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Ilustração Sabrina Barrios
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Ilustração sobre imagem de Frédéric Chopin. Pela sutileza de seu toque, o compositor se tornou entusiasta dos pianos da marca Pleyel, que possibilitavam mais nuances do que volume

Entre as revoluções tecnológicas que transformaram a música, poucas se comparam à invenção do piano. Criado pelo luthier paduano Bartolomeu Cristofori no século 18, o instrumento trazia uma tremenda novidade em termos de engenharia sonora. Nenhum outro teclado era capaz de tantas nuances entre o "pianíssimo" e o "fortíssimo" - daí o nome original da nova máquina de produzir sons, "pianoforte". Tal característica aumentava muito a possibilidade de expressão do intérprete. Isso fez do piano o instrumento por excelência do romantismo musical, escola que floresceu no século 19 e que tinha, entre outras características, a valorização da figura do virtuose. Os compositores do romantismo, assim, se esmeraram em explorar ao extremo a nova tecnologia. Uma boa oportunidade de aferir a intensidade dessa revolução é ir neste mês ao Festival de Inverno de Campos do Jordão - onde, pela primeira vez em muito tempo, os três maiores pianistas brasileiros se apresentarão em uma única edição do evento. Por coincidência, a cada um deles caberá um concerto de um compositor romântico. Cristina Ortiz interpretará Frédéric Chopin, Arnaldo Cohen tocará Franz Liszt e Nelson Freire, Johannes Brahms. Os depoimentos de cada pianista sobre o compositor que irá interpretar mostram bem a gama expressiva do novo instrumento: para Cristina Ortiz ele permitia a Chopin expressar seus sentimentos de exilado, enquanto para Arnaldo Cohen Liszt é um verdadeiro psicanalista do teclado.

LISZT, O PSICANALISTA

Para Arnaldo Cohen, a música é uma espécie de linguagem alternativa e secreta em que se pode dizer o que se quer, com a garantia de que o público ouvirá somente aquilo que deseja. "Nesse sentido, Franz Liszt pode ser considerado um catalisador de ideias de um tipo peculiar: o compositor-psicanalista. Ele teve inúmeras amantes, ao mesmo tempo em que cultivou uma ambição religiosa. Reconheceu contrastes e conflitos; atravessou seus fantasmas." A música do compositor húngaro (1811-1886), assim, seria uma consequência desse processo, que poderia ter se dado no divã se a psicanálise, em sua época, já tivesse sido inventada.

Essa complexidade nem sempre é percebida. Liszt muitas vezes é visto como um mero perseguidor de efeitos virtuosísticos, até por ter aspirado a ser o Paganini do piano — seguindo os passos do violinista italiano que alardeava ter um pacto com o diabo e caprichava nos trejeitos sinistros ao se apresentar. Liszt tinha igual cuidado com a imagem: tocava de perfil, ciente do efeito que sua bela silhueta provocava sobre o público feminino. "Ele foi injustiçado. Tornou-se conhecido pelo virtuosismo, pela 'pirotecnia'. Sem negar este lado, eu diria que Liszt foi sobretudo alguém que compreendeu a vida", diz Cohen.

O pianista brasileiro diz que o romantismo, para ele, não é algo puramente emocional. "Penso nessa escola estética como um artesanato das emoções organizadas", afirma ele. Para melhor expressar essas emoções à maneira virtuosística de Liszt - conhecido pelo alto grau de dificuldade de suas peças - Cohen chega a estudar nove horas diárias de piano e é capaz de fazer concertos em três continentes em um único mês - assim que suas aulas na Universidade de Indiana, nos Estados Unidos, entram em recesso. Só assim ele se julga à altura de traduzir, nos concertos, a maneira inovadora com que o compositor húngaro explorou a nova tecnologia. "Liszt mostra que o grande piano é aquele que, justamente, não soa como piano. No final da única Sonata que escreveu, ele escreve um crescendo, com pleno conhecimento de que o piano é um instrumento percussivo e que, portanto, não se pode obter esse tipo de efeito. Através de notas trêmulas, ele consegue no entanto mimetizar uma orquestra". Durante o Festival de Campos, ele apresentará o Concerto nº 2 para piano e orquestra, seu preferido. "Neste concerto há um perfeito equilíbrio entre forças opostas. O virtuosismo soa poético. Sou um defensor ferrenho da obra de Franz Liszt. Para mim, ele é um exemplo da liberdade de expressão. Sabia carregar nas cores, tanto do ponto de vista do intelecto, quanto do emocional. Foi precursor do profissionalismo na música, um grande humanista e exímio professor. Uma ponte entre tudo e tudo".

CHOPIN, O EXILADO

"Para entender a obra de Chopin é preciso levar em consideração que ele era um exilado. Ao longo de toda a vida, compôs pensando nas próprias origens. Ele desenvolveu sua linguagem sempre em busca das danças de seu país. Fez as mazurcas, as polonaises. Sua música é sua pátria", diz a pianista baiana Cristina Ortiz, que vive em Londres há mais de 30 anos e, por isso, se identifica com o compositor. Nascido na Polônia em 1810 - completa portanto, neste ano, o bicentenário de nascimento - o músico se mudou para Paris aos 20 anos e lá passou a maior parte de sua vida. "Eu deixei o Brasil aos 15 anos e me considero cada vez mais brasileira. Passo o tempo buscando as nossas raízes, os ritmos. Vejo brasilidade, inclusive, em Chopin. Nossas colorações, nossas modinhas são muito ''chopinianas''.

