Teatro e Dança
Crítica - Corpos engessados
Foto Alexandre Catan
Os atores Leopoldo Pacheco e Melissa Vettore durante a peça. A cenografia inspirada compensa, em parte, a dramaturgia enciclopédica
Escolhido para a reabertura do grande auditório do Museu de Arte de São Paulo, o Masp, o espetáculo Camille e Rodin coleciona passagens dos 15 anos da emblemática história de amor entre os escultores franceses Camille Claudel (1864-1943) e Auguste Rodin (1840-1917). Quando chega para trabalhar no ateliê do já conceituado artista e professor, então às voltas com a encomenda da obra que talharia por longo tempo, Porta do Inferno, ela conta 19 anos, e ele, 43. Apaixonam-se, sublinham os desafios de esculpir e vão negociando seus ciúmes profissionais e amorosos (o mestre é casado). Em paralelo, piora o quadro mental de Camille, que acaba sendo internada numa instituição psiquiátrica, onde permanece por três décadas, até a morte.
Quando se narra a história de mulheres e homens notáveis, em que arte e vida se misturam com rara intensidade, as expectativas dobram, inevitavelmente. Somos impelidos pela esperança de transcendência no encontro com tais relatos, pois sempre haverá mais mistérios entre o céu e aquelas personalidades do que o interlocutor possa imaginar. No entanto, para retratar a relação do turbulento casal de escultores, o espetáculo contenta-se em reproduzir o roteiro já bastante conhecido das simbioses e dissensões artísticas e afetivas que culminaram no surto de Camille. A montagem é elementar e fica aquém da inventividade que o encontro de dois gênios no palco de um museu deixaria supor.
PORTAL DE CORES
A dramaturgia do paulistano FranzKeppler soa enciclopédica, prefere respostas a perguntas, não inquieta. Um tanto expositivos, os diálogos impedem que se ouça a voz do autor. As interpretações parecem engessadas. Melissa Vettore e Leopoldo Pacheco são quase protocolares ao discorrer sobre as veemências do coração e do ofício dos artistas, que, em seu tempo, eram ousados e passionais. Melissa ainda apresenta uma estridência desmesurada, sem espaço para colocar em relevo as sutilezas de Camille, que na peça surge convulsionada do início ao fim, com mãos sobrando para lá e para cá.
Por outro lado, faltou mão ao diretor Elias Andreato. Ele, que já atuou justo em monólogos inspirados na vida do pintor holandês Vincent van Gogh e do escritor francês Antonin Artaud, não conseguiu tornar as ações mais corporais e presentes. O único gesto que transcende é o da cenografia de Marco Lima, reforçada pelo desenho de luz de Wagner Freire. Juntos, eles elaboraram um portal de cores e formas angulares como os bons escultores gostam de enxergar nas pedras.
Valmir Santos é jornalista e pesquisador de teatro.
A peça:Camille e Rodin. De Franz Keppler. Direção de Elias Andreato. Com Leopoldo Pacheco e Melissa Vettore. Masp, grande auditório (av. Paulista, 1578, Bela Vista, SP, tel. 0++/11/3251-5644). 6ª e sáb., às 21h; dom., às 19h30. Até 26/8. De R$ 20 a R$ 30.
2 comentário(s) de 2
Comentado em 15.10.2012 às 02:08 por sandra Mascarenhas:
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Comentado em 23.08.2012 às 18:05 por Roberta Magalhães :
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