Artes Visuais
Corpo a Corpo
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Foto Gabriel RinaldiO escultor Antony Gormley no CCBB-SP ao lado da obra Loss (Perda), de 2006, feita com blocos de aço inoxidável. “Só dois assuntos me interessam: corpo e espaço”, diz o artista -
Foto Gabriel RinaldiPeça de Event Horizon sobre o edifício Esplanada. O projeto foi apresentado em Londres, em 2007, e depois em Nova York, em 2010 -
Foto Gabriel RinaldiO projeto foi apresentado em Londres, em 2007, e depois em Nova York, em 2010 -
Foto Gabriel RinaldiO projeto foi apresentado em Londres, em 2007, e depois em Nova York, em 2010 -
Foto Gabriel RinaldiAcima, Gormley trabalha na instalação de Critical Mass II, de 1995, no CCBB-SP. Diante das esculturas, as crianças que visitam a instituição gritam e pulam
O vento é testemunha de que aquele corpo, delineado contra as nuvens cinzentas que sobrevoam o edifício Esplanada, não se move um centímetro há mais de um mês. As pontas dos pés estão para fora do beiral do 33º andar, debruçadas sobre o vale do Anhangabaú, mas o vulto está inerte, desafiando a gravidade – e a imaginação dos transeuntes lá de baixo.
O Corpo de Bombeiros foi acionado, o CVV registrou em seu boletim, ele teve o retrato estampado no diário britânico The Guardian e na imprensa de todo o Brasil. Não arredou o pé. Cristo algum remove o equilibrista, encarapitado no alto dos 110 m do imponente prédio branco no centro de São Paulo. Ao menos até o dia 15 de julho, quando, com a ajuda de um guindaste, ele sai de cena (e vai para o Rio de Janeiro).
Não é fácil a vida de estátua. Sobretudo dessas, instaladas desde o início do mês passado no topo de velhos edifícios do centro histórico da capital paulista. São 31 delas, quase idênticas, congeladas em poses altivas, os braços esticados e levemente afastados do tronco. Todas elas representam o corpo de uma mesma pessoa, e essa pessoa é o discreto homem ao meu lado. Ele se chama Antony Gormley e é um dos principais artistas do mundo em atividade.
O escultor britânico de 61 anos veio ao Brasil acompanhado de três dezenas de “Antony Gormleys”, alguns de fibra de vidro, outros de ferro fundido. Mas não só. Além de trazer as melancólicas esculturas, polvilhadas pelo skyline paulistano, que compõem a instalação Event Horizon (Horizonte de Eventos), o Centro Cultural Banco do Brasil de São Paulo recebe mais dez obras de grande porte. Primeira retrospectiva de Gormley na América do Sul, a exposição Corpos Presentes – Still Being reúne 60 toneladas de arte, que vieram em seis contêineres repletos. Como ele mesmo afirma: “Só dois assuntos me interessam: corpo e espaço”.
Há quase quatro décadas, ele vem examinando obsessivamente as variantes em torno desses dois temas, ou da soma deles: a inserção dos corpos no espaço. Vencedor de uma extensa relação de prêmios importantes, como o Turner, condecorado com a Ordem do Império Britânico, membro da Academia Real Inglesa, doutor honorário de Cambridge, Gormley se apoia sem reservas na ciência, seja física quântica, seja nas cosmologias de Albert Einstein. “É difícil ser um escultor hoje e não ter interesse em como a noção de matéria foi completamente reformulada desde a Teoria Geral da Relatividade, de 1915. Em como fomos afetados pelo reconhecimento de que o tempo é uma dimensão do espaço e que o espaço é uma dimensão do tempo”, expressa o artista, desenhando gráficos imaginários com seus gestos. Mas não é preciso estar a par de temas como o bóson de Higgs para usufruir de sua arte.
Um bom teste é encostar-se em uma das balaustradas do vão central do CCBB-SP e olhar a reação explosiva de uma turma de crianças de um colégio público que visita a mostra. Elas gritam, pulam e até escalam algumas peças da monumental instalação Critical Mass II (Massa Crítica II), composta de 60 esculturas feitas com o corpo de Gormley como molde. São Gormleys encolhidos, deitados no chão, de pé, pendurados na abóbada do CCBB. Mas, afinal, por que tantos Gormleys?
