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Bérénice Bejo e Jean Dujardin em O Artista. O filme nos coloca em um improvável túnel do tempo

Ao saber que se tratava de um filme mudo, em preto e branco, os jornalistas e convidados da sessão de O Artista, no Festival de Cannes, no ano passado, ficaram com um pé atrás. Dez minutos de projeção foram suficientes para que o temor se dissipasse e, no lugar do suposto tédio, a plateia experimentasse as gargalhadas. Começava a bem-sucedida carreira do longa dirigido pelo francês Michel Hazanavicius. De Cannes, a produção saiu com o prêmio de melhor ator para o protagonista, Jean Dujardin. Viriam depois três Globos de Ouro (melhor filme e melhor ator na categoria musical ou comédia e melhor trilha sonora), conquistados em janeiro, feito inédito para um longa francês.

“Acho que fiz um filme modesto. Queria que fosse visto como uma história de amor”, disse o cineasta. O adjetivo “modesto” talvez tenha sido exagerado – a definição de gênero, porém, foi precisa. O Artista, que se desenvolve entre 1927 e 1933, conta a história de dois amores: aquele vivido entre os atores George Valentin (Dujardin) e Peppy Miller (Bérénice Bejo) e o de Hazanavicius por seu ofício. Sua paixão pelas imagens em movimento transborda pela tela e desperta, também, a porção cinéfila de cada um de nós.

O Artista tem a capacidade de fazer com que os espectadores se sintam seduzidos pelo cinema. Não é de surpreender que tenha caído nas graças dos críticos da indústria de Hollywood. Há um fiapo de cada um deles nos personagens centrais: o astro Valentin, dono de um sorriso à la Rodolfo Valentino e um bigode de Douglas Fairbanks, e a aspirante ao estrelato Peppy. Os dois caminham com ritmo chapliniano e a evidente referência ao mestre inglês é uma das chaves para o sucesso da produção: um pouco como faz Quentin Tarantino, Hazanavicius retorna ao cinema mudo seguindo toda a sua cartilha, às vezes exagerando em algumas das regras, quando então nos faz rir. Impressiona o seu virtuosismo. Da entrada das cartelas de diálogos às cenas panorâmicas, tudo em O Artista nos coloca em um improvável túnel do tempo.

É impagável, por exemplo, a passagem em que Valentin, estupefato, ouve o barulho dos objetos caindo, os saltos femininos batendo no chão. O som chegou. Nós, na plateia, ouvimos esses ruídos todos, mas, de repente, Valentin move os lábios e, de sua boca, as palavras não saem. “Eu não queria me levar a sério demais”, diz o diretor para explicar a cena intencionalmente bizarra. “Não queria fazer um filme nostálgico. Ao contrário. Queria mostrar que a gente tem de se adaptar às mudanças”, defendeu ao falar sobre a derrocada de Valentin a partir do momento em que os filmes entram em uma nova era.

TONS DE CINZA

O Artista, nesse sentido, é parente de dois clássicos: O Crepúsculo dos Deuses (1950), de Billy Wilder, e Cantando na Chuva (1952), de Stanley Donen e Gene Kelly. Esses não foram, no entanto, os títulos de cabeceira de Hazanavicius durante o projeto: “Eu vi filmes da era muda. Vi John Ford, Fritz Lang e Tod Browning”, enumerou. “Tive de respeitar as regras desse cinema. O uso de vários tons de cinza era importante porque, quando não se tem a fala, qualquer detalhe técnico ajuda a criar nuances.”Ao retornar à pré-história do cinema, Hazanavicius nos leva ao tempo de certa ingenuidade, em que o cinema era criança. E é fascinante descobrir que, mesmo diante da tentação do 3D, ainda somos capazes de embarcar em uma fantasia silenciosa.

Ana Paula Sousa é crítica de cinema e redatora-chefe da revista Harper’s Bazaar.

O FILME

O Artista, de Michel Hazanavicius. Com Jean Dujardin e Bérénice Bejo. Estreia neste mês.

Tags: Cinema, artista, O Artista, Michel Hazanavicius,

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1 comentário(s)

  1. Muito boa a frase: "Ainda somos capazes de nos emocionar com a fantasia silênciosa". Curioso, pensei q/ fosse sou eu! pois sempre me emociono ao ver um filme mudo. Era o filme criança... boa definição. Não precisavamos de som p/ entender toda a trama. Veio o cinema sonoro - o cinema Scope... todo o encantamento vizual e de sons... a História do cinema é muito bonita. O cinema 3D? maravilhoso, mas n/ me emociona. Parabéns Ana Paula Sousa, pela forma bonita e precisa da sua narração.