Música
CHEGA DE SAUDADE
No romance De cada Amor Tu Herdarás só o Cinismo, o escritor Arthur Dapieve usa a música para enfatizar a diferença de idade entre Bernardino e Adelaide, que formam o par romântico principal. Ele que tem quarenta e tantos, é um roqueiro inveterado. Ela, de vinte e poucos, é fanática por MPB. Ao longo do livro, Dapieve, que também é crítico musical, faz a crônica de como os jovens da época em que o romance foi lançado (o ano de 2004) se voltam, cada vez mais, para a música brasileira. Os frutos desse movimento estão começando a ficar maduros. Há muito tempo a MPB não tinha um grupo tão talentoso de cantores, letristas, instrumentistas e compositores na faixa dos 20 e 30 anos. E há muito tempo, também, não se via uma geração tão original não apenas na música, mas também na maneira de criar e veicular a sua arte. Eles não têm manifesto. Não formam um movimento articulado. Por não se sentirem na obrigação de se opor a um estilo anterior, têm liberdade e abertura para qualquer influência e, entre essas influências, valorizam principalmente a MPB tradicional. Afinados com os novos tempos, divulgam suas obras pelo MySpace. Não são artistas- solo, como os da bossa nova dos anos 60, nem formam bandas, como os roqueiros dos 80. Trabalham colaborativamente. Em alguns momentos, formam núcleos de criação que são verdadeiras incubadoras de talentos; em outros, se recolhem para criar trabalhos solo. Na reportagem a seguir, as principais características da nova geração e os artistas que na aposta de BRAVO! despontam como os grandes talentos da MPB atual.
A NOVA CENA DA MÚSICA BRASILEIRA
1 AS INCUBADORAS DE TALENTOS
Para entender o que está acontecendo na música brasileira em 2008, é necessário fazer uma regressão até, no mínimo, 2002. No Rio de Janeiro, os músicos Kamal Kassin, Domenico Lancellotti e Berna Ceppas tiravam do campo das idéias uma orquestra que recuperaria sambas de gafieira e outros ritmos dançantes. Os amigos que mais teriam a ver com o projeto foram convocados, e a Orquestra Imperial começou sua trajetória na noite carioca. Quase todos os envolvidos já desenvolviam uma carreira na música, mas a Orquestra Imperial ajudou e muito a dar visibilidade ao talento da trupe.
Simultaneamente, em São Paulo, surgia outra entidade formada por artistas solo que trabalham colaborativamente. Os produtores Daniel Ganjaman, Rica Amabis e Tejo Damasceno lançavam o primeiro CD do Instituto, chamado Coleção Nacional. Muita gente t inha d ifi culdade de entender aquilo, até porque o Instituto nem sequer tinha passado pelos palcos. Foi uma estréia em disco. O tripé formado por Ganjaman, Rica e Tejo tinha como proposta reunir músicos tão distintos quanto Fred Zero Quatro (Mundo Livre S/A), o rapper Sabotage e a veterana cantora pernambucana Cila do Coco para criar música nova. O Instituto também era um selo (pelo qual seriam lançados grupos como Cidadão Instigado, de Catatau, retratado adiante) e um programa de rádio que podia ser escutado na internet e, anos mais tarde, viraria uma descolada balada na noite paulistana. Ou seja, um núcleo de criação. Não por acaso, muitos dos artistas que estão brilhando neste ano, como Nina Becker e Jonas Sá, têm vínculo com os dois núcleos.
A banda Do Amor, que toca com Jonas e Nina, também pode ser classifi cada como uma incubadora de talentos. Formada por três egressos do grupo independente carioca Carne de Segunda, a banda tem ainda um trabalho autoral em que mescla ritmos tão díspares quanto o carimbó paraense, o heavy metal e a axé music. Dois dos integrantes do grupo, Marcelo Callado e Ricardo Dias Gomes, estão com Caetano Veloso desde o álbum Cê.
