Música
Ele quer Seduzir o País da Bossa Nova
Fã de artistas como Marcos Valle, Quarteto em Cy e Os Cariocas, o cantor e compositor norte-americano Mayer Hawthorne sempre quis seduzir o Brasil. No último mês, o artista de Ann Arbor, Detroit, teve uma boa oportunidade para um primeiro xaveco: foi uma atração do festival itinerante Summer Soul, com escalas em Florianópolis, Recife e São Paulo, e ainda protagonizou um show solo no Rio. Tudo isso no mês em que seu álbum de estreia, A Strange Arrangement, lançado em 2009 nos Estados Unidos, ganhou uma edição por aqui. Era o que faltava para o artista pensar num relacionamento mais sério com o país que inventou a bossa nova, estilo tão apreciado por ele.
Inicialmente conhecido na cena de Detroit como DJ e produtor de hip-hop, Mayer sempre foi um dedicado pesquisador de música. De tanto ouvir gravações de Al Green, Curtis Mayfield e Barry White, entre outras lendas da soul music, resolveu ele próprio escrever um tema nesse estilo, cuidando da execução de todos os instrumentos. Da primeira música ao primeiro álbum, foi um pulo. E o trabalho de Mayer rapidamente ganhou o escaninho do tal neo-soul, gênero bastante em voga, que abriga artistas devotos da música negra norte-americana, sejam renovadores ou não.
RATO DE SEBO
Quanto a A Strange Arrangement, o álbum mais reverencia os ícones do estilo do que entrega algo novo. As 11 faixas compostas por Mayer agradam justamente por buscar timbres antigos, em arranjos que, não fosse por uma bateria mais pesada aqui e ali ou alguns sopros inusitados, poderiam ter nascido nos idos de 1960. A única música que não leva sua assinatura é Maybe So, Maybe No, uma gema esquecida de 1969 escrita por dois colaboradores da Motown, a principal gravadora de soul music de todos os tempos. Era preciso um verdadeiro rato de sebo, um típico nerd de música, para que o mundo pudesse reavaliar essa canção de balanço irresistível, que analisa as possibilidades de um romance.
Just Ain't Gonna Work Out é outro destaque natural do disco. Levada num falsete bem safado, ela trata de um amor sem condições de ir para a frente. Mayer surge no refrão pedindo desculpas e repetindo o título da canção. Em oposição a essa e outras semibaladas do repertório, há The Ills, um racha-assoalhos que recorda a destruição de Nova Orleans. A mensagem é: aconteça o que acontecer, é possível dar a volta por cima.
Nesse jogo de sedução, não dá para negar que Mayer ganhou vários pontos nos primeiros encontros. O Brasil agora aguarda sua próxima cantada.
JOSÉ FLÁVIO JÚNIOR é jornalista.
O CD
A Strange Arrengement (OiMúