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Foto João Caldas
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O teatro contemporâneo costuma beber nas fontes da cultura grega, paradigma de um humanismo mais rarefeito nos dias de hoje. Não à toa um ciclo de saudação à tragédia clássica está em curso em São Paulo. No ano passado, o mineiro Gabriel Villela dirigiu Hécuba, enquanto a diretora baiana Maria Thaís visitou o mito de Prometeu, e o paranaense Elias Andreato, o de Édipo. Já em 2012, Cibele Forjaz relê Sófocles em A Travessia da Calunga Grande e o fluminense Roberto Alvim mergulha em sete textos de Ésquilo. Por sua vez, a Companhia Elevador de Teatro Panorâmico, cofundada há 11 anos pelo paulista Marcelo Lazzaratto, apresenta Ifigênia neste mês no Sesc Belenzinho, com dramaturgia de Cássio Pires baseada em Ifigênia em Áulis, de Eurípedes.

No enredo, o rei Agamêmnon sacrifica a própria filha à deusa Ártemis para que o vento volte a impulsionar as embarcações de soldados gregos no ataque à cidade de Troia, tomada por bárbaros. Em vez da fatalidade, é a pulsão de vida que guia Ifigênia. Resignada, a princesa se imola conscientemente sob o imperativo de salvaguardar seu povo, sua terra. Sem se preocupar em conduzir o público à catarse, como conviria a uma montagem que seguisse a convenção grega, Lazzaratto lança mão de um aspecto formal para retrabalhar os embates morais entre sujeito e Estado no berço da pólis grega. Em sua tragédia contemporânea, os protagonistas surgem do meio do tradicional coro, recurso que termina por ressaltar o conflito em Ifigênia.

Sobre as ondas

Vestidos com saias no tom da pele, os atores vivem alternadamente os coreutas, os personagens masculinos e os femininos. Revezam-se entre os papéis sutilmente, colocando em prática o sistema de improvisações que Lazzaratto desenvolve há 20 anos, o “campo de visão”. Nesse jogo de cena, os intérpretes, livres de marcações rígidas, movimentam-se de acordo com a dinâmica de todo o grupo, criando resultados diferentes a cada apresentação.

Ao ressaltar personagens muito definidos entre os integrantes do coro, a montagem demarca uma individualidade na multidão. A companhia de Lazzaratto alinha-se, assim, ao estudioso de mitologia Junito de Souza Brandão, para quem o cosmo trágico, em Eurípedes, é deslocado da grandiosidade do mito para a particularidade do coração humano.

Ondas sugeridas pelo ir e vir de corpos, sons e imagens compõem uma metáfora de mar no espetáculo, construindo sua unidade formal. Um fluxo que acaba banhando o inconsciente do espectador.

Valmir Santos é jornalista e pesquisador de teatro.

A PEÇA

Ifigênia. De Cássio Pires. Direção de Marcelo Lazzaratto. Com Carolina Fabri, Gabriel Miziara, Pedro Haddad e outros. Sesc Belenzinho (r. Padre Adelino, 1000, SP, tel. 0++/11/2076-9798). Até 29/4. 3ª e 4ª, às 21h; sáb., às 20h; e dom., às 17h. R$ 6 a R$ 24.

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