Como lembra Nelson Motta, que também vê os núcleos de criação como a principal tendência atual, há música boa ao largo delas também. "Aquela Marina de la Riva, transformando Lulu Santos em salsa e bolero, é sensacional. Vai ser sucesso logo, logo. Dá uma olhada no YouTube..."
2 O DIÁLOGO COM A TRADIÇÃO
Nina Becker e Caetano Veloso estavam na platéia de um show de Jonas Sá no início de 2006. Assim como Nina, Jonas já se apresentava secundado pelos músicos da banda Do Amor. Ao fim do show, na hora de definir as caronas, a cantora acabou no carro de Caetano. Nervosa (como sempre fica perto do ídolo), ela o ouviu tecer elogios aos acompanhantes de Jonas. "Como é bom esse Ricardo, não? E o Marcelo na bateria, então?" Nesse momento, Nina sentiu que tanto ela quanto Jonas ficariam sem banda de apoio. Ambos foram realmente tocar com Caetano dias depois.
A integração com artistas da geração anterior é uma marca dos artistas da nova MPB. Foi Caetano quem fez a ponte entre Jorge Mautner e a galera de Kassin, que seguiram trabalhando juntos. O principal fruto da união foi o irreverente Revirão, CD produzido por Kassin e Berna e executado por vários músicos da Orquestra Imperial. Na gravação, o veterano aceitou tudo que lhe foi sugerido: "Pediam para eu cantar mais suave, eu cantava; para eu tocar violino de um jeito diferente, eu obedecia. Posso dizer que fui uma marionete feliz". Recentemente, Mautner escreveu três músicas com Jonas Sá. E está no repertório solo de Nina.
O Instituto, por sua vez, estreitou laços com Carlos Dafé e Marku Ribas, dois ícones da música suingada brasileira que deixaram os holofotes em algum momento dos anos 80. Arnaldo Antunes é uma referência para novos compositores como Jonas Sá e Curumin. Segundo o produtor Carlos Eduardo Miranda, esse intercâmbio só é possível porque estamos lidando com uma "geração sem bronca". "Eles não estão negando um movimento ou uma música anterior. E também não são totalmente reverentes aos medalhões da MPB", diz. A inclassificável geração atual não se opõe ao passado, age como se desse continuidade a uma tradição. É como uma retomada daquilo que o poeta Augusto de Campos, nos anos 60, chamou de "linha evolutiva da MPB".
3 O MYSPACE E OS FESTIVAIS EM VEZ DO CD
O mercado do disco está menor, mas isso não deve ser preocupação para quem busca seu espaço. É possível usar ferramentas como MySpace e YouTube para divulgar os trabalhos. Quase todos os artistas mencionados nesta reportagem têm endereços no MySpace. Outra marca desta geração é a criação de um circuito de shows que inclui festivais pelo Brasil.
Casas como a paulistana Studio SP e a carioca Cinemathèque abrem espaço para os novos talentos. Cidades como Cuiabá (MT), Porto Velho (RO), Belém (PA) e Natal (RN) organizam festivais anuais nos moldes do pernambucano Abril Pro Rock que revelou de Chico Science a Los Hermanos e são ótimos territórios para a nova música. "O público desses festivais está cada vez menos preconceituoso e mais ligado na MPB", afi rma Fabrício Nobre, presidente da Associação Brasileira dos Festivais Independentes e organizador do Goiânia Noise e do Bananada, festivais que nos primórdios só davam chances para bandas de rock. O sonho de Nobre para o próximo Goiânia Noise é promover o encontro do trio mato-grossense Macaco Bong (um dos grandes destaques da cena independente) com Gilberto Gil, para a execução na íntegra do disco que o hoje ministro lançou em 1968, com seu nome no título, e se tornou um marco do tropicalismo. Seria como uma passagem de bastão entre os inovadores de duas gerações diferentes.
