Teatro e Dança
Devassa - As muitas vidas de Lulu
Quem é Lulu? Mulher fatal capaz de atrair e arrebatar ou mera superfície em que são projetadas pulsões inconfessáveis e idealizações opressoras? Lulu não existe como entidade autônoma. O olhar de uma sociedade em que predomina o masculino a molda e anima. E é a mais nova missão da trupe carioca Cia. dos Atores dissecar a matéria anterior ao molde, separando a Lulu primordial da sombra dos homens que a possuíram. Em cartaz no Rio de Janeiro, no Teatro Gláucio Gill, A Caixa de Pandora - Lulu, peça do alemão Frank Wedekind, renasce rebatizada como Devassa. Nome que, aliás, não poderia ser mais oportuno.
Escrita entre 1892 e 1894, essa que Wedekind chamou de a "tragédia monstro" precisou de inúmeras reedições para sobreviver ao cutelo do estado. Os censores já conheciam o autor de perto. Em 1891, vinha à tona O Despertar da Primavera - texto que aborda o colapso da juventude diante de valores e padrões repressores, inúmeras vezes encenado em solo brasileiro e por muito tempo proibido em seu país natal. Originalmente desenvolvido em cinco atos, o enredo da Lulu de Wedekind acompanha a ascensão e queda dessa personagem, que, ao se deslocar de um homem a outro, se multiplica e se esvazia. Boneca descerebrada para um, musa inspiradora de outro, esposa improvável e assassina, coquete audaciosa, deusa do sexo - Lulu personifica desejos, e são eles que conduzem seus amantes ao mesmo itinerário. Primeiro, a volúpia da conquista. Depois, a traição e a morte.
Para essa montagem, a Cia. dos Atores trouxe de Salvador a diretora Nehle Franke - encenadora alemã radicada no Nordeste do Brasil desde 1994 e que vem revolucionando o teatro da região. Os atores Bel Garcia, Marcelo Olinto e César Augusto e os convidados Marina Vianna, Alexandre Akerman e Pedro Brício promovem um jogo aparentemente anárquico de ruptura com as convenções cênicas. Aqui, o conceito de "devassa" deve ser ampliado. Ele se expande quando atores e personagens debatem entre si os próprios destinos e analisam clinicamente os passos da protagonista em direção ao desmantelamento final.
Quando Lulu diz: "Eu sou uma mulher, ele não sabe nada sobre mim", mostra-nos que a incompreensão é a raiz do equívoco. O maior mérito de Devassa está em sua inquietude, na tentativa de entender, na proposta de perguntar mais do que responder.
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Manoela Sawitzki é jornalista e escritora, autora do livro Nuvens de Magalhães.
DEVASSA, segundo A Caixa da Pandora - Lulu. De Frank Wedekind. Teatro Gláucio Gill. De 7 a 29 de agosto. Sáb., às 21h, e dom., às 20h. R$ 20, inteira, e R$ 10, para estudantes e maiores de 60 anos. Lotação: 120 lugares.
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