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Freud Museum London
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Desenho feito por Sergei Pankejeff, paciente conhecido como "homem dos lobos". Na descrição de seu caso clínico, Freud exercitou sua veia literária - e o episódio inspirou o escritor Moacyr Scliar

Meu caro dr. Freud, escrevo-lhe esta num momento que é aflitivo para mim, e que deve ser ainda mais aflitivo para o senhor. Ontem, 1º de setembro de 1939, as tropas de Hitler invadiram a Polônia. Meus amigos dizem que este será o início de um grande conflito, uma guerra que acabará decidindo a sorte de nosso mundo. Imagino como é difícil esta situação para o senhor. No ano passado, o senhor foi expulso de Viena pelo nazismo - Viena, onde a psicanálise nasceu, e onde tantas vezes lhe visitei.

Sei também que o senhor está muito doente; segundo fontes que considero confiáveis, talvez o senhor não passe deste mês. O senhor pode imaginar a angústia com que lhe digo isso, mas só o faço porque confio na sua grandeza como psicanalista e como pessoa humana. Ninguém melhor que o senhor poderia, com equilíbrio, enfrentar a proximidade da morte. Na verdade, acho que essa iminente possibilidade atormenta mais a mim do que ao senhor, e explica esta carta que, espero, chegue a tempo. Espero igualmente uma resposta, porque dela depende o meu futuro emocional.

Quero lhe dizer, em primeiro lugar, que sou imensamente grato pela ajuda que o senhor me deu. Eu era um jovem doente, um farrapo humano. Meu pai tinha se suicidado, minha irmã também, eu vivia em constante depressão. Felizmente meu médico levou-me para ver o senhor. Senti que aquela era uma oportunidade única; a psicanálise era então um tratamento novo, e eu precisava de algo novo, algo que mobilizasse o pouco que me restava de sanidade mental. Ainda assim, dr.Freud, eu hesitava em começar a terapia; aquela coisa de divã, naquele seu esquisito consultório atulhado de peças arqueológicas, aquilo me dava ansiedade, e eu não podia decidir. O senhor verdadeiramente me sacudiu, dando-me um ultimato, estabelecendo uma data-limite para que eu começasse o tratamento e isso foi fundamental.

No início não me parecia estar avançando; era aquela coisa de deitar e falar qualquer coisa que me viesse a cabeça, porém daí nada resultava de útil. Mas então veio o sonho.

O sonho dos lobos, Dr.Freud, foi realmente um instante mágico, fascinante, ainda que aterrorizador. Graças a ele o senhor ficou célebre, e eu também: tornei-me o Homem dos Lobos, e centenas de trabalhos foram escritos sobre mim. Sou um ícone da cultura mundial. Todo mundo sabe que uma noite eu tive um sonho: a janela do meu quarto se abria e eu via, sobre os galhos de uma nogueira, seis ou sete lobos sentados. Acordei em pânico, gritando, mas depois tive uma sessão com o senhor e aí veio a interpretação: na verdade, aquilo era uma recordação da infância. Eu estava evocando a cena primária: vira, uma noite, meu pai tendo relações com minha mãe por trás, a tergo, como se diz em linguagem mais sofisticada. E daí nasceram meus sintomas, a ansiedade, a depressão, aquela sensação de que uma espécie de véu me isolava do mundo, um véu que eu só podia romper aplicando-me um enema (coisa também que o senhor considerou muito simbólica).

Bem, Dr. Freud, se a verdade nos liberta, eu deveria ter me libertado da neurose. Mas o senhor sabe que isso não aconteceu. Durante anos fiquei me perguntando porque, afinal, continuava tendo sintomas, uma situação que me deixava infeliz. E só ontem, Dr.Freud, no dia em que Hitler invadiu a Polônia, dei-me conta - numa espécie de iluminação interior, de revelação - do que, afinal, tinha acontecido.

Os lobos que eu vi sobre os galhos da nogueira, dr.Freud, não eram o resultado de minha imaginação. Eram lobos de verdade. Não deveriam sê-lo, porque lobos, todos sabem, não trepam em árvores. Mas foi exatamente esse detalhe que me levou a descobrir a verdade.