OS PRINCIPAIS DESTAQUES DA NOVA MPB
A CANTORA NINA BECKER
"Você sabe sambar?", brincou Zeca Pagodinho ao ver Nina Becker Nunes, desconfi ado de que a jovem ruiva e sardenta que se apresentara para o teste de backing vocal não saberia as canções de seu repertório. "Claro que sim", respondeu ela, timidamente. Para surpresa do cantor, sabia de cor todas as letras do disco. Contratada, Nina, aos 20 anos, em 1995 teve de trancar a faculdade de design para viajar durante seis meses em turnê. Nascia uma cantora.
Nina Becker está para a nova MPB como Nara Leão para a bossa nova ou Gal Costa para o tropicalismo. Destaca- se nesta geração de cantoras por ser a que tem mais faro para a produção dos novos compositores. Ela não gosta da comparação com Nara ou Gal, mas admite: "Tenho uma obsessão pelo novo, sou uma bisbilhoteira e comecei a valorizar muito o trabalho das pessoas da minha geração". Nina prepara dois discos solo, com lançamento previsto para este mês. Os trabalhos um com acompanhamento da banda Do Amor e outro só de voz e guitarra privilegiam canções escritas por ela e por compositores da nova geração, como Romulo Fróes e Pedro Sá (leia textos adiante).
O padrasto de Nina, o maestro Roberto Gnattali sobrinho do lendário compositor e regente Radamés , foi responsável por apresentar a música brasileira a ela. Fã de Dalva de Oliveira, Elizeth Cardoso e Aracy de Almeida, Nina conta que foi ouvindo essas e outras cantoras brasileiras que decidiu seguir a carreira artística. A carioca fez aulas de canto, piano, violão e baixo quando jovem. "Hoje só o violão me acompanha nas composições."
Aos 33 anos, Nina é um dos destaques da Orquestra Imperial. A entrada na big band carioca se deu por acaso. Amiga dos tempos de colégio, Nina comparecia aos shows da banda que, no começo, contava apenas com Thalma de Freitas nos vocais. Em um dos shows Thalma não estava, e Nina a substituiu para nunca mais sair. Além da doce e potente voz e da forte presença de palco, a cantora chamou a atenção também pelo fi gurino que vestia nos shows: vestidos longos e brilhantes desenhados por ela mesma. Logo depois de ter deixado os trabalhos na publicidade, Nina montou um ateliê de moda no Jardim Botânico, que hoje está parado por causa da intensa rotina de gravações dos dois discos da carreira solo. A expectativa em relação a eles é grande. Podem significar para a nova safra da MPB o que o disco de 1968 de Gal Costa significou para a tropicália.
O COMPOSITOR ROMULO FRÓES
O samba, escreveu Vinicius de Moraes numa letra famosa, é "a tristeza que balança". A frase de Vinicius é, de certa forma, a chave para interpretar a música ao mesmo tempo suingada e introspectiva de Romulo Fróes.
Romulo tem a alma dos revolucionários da MPB. Ele sabe que o pré-requisito para qualquer revolução é um mergulho aprofundado na tradição. Mais ou menos como fez João Gilberto, que inventou um estilo diferente de cantar e tocar a partir da divisão melódica inovadora do cantor Orlando Silva. A tradição sobre a qual Romulo se debruça é a do samba, mas não apenas ela. Em seu endereço no MySpace estão alguns de seus heróis: Nelson Cavaquinho, Zé Kéti, Paulinho da Viola. Mas também New Order, The Clash, The Smiths, Echo and the Bunnymen. Essa mistura entre as tradições do pop e da MPB fecunda suas surpreendentes composições.
Quando João Gilberto surgiu, poucos admitiam que sua música fosse "samba". O mesmo acontece com Romulo. Ele iniciou a carreira tocando numa banda de sambistas, que depois romperam com ele por achar que suas músicas não se Enquadravam no estilo. Suas composições realmente evitam os clichês do gênero. Trazem à tona, em vez disso, suas sutilezas. À primeira vista, por exemplo, a canção Tudo o que Pesa parece renegar a batucada forjada nos morros cariocas, embora de forma irônica. A letra diz, como a dialogar com o estilo musical: "Lança/ Na correnteza o que eu não posso carregar/ Samba/ É da tua natureza". Está ali, no entanto, o contraste entre tom maior e tom menor, sons alegres e sombrios, que é uma pedra de toque dos sambas-enredo. Em Mulher sem Alma, Romulo revive a maneira elegante com que os bambas das escolas retratam a dor de amor. Embora a instrumentação lembre o choro, a bateria, com suas potentes viradas, parece estar tocando outra música. O contraste enfatiza o que Romulo é: um revolucionário, na forma mais sutil e, por isso, mais possante do termo.