Antes que o próprio “criador” e “criatura” nos ajude a entender esse ponto, o curador da exposição, o designer e documentarista Marcello Dantas, chama a atenção para uma obra que nos dará algumas pistas. A pedido de Dantas, que trabalhou um ano e meio para organizar a retrospectiva, Gormley remontou um trabalho fundamental do início de carreira. Mother’s Pride (Orgulho de Mãe), originalmente de 1982, é uma escultura feita com pães de fôrma. São 450 fatias, compondo um grandioso retângulo, em cujo centro se enxergam os contornos de um homem encolhido em posição fetal. O “desenho” foi feito com mordidas do próprio artista, que, mastigando partes das torradas, executou a primeira de muitas obras nas quais se representa.
“Os corpos de Gormley estão por toda parte, materializando-se e desmaterializando-se. Aprender a revelar os corpos presentes é a essência dessa exposição”, opina Dantas. Enquanto degusta um quindim, o artista cita uma frase que ilustra essa tensão entre o que é presente e o que é ausente. Como já disse o escultor norte-americano Carl Andre: “A thing is a hole in a thing it is not” (Uma coisa é um buraco numa coisa que não é).
Mother’s Pride é um bom exemplo de como Gormley questionou, e vem questionando, com extrema coerência, a relação de corpo e espaço. Mas, voltando, por que ele precisa fazer isso usando seu corpo como base? Ainda que o autorretrato seja uma tradição, e que ao menos desde os tempos do pintor alemão Albrecht Dürer (1471-1528) seja bastante bem-aceito, Gormley é frequentemente criticado por ser narcisista. Ele mesmo brinca com o tema e questiona: “Por que esse tal Gormley está cobrindo o mundo com imagens de si próprio? Ele deve ser um maníaco, um novo Saddam Hussein”.
Vinte e Quatro Mil Bonecos de Argila
A resposta é complexa, mas não complicada. Em uma entrevista com o lendário historiador austro-britânico Ernst Gombrich, em 1995, o escultor já esclarecia seus motivos: “Uma das bases do meu trabalho é que ele deve envolver uma experiência verdadeira e individual. Eu não posso estar dentro do corpo de outra pessoa, então é muito importante que eu use o meu próprio”.
Ele usa mesmo. Para realizar as esculturas, faz moldes do próprio corpo. No início de sua carreira, sua mulher, a pintora Vicken Parsons, o ajudava no processo, besuntando-o com vaselina e cobrindo-o com gesso. Desde meados dos anos 90, quando Gormley se firmou como uma das joias da coroa, ele vem contando com equipes cada vez maiores. Mais de 80 pessoas o ajudaram a montar a mostra em São Paulo, por exemplo, e centenas de colaboradores envolveram-se em seus maiores projetos, como a escultura Angel of the North (Anjo do Norte), um colosso de mais de 20 m de altura, instalado no norte da Inglaterra. Nenhum trabalho, no entanto, envolve mais gente ou mais esculturas do que os da série Field (Campo). Um deles, o Asian Field (Campo Asiático), realizado na China, entre os anos 2003 e 2004, é feito de 190 mil pequenas esculturas em terracota, elaboradas por 500 chineses.
Foi um trabalho da série Field, também, que trouxe o artista ao Brasil pela primeira vez, meses antes do fórum internacional sobre ecologia Eco-92, há 20 anos. Gormley trabalhou na capital de Rondônia e se diverte bastante em relembrar os bastidores da instalação. Alto, magro e branquelo, ele conta que circulava pelos botecos das favelas de Porto Velho perguntando: “Preciso da ajuda de vocês para refazer a população do mundo em miniatura”.
Ainda que um pouco estupefatos, os interlocutores botaram a mão na massa. E os 24 mil bonequinhos feitos de argila (que não representam Gormley, diga-se) estão de volta ao país, atualmente em São Paulo, e em seguida nas unidades do CCBB do Rio e de Brasília. Quando a temporada terminar, as pequenas e grandes esculturas voltam para um enorme galpão no norte da Inglaterra. Vão seus corpos, fica a ausência (e a memória).
CASSIANO ELEK MACHADO é jornalista e editor.
A EXPOSIÇÃO
Corpos Presentes – Still Being. Centro Cultural Banco do Brasil de São Paulo (r. Álvares Penteado, 112, Centro, São Paulo, SP). Até 15/7. De 3ª a dom., das 9h às 21h. Grátis.
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