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Em 1996, pode-se dizer que Mônica Nador era uma artista do “circuitão”, ou seja, uma vez por ano apresentava uma individual em uma galeria de prestígio do país, como a Luisa Strina, em São Paulo, e tinha no currículo participações em duas bienais paulistanas – a de 1983 e a de 1991 –, além de coletivas em alguns dos principais museus brasileiros. Sua trajetória seguia o termômetro do grupo que ficou conhecido como Geração 80, com os jovens que, saídos da faculdade naquela década, encontraram o mercado sedento para acolhê-los sem reservas. Em pouco tempo, desfrutavam de visibilidade e dinheiro. Por 13 anos, Mônica esteve no meio deles. Até que um ensaio, escrito pelo historiador norte-americano Douglas Crimp em 1981, caiu em suas mãos. Intitulado O Fim da Pintura, o texto questionava o formalismo acadêmico e expunha uma espécie de impasse a que a atividade estritamente pictórica estaria submetida. Pouco importa aqui se muita gente depois de Crimp voltaria a declarar a morte da pintura e a pintura insistiria – sempre com louvor – em provar sua vivacidade. Na história de Mônica, as palavras do crítico tiveram um efeito definitivo. A paulista de Ribeirão Preto abandonou por anos as telas. Em busca de uma arte mais próxima do mundo, foi pintar paredes.

É bem verdade que a primeira delas ainda não era lá muito distante do tal “circuitão”. Naquele ano de 1996, Mônica Nador ocupou o estreito corredor em frente ao restaurante do Museu de Arte Moderna de São Paulo: “Foi ali que me dei conta de que conseguia pintar uma parede e de que era isso o que queria fazer dali para a frente”. Para concluir a obra no MAM, a artista aprendeu a usar estêncil – os moldes vazados com padronagens – e spray. Teve de tirar o foco das referências clássicas e olhar para a rua. Mas hoje, 15 anos depois, a artista já não exibe uma atitude e um discurso muito radicais. Graças ao convívio com jovens e adultos do bairro Jardim Miriam, na periferia da Zona Sul paulistana, fez as pazes com as galerias e... voltou às telas. Pode-se dizer que os integrantes do Jardim Miriam Arte Clube, o Jamac, coletivo que fundou em 2004, diluíram seu preconceito em relação ao mercado. Prova disso é a exposição Mônica Nador – Autoria Compartilhada, em cartaz neste mês na galeria Luciana Brito, em São Paulo. Depois de romper de forma um tanto brusca com os endereços tradicionais, Mônica retorna a esses espaços de um jeito leve: “Eu tenho uma tese que é a da beleza pura, de enfeitar os lugares e com isso mexer com as pessoas”. Na mostra, as quatro paredes da principal sala expositiva estão tomadas por padronagens criadas pelo Jamac. Ao todo, oito pessoas trabalharam por três semanas no endereço, decidindo em parceria as cores – predominam o vermelho e o verde – e o número de sobreposições dos desenhos – em alguns casos, até quatro camadas foram pintadas. Integram a individual ainda nove obras em papel, quatro telas e um videodocumentário com parte da história do grupo.

PANO DE PRATO E MUSEU

Até chegar à inauguração do Jamac, no entanto, o caminho em nada se pareceu com aquele início de carreira, tão facilitado por um mercado em ebulição. Depois de 1996, com o projeto Paredes Pinturas formatado, Mônica viajou para diversos estados do país, realizando trabalhos ainda pontuais. Em 1998, tomou conta de um coreto em Coração de Maria, na Bahia, e de uma casa de palafita no Amazonas. No ano seguinte, transformou as fachadas de residências da Vila Rhodia, em São José dos Campos (SP). E em 2001 entrou pela primeira vez em contato com a comunidade do Jardim Miriam, a convite na época de uma ONG dirigida pela empresária Milú Villela. A parceria não deu certo, mas Mônica não saiu mais do bairro.

O Jamac propriamente dito funciona atualmente em um galpão que pode ser descrito como um misto de ateliê aberto e espaço cultural para jovens e adultos da comunidade local. Sem um apoio oficial, Mônica mudou-se em definitivo para o endereço no mesmo ano de sua abertura, em 2004: “Morar lá faz toda a diferença. Não sou mais uma pessoa de fora que chega definindo regras. Estou lá de igual para igual”, diz. A afinidade entre os dez frequentadores mais assíduos do galpão é tanta que o nome de Mônica nem aparece mais sozinho na assinatura de uma peça. Juntos, eles criam novas padronagens e transformam paredes aplicando várias camadas de estêncil, em um processo criativo que fica visível ao espectador. E os trabalhos são registrados como “Mônica Nador + Jamac”. Quem conhece suas peças do fim dos anos 80 e início dos 90 percebe as mudanças que a produção incorporou com o deslocamento dos circuitos protegidos das galerias e dos museus para as ruas. O uso das cores é mais atrevido. A aplicação dos traços é mais solta. Por outro lado, a artista não deixa de falar para os companheiros de ateliê sobre nomes como Josef Albers (1888-1976) e sua série Homenagem ao Quadrado, por exemplo. Há muito do legado do mestre alemão nas peças do grupo.

“Tenho hoje outra percepção do mundo e da arte. Porque nosso principal intuito aqui não é mercado, e sim o efeito que teremos na vida das pessoas. A gente usa uma técnica que pode pintar pano de prato e estar ao mesmo tempo em museu”, diz Paulo César Meira, 26 anos, artista do Jamac desde seu início e que hoje cursa arquitetura na Faculdade Anhembi Morumbi. Já Cristiane Aparecida Alves da Silva, 33 anos, também artista do coletivo, produz tudo de forma mais intuitiva. “Vou testando cores, vendo o que funciona. Fiz as máscaras de duas paredes da galeria Luciana Brito, em exibição agora”, diz a jovem. Na busca pela “beleza pura” e por uma arte capaz de ser entendida por um número maior de pessoas, Mônica faz hoje uma revolução de caráter mais inclusivo: mantém um pé no circuito e outro na periferia.

ONDE E QUANDO

Mônica Nador – Autoria Compartilhada. Luciana Brito Galeria (r. Gomes de Carvalho, 842, Vila Olímpia, São Paulo, SP, tel. 0++/11/3842-0634).

Até dia 28. De 3ª a sáb., das 10h às 19h. Grátis.

Tags: monica nador, JAMAC,

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