Até hoje Romulo não vive de música. Ele trabalhou muito tempo como bancário, mesma profissão de seu pai, para bancar a faculdade de artes plásticas. Achou que estava muito distante de sua vocação, pediu para ser demitido. Isso ocorreu em 1994. Durante cinco meses, Romulo se manteve com o dinheiro da indenização, até que um amigo o indicou para trabalhar como assistente do artista plástico paulista Nuno Ramos, com quem está até hoje. Trabalhou de graça por um ano, já que Nuno, então em início de carreira, não tinha condições de pagar um salário ao novo contratado. Percebendo a situação financeira instável de Rômulo, Nuno conseguiu para o amigo um emprego numa produtora de filmes publicitários. Foi lá que Romulo conheceu o artista plástico paulista Eduardo Climachauska, o Clima, que trabalhava como diretor de arte.
Nuno e Climachauska são os letristas dos dois primeiros CDs de Romulo, que logo se tornou um dos compositores preferidos dos intérpretes da nova geração. Cantoras como Nina Becker, Andréia Dias, Thalma de Freitas e Mariana Aydar já receberam músicas assinadas por ele. O compositor prepara o lançamento do próximo trabalho, ainda sem data definida. Batizado de No Chão, sem o Chão, o disco duplo conta com 33 músicas. A ambição de Romulo, de 37 anos, é grande. "Não gosto de coisas por diversão. Esse negócio de dizer que um disco foi feito sem pretensão não dá. Meu objetivo é ser o maior artista brasileiro de todos os tempos, abaixo do Tom Jobim."
O LETRISTA JONAS SÁ
"Sempre quis fazer cinema. Achava que havia músicos demais na minha casa", diz o carioca Jonas Sá, filho do compositor Rô Tapajós e irmão do guitarrista Pedro Sá, um dos integrantes da banda roqueira que acompanha Caetano Veloso no disco Cê. A música falou ainda mais alto quando Jonas descobriu os tropicalistas e Stevie Wonder. O cinema ficou apenas como hobby. Seu primeiro CD, Anormal, foi lançado em dezembro do ano passado, com grande sucesso de crítica.
Jonas Sá se destaca como compositor por sua busca obstinada do pop perfeito. Entenda-se aqui "pop" como aquele tipo de música que expressa idéias num formato simples e de fácil compreensão, uma das coisas mais difíceis de obter em música. De acordo com esse conceito, Noel Rosa e Cole Porter foram mestres do pop (e também por terem incorporado a suas músicas cenas da modernidade urbana, em composições como Três Apitos ou I Got a Kick out of You). Justamente Noel e Porter são evocados na música Tenha um Bom Dia, uma das obras-primas de Jonas. Nela, ele se vale do estilo "list song" forma que, popularizada por Porter, consiste em enumerar lugares ou ações para compor uma canção irônica sobre rompimento, na linha de Último Desejo, de Noel. Num formato dançante, versos como "Vá jogar bilhar/ Vá se jogar no mar" ou "Vá gritar no túnel/ Vá fazer bungie-jump" constituem uma lista de sugestões para que a ex-amada suma da vida do personagem central da música. Pop puro. E, pelas imagens, cinema puro. "Comecei a fazer música porque fazia trilha de filmes imaginários que eu criava", diz ele. "Cinema é uma metáfora de como você enxerga a vida. Nos filmes, há exatamente a música certa para trazer à tona suas emoções."