A maneira com que Chopin explorou a nova tecnologia era, antes de tudo, intimista. Preferia as salas pequenas e poucas vezes tocou para públicos numerosos. Tornou-se entusiasta e divulgador da marca de pianos Pleyel, de tonalidade sutil, ideal para suas melodias límpidas assentadas sobre uma harmonia cheia de dissonâncias ousadas. Cristina se inspira na técnica do compositor ao interpretá-lo. Como o polonês, ela tem no piano uma extensão de seu próprio corpo. De interpretação suave, mas com passagens bem articuladas, a pianista agarra-se ao instrumento e chega a ficar com os dedos colados ao teclado, mesmo após o fim de uma obra. "Chopin tinha horror aos alunos que erguiam a mão enquanto tocavam", afirma a pianista, enfatizando o fato de que o compositor era adepto de uma técnica minimalista. Sobre a peça que irá interpretar, ela diz: "Ele não escrevia muito bem para cordas. Em seus concertos, a orquestra precisa tocar como um piano, e o piano, soar como orquestra - o que é delicado, porque o piano é um instrumento de ataque. Ou seja, a orquestra mantém as notas, e no piano elas morrem rapidamente. Ainda tenho muito a descobrir neste volume imenso de intenções que é Chopin", diz a pianista.

BRAHMS, SEPARANDO HOMENS DE MENINOS

Nelson Freire fez 21 anos em 1965. Na data, na inauguração da Sala Cecília Meireles, no Rio de Janeiro, ele interpretou o Concerto nº 2 em Si bemol maior, opus 83, do alemão Johannes Brahms (1833-1897). O episório remete ao documentário Nelson Freire, do cineasta João Moreira Salles, quem assistiu se lembra da cena. Nelson estudando loucamente, com metrônomo, um trecho de uma peça. Nelson dizendo como neste trecho alguns dos maiores virtuoses da história sucumbiram. Nelson nervoso durante a execução da música, quando o trecho se aproxima. Nelson executando-o perfeitamente. Nelson, na longa pausa depois do trecho, dando um suspiro de alívio. Pois este trecho era justamente do Concerto nº 2, aquele que marcou a maioridade do pianista - e que, na música romântica, é uma espécie de divisor entre homens e meninos.

Aos 12 anos, Nelson já gostava de Brahms. Ficava fascinado sempre que alguma de suas professoras executavam alguma peça do compositor. Mas elas o desencorajavam. "A Nise Obino tocava as Sonatas e as Danças Húngaras maravilhosamente. Mas bastou que ela percebesse meu interesse pelo compositor para dizer - com a responsabilidade de quem sabia do que estava falando - 'Nem pense em chegar perto de um concerto de Brahms antes dos 21 anos'. Essa interdição não se deve a uma questão virtuosística. Se Liszt era o psicanalista e Chopin o artesão dos sons sutis, Brahms usou a nova tecnologia para expressar ideias musicais e sentimentos complexos. Precoce, aos 14 anos Nelson Freire já executava o trecho proibido do Concerto para Piano nº 2, a obra que ele apresentará com a Orquestra Sinfônica de Minas Gerais no Festival de Campos do Jordão. Um trecho difícil, mesmo para grandes pianistas. "Até o polonês Rubinstein já deixou de tocar este pedaço durante um concerto. Simplesmente silenciou. A preocupação do pianista é tão grande que ele chega a esquecer da próxima entrada. Já toquei este concerto em quase todas as capitais do mundo e ainda sinto o nervosismo da véspera", diz.

Tal como Nelson, Brahms foi descoberto como um prodígio do piano muito cedo. Ambos passaram por momentos importantes da formação em Viena. Brahms foi um romântico cujas obras seguiram a disciplina vienense de Beethoven, e Freire despontou justamente a partir de suas interpretações de obras desses dois gênios da música. Entre tudo o que Brahms escreveu, o Concerto nº 2 ocupa lugar de destaque na vida de Nelson. Ele o executou, por exemplo, na apresentação que marcou sua despedida do Brasil, em 1959, quando foi para a Europa estudar. "Este Concerto é o romance que me acompanha. Eu gosto dele e ele gosta de mim", diz Nelson.

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Paula nadal é jornalista.

ONDE E QUANDO

Cristina Ortiz e Orquestra Sinfônica Municipal

CHOPIN, Concerto nº2 para piano e orquestra

Quando: 28/7, 21h Onde: Auditório Cláudio Santoro, Campos do Jordão R$ 60

Arnaldo Cohen e Orquestra Sinfônica da USP

LISZT, Concerto para piano e orquestra nº2 em lá maior, S 125; SCHUMANN, Sinfonia nº 2 em dó maior Quando: 28/7, 21h, em São Paulo e 29/7, 21h, em Campos do Jordão Onde: Sala São Paulo e Auditório Claudio Santoro R$ 10 a 40 (28/7) e R$60 (29/7)

Nelson Freire e Orquestra Filarmônica de Minas Gerais; PROKOFIEV, Romeu e Julieta, trechos das suítes nº 1 e 2, opus 64 ; BRAHMS, Concerto para piano e orquestra nº2, opus 83 Quando: 10/7, 21h Onde: Auditório Cláudio Santoro, Campos do Jordão R$80

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