numa pizzaria. Mas na Bahia nada acaba em pizza. No dia seguinte, o grupo se reuniu para um caruru na casa do Vellame, um dos integrantes do "pessoal do blog". Eu tocava com Emerson, outro componente da turma, quando Caetano apareceu e disse: "Continuem". Puxei o samba Rugas, de Nelson Cavaquinho. Tinha dito no blog que sonhava escutar essa canção na voz de Caetano. Comentário que, na época, o fez escrever: "Salem, você lê meus pensamentos. A música de Nelson que eu mais canto em casa é Rugas". Então, juntos, cantamos Rugas, que tem o verso genial "feliz aquele que sabe sofrer".
Nesse encontro, alguns já conheciam a canção que eu havia composto sobre a nossa experiência internética: Rugas na Pele do Samba. Caetano, não. Era uma surpresa para lhe ser entregue mais tarde, gravada. Mas, com a atmosfera carregada de emoção, me pediram que eu a cantasse. E eu a cantei, meio destrambelhado, mas acho que bem. Quando o samba acabou, vi que Caetano se comoveu. Em seguida, cantamos mais umas 15 ou 20 músicas. Fechamos a noitada tentando enxergar no céu um planetinha que só Moreno, filho de Caetano, conseguia ver.
Quando zii e zie veio a São Paulo, pensei em não ir. Temia diluir o encantamento dos encontros do Rio e de Salvador. Mas recebi um convite e fui numa sexta-feira com minha mulher, Fernanda. Foi um show enxuto, quase recital. Silêncio durante as canções e aplausos longos. No camarim, amigos convidavam Caetano para sair e ele declinava se dizendo cansado. Mas às tantas, já na porta, me surpreendeu: "E agora? Aonde a gente vai?". Perguntei se queria ir à minha casa. "Prefiro que a gente se encontre no hotel." Assim poderíamos conversar próximos do seu local de descanso. Fomos, comemos e falamos de música e filhos sem sentir o tempo. Às quatro da madruga, Caetano me surpreendeu outra vez dizendo que queria aprender minha música. Me levantei rapidinho e tirei o El Cabongue da caixa. "Que bom! Toque aí", ele pediu. Cantei. Uma primeira audição atenta. "Escreva a letra num papel", pediu de novo. Depois, cantou a música comigo ao violão e, na sequência, a cantou e tocou sozinho. Tudo no lugar. Até os erros, poucos, soavam perfeitos. Último acorde e eu acordei. Para minha sorte, não era sonho. "Agora vocês vão descansar que eu preciso treinar a música." No elevador, pedi para Fernanda me beliscar. Imaginei a possibilidade de o Caetano cantar a música no show do sábado, mas a minha baixa tolerância à frustração fez com que eu rasgasse a fantasia. A vaidade e a expectativa são drogas pesadíssimas.
Fui convidado para o show do sábado e reencontrei o "pessoal do blog", mas não falei nada sobre a noite anterior. Me mantive só com meu desejo e meus antídotos contra o desapontamento. No meio do show, o roadie posicionou uma estante com uma letra. Senti o olhar da Fernanda. Suspense. Disfarcei e fiz cara de público pagante à espera de O Leãozinho. "Hoje eu quero cantar uma música muito nova feita pelo Fernando Salem para celebrar o que aconteceu conosco no blog Obra em Progresso". Então, Caetano cantou Rugas na Pele do Samba e, em seguida, Rugas, do Nelson, que dedicou a mim.
Após o show, um longo abraço. Não me contive: "Você topa gravar a música comigo no meu novo CD?". Resposta: "É claro que sim!". Dias depois, Caetano estava em meu estúdio registrando Rugas na Pele do Samba ao meu lado. Escutá-lo ali e no palco foi para mim uma festa verdadeiramente imodesta.
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Fernando Salem é cantor, compositor e roteirista. Seu novo disco, Rugas na Pele do Samba, deve chegar às lojas em março.
1 comentário(s) de 1
Comentado em 01.02.2012 às 03:00 por Jean:
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