O cinéfilo Jonas tem como ídolo o compositor Bernard Herrmann, famoso pelas trilhas sonoras dos filmes de Alfred Hitchcock. Musicalmente, as obras dos dois não se parecem. Mas Jonas tem algo de Herrmann na meticulosidade com que lapida suas músicas e arranjos. Ficou seis anos gravando seu primeiro CD. Lançou no ano passado, mas até agora não fez lançamento em São Paulo porque não arregimentou uma banda que o satisfizesse. Pudera. O álbum tem músicas de execução complicadíssima, como Looking for Joy na qual, para conseguir uma atmosfera que evoque a banda sueca Cardigans, ele mistura naipe de cordas, naipe de metais e sintetizadores eletrônicos.
O talento do músico de 29 anos chamou a atenção de Caetano Veloso. Quando os amigos da Do Amor participavam de Cê, Jonas compareceu a alguns ensaios apenas para assistir. Acabou recebendo elogios de Caetano, além de ser classifi cado por Jorge Mautner como um dos artistas mais incríveis da nova geração.
O INSTRUMENTISTA FERNANDO CATATAU
Fernando Ary Júnior, o Catatau, está para a nova música brasileira assim como o guitarrista Lanny Gordin para a MPB do fim dos anos 60. Israelense nascido na China, de pai russo e mãe polonesa, Gordin trouxe para a MPB pós-tropicalista o som internacional da guitarra por isso, muitos o chamavam de Jimi Hendrix brasileiro. A guitarra de Gordin alimentava um espectro de artistas que ia da Gal Costa da primeira fase ao alquimista Hermeto Paschoal, com quem formou o grupo Brazilian Octopus. Na nova MPB, Catatau é igualmente onipresente. Ele está no álbum de Vanessa da Mata. Influenciou o som do grupo Los Hermanos no último CD da banda, tocou a música Fez-se Mar, e Rodrigo Amarante teve que mimetizar seu estilo para sair em turnê. Chico César o convidou para o novo disco. E o próprio Fernando Catatau desenvolve um trabalho solo com a banda Cidadão Instigado.
O que a guitarra de Catatau tem de tão especial? É possível aplicar a ela o mesmo slogan do filme Gilda: você nunca ouviu nada igual. Catatau é um pesquisador de sons. Usa os pedais para que sua guitarra soe como qualquer coisa, menos como uma guitarra tradicional. Às vezes os sons tremem como um sintetizador dos primórdios do rock, como na música Os Urubus só Pensam em Te Comer, do Cidadão Instigado. Em outros momentos, evocam o brega dos anos 70, caso da canção O Tempo, que lembra os arranjos do cantor romântico Fernando Mendes. A mágica de sua guitarra, no entanto, é a mesma do Arlequim da commedia dell'arte: por mais que incorpore retalhos de diferentes timbres, sua sonoridade continua sempre inconfundível.
Catatau só teve o primeiro contato com o instrumento com que se consagraria aos 13 anos, quando disse à mãe: "Quero tocar guitarra! Vou ser roqueiro". A obsessão nasceu depois que ele ganhou uma fita da banda inglesa Pink Floyd. A paixão pelo instrumento é tanta que Catatau tem hoje, em casa, 12 modelos diferentes. "Sempre compro e vendo guitarras. Quando falta grana, é assim que sobrevivo", diz. Em junho, o Cidadão Instigado entrou em estúdio para gravar o terceiro trabalho, ainda sem nome e sem data de lançamento. O músico de 36 anos também planeja lançar em breve um disco totalmente instrumental.
O ALQUIMISTA CURUMIN
Antes do tropicalismo, a música brasileira era dividida em nichos: o samba, a jovem guarda, a canção de protesto, a bossa nova. Os tropicalistas acharam que era o caso de misturar tudo inclusive a música considerada brega do cantor Vicente Celestino e assim criaram o movimento que revolucionou a MPB. Se uma das bandeiras atuais é a retomada desse espírito tropicalista, incorporando influências sem preconceitos, o paulista Luciano Nakata Albuquerque, o Curumin, é um dos criadores mais sintonizados com o espírito da nova MPB. Em seu primeiro CD, Achados & Perdidos, ele misturou o samba-rock de Jorge Ben Jor com o estilo de composição de Stevie Wonder. No segundo, Japan Pop Show, ele incorporou um estilo tão marginal na MPB quanto Vicente Celestino na época do tropicalismo: o funk pancadão carioca.
