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Cacaso na década de 1980. Óculos de John Lennon, bolsão de couro e sandálias de sola de pneu

1973. PUC, Rio de Janeiro. Eu e mais 30 jovens ao redor dos 20 nos matriculamos numa matéria eletiva da Faculdade de Letras, cujo maior interesse era o nome do professor: Cacaso. Ao contrário dos outros nomes, solenes ou corriqueiros, esse nos parecia mais adequado ao nosso estilo. Por quê? Éramos quase todos ripongas de butique, isto é, imitávamos o ideário ou ao menos a moda do movimento hippie. Acreditávamos num mundo cheio de sexo, drogas e rock 'n' roll. Tínhamos a esperança de que a realidade era só uma alucinação causada pela falta de utopia.

O figurino de Cacaso (na verdade, Antonio Carlos Ferreira de Brito) fazia jus ao apelido: calça jeans, cabelo grande, óculos estilo John Lennon, um bolsão de couro a tiracolo e, como marca registrada, sandálias de sola de pneu. Mas não foi só pelo visual que o professor se transformou em nosso herói instantâneo: ele não fazia chamada, não dava notas. Chegava à sala de aula sem assunto. O tema surgia aleatoriamente no meio da conversa. De vez em quando, falávamos até de ficção e poesia.

Em 1967, Cacaso havia publicado A Palavra Cerzida, coletânea de poemas de inspiração drummondiana. No princípio dos anos 70, talvez por incitação dos poetas mais jovens, voltou a escrever poemas, agora com uma linguagem mais cotidiana, menos comprometida com a erudição. E assim ele se converteu num legítimo representante da chamada poesia marginal, que florescia naquela década. "Ficou moderno o Brasil,/ ficou moderno o milagre:/ A água já não vira vinho,/ vira direto vinagre."

Alguns de nós nos tornamos amigos de Cacaso. O poeta João Carlos Pádua e eu começamos a frequentar sua casa. Em 1974, por ideia dele e sob o patrocínio do cineasta Zelito Viana, fizemos uma coleção de poesia, a Frenesi, com a parceria do crítico Roberto Schwarz e do poeta Francisco Alvim. Anos mais tarde, Cacaso teve um dos maiores surtos criativos da MPB e escreveu algumas dúzias de obras-primas, como a canção Lero-Lero, com Edu Lobo: "Sou brasileiro de estatura mediana/ Gosto muito de Fulana, mas Sicrana é quem me quer (...)/ Desacredito no azar da minha sina/ Tico-tico de rapina, ninguém leva o meu fubá".

Agora, neste mês, vamos comemorar sua trajetória no CCBB do Rio (0++/21/3808-2020), em espetáculos com curadoria da cantora Rosa Emília, viúva e intérprete de Cacaso, e com a presença de alguns de seus parceiros de música e poesia. Depois desses encontros, caro leitor, você terá a alegria de descobrir por que a obra daquele professor cabeludo, morto aos 43 anos em 1987, virou um clássico.

Geraldo Carneiro é poeta, letrista e roteirista.

Tags: Cacaso, hippie,

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