Eu não sonhei, dr. Freud. Eu não estava vendo o mundo através de um deformante véu, mesmo porque, antes de dormir, eu havia pedido ao atendente que me aplicasse um enema. Eu estava livre de qualquer toxina intestinal que pudesse me deixar obnubilado, que prejudicasse minha capacidade de julgamento. Eu estava, infelizmente para o senhor, bem lúcido.

Os lobos estavam ali como parte de um desígnio. Um desígnio seu, dr. Freud. O senhor, ou alguém trabalhando para o senhor, treinou aqueles lobos para que, colocados numa árvore, ali ficassem imóveis, fitando um certo neurótico, os olhos brilhando como faróis na escuridão. E falando em escuridão, isso explica a cor dos animais. Tinham de ser brancos, não é, dr. Freud? Para que um certo neurótico pudesse avistá-los sobre a árvore.

O resto do plano é fácil de imaginar. O senhor sabia que, em seguida, eu iria procurá-lo, apavorado. E aí o senhor teria a intrepretação prontinha: cena primária, coito a tergo (como o dos lobos), etc. Uma mentira piedosa, terapêutica que, o senhor esperava, ia me curar para sempre. E que, de fato, me melhorou muito.

Em 1914 interrompi o tratamento. E - note a coincidência - começou a Primeira Guerra. Os conflitos que eu tinha dentro de mim encontraram correspondência nos conflitos dos campos de batalha. Em 1918 a guerra terminou e o senhor, talvez aliviado, publicou o trabalho sobre meu caso. Tornei-me o Homem dos Lobos. Não o Lobisomem, não. O Lobisomem é uma criatura charmosa, que aparece em centenas de histórias, em dezenas de filmes. O Homem dos Lobos é o infeliz que grita à noite com medo dos bichos.

Tudo que eu espero agora, Dr. Freud, é que o senhor me conte a verdade. Veja, não guardo qualquer mágoa em relação ao senhor; o senhor tentou, por todos os meios que estavam a seu alcance, tratar-me. Meu caso não foi o de uma cura surpreendente, como o senhor quis fazer parecer; mas mesmo assim, sinto-me grato. Não preciso lhe dizer que guardarei só para mim este segredo. Em troca, naturalmente, de um favor. O senhor sabe que minha família era da aristocracia russa, que tínhamos uma situação financeira confortável (nunca deixei de pagar seus honorários). Mas, com a revolução de 1917 perdemos tudo. Os bolcheviques - que são uns verdadeiros lobos - confiscaram nossas propriedades, nossas riquezas. De modo que um auxílio da Associação Psicanalítica Internacional viria muito bem.

Por último, pediria que o senhor me dissesse onde posso encontrar lobos como aqueles que o senhor utilizou e um treinador para eles. Na casa onde moro há uma nogueira, que posso avistar pela janela de meu quarto. Se eu conseguisse colocar uns seis ou sete lobos brancos sentados nos galhos da árvore, acho que minha neurose melhoraria muito.

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Moacyr Scliar é escritor, autor de, entre outros, Manual da Paixão Solitária, que recebeu o Jabuti de Livro no Ano de Ficção de 2009.

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1 comentário(s) de 1

  1. O CONTO DE SCLIAR 04/03/2013 Escrevo quando o contista já faleceu e gostaria que ainda estivesse vivo. A identificação com o paciente de Freud vem contestar a interpretação do sonho que o levou à memória vespertina de sua infância. O paciente estaria a encerrar a transferência com Freud, e havia a coincidência de ambos serem vítimas das guerras européias e, entre elas, do pacto Hitler –Stalin. Kakfa é que, em sua obra, antecipa pela literatura o nacional- socialismo, mais do que o “Homem dos Lobos”, em “O Processo”, a “ A Metamorfose” e “A Toca”, por ex., quando os judeus eram condenados à morte sem motivo e, de repente, como acontece com Gregor Samsa, são tratados como insetos ou sentem algo fazer o trabalho de sapa aproximando-se... Tanto a interpretação de Freud, quanto a associação do paciente na carta são corretas, apenas em categorias diversas, uma psicológica e, a outra, social. Não seria assim ? Fernando Neto

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