Curumin, que é baterista, ouve de tudo desde a infância. Era fã, por exemplo, de Sidney Magal e Gretchen. O contato com a rainha do rebolado era mais próximo. O sogro de um de seus tios era namorado de Gretchen. "Eu a chamava de tia Bumbum", lembra. O soul, no entanto, foi o estilo que chamou mais a atenção do músico. "Meu irmão trouxe um dia o disco do Stevie Wonder, o Innervisions, e eu pirei. Pensei: 'É isso que eu quero fazer'." No início dos anos 90, Curumin foi o baterista da cantora Paula Lima, que trazia uma proposta musical semelhante à dele. Por intermédio do amigo Pedro Ito, hoje baterista da cantora Céu, Curumin conheceu Arnaldo Antunes em 1999, grande influência em sua carreira. Pedro estava com viagem marcada para o exterior e indicou o amigo para tocar com Arnaldo. A parceria durou seis anos. "Com ele aprendi que era legal ser diferente, subversivo. Arte é isso", diz Curumin.
Em 2004, a dupla californiana de hip hop Blackalicious veio ao Brasil participar do festival Indie Hip Hop, em Santo André, na Grande São Paulo, e tomou contato com o trabalho de Curumin. A mistura de funk, jazz e hip hop chamou a atenção de Chief Excel, um dos integrantes do Blackalicious e dono da gravadora Quannum que logo contratou o baterista. Em 2005, Curumin viajou para Nova York, onde participou de um festival de música. O lançamento de seu primeiro trabalho solo mereceu até uma crítica no jornal The New York Times, que o classifi cou como um dos músicos mais "espertos" da cena brasileira. O trabalho de Curumin chegou à atriz Natalie Portman, a princesa Amidala do primeiro episódio de Guerra nas Estrelas. Ela escolheu a música Tudo bem Malandro para integrar uma coletânea disponível no iTunes para download, que terá a renda revertida para uma ONG. Chegou a tocar num comício do candidato democrata Barack Obama.
Formado em psicologia, o baterista de 31 anos se dividia, até pouco tempo, entre a banda e a atividade de professor de música. Hoje, dedica-se integralmente à carreira, com a agenda atribulada com shows de divulgação do último CD, Japan Pop Show, lançado em maio. O disco saiu simultaneamente no Brasil e nos Estados Unidos.
NINA BECKER
QUEM É Destacou-se como vocalista da Orquestra Imperial. Desenvolve também carreira solo e pretende lançar dois CDs neste mês.
POR QUE É IMPORTANTE Está para a nova MPB como Gal Costa para o Tropicalismo. Além de excelente cantora, é a artista inquieta que rastreia e dá voz às novas tendências.
ROMULO FRÓES
QUEM É Cantor e compositor que desenvolve um trabalho em parceria com os letristas Nuno Ramos e Eduardo Climachauska
POR QUE É IMPORTANTE Compositor talentosíssimo, faz uma síntese inovadora entre tradição e modernidade
JONAS SÁ
QUEM É Nascido na incubadora da Orquestra Imperial, lançou no ano passado seu primeiro CD solo.
POR QUE É IMPORTANTE Entre os novos compositores, é o que melhor trabalha com o registro pop
CATATAU
QUEM É Compositor e líder do grupo Cidadão Instigado, Catatau é virtuose em diferentes tipos de guitarra
POR QUE É IMPORTANTE Deixou sua marca em vários artistas e grupos. O som de sua guitarra é o som da nova MPB
CURUMIN
QUEM É Baterista e cantor, tem dois CDs lançados, um deles simultaneamente no Brasil e nos Estados Unidos
POR QUE É IMPORTANTE É a síntese do espírito da Nova MPB, por sua abertura para diferentes ritmos e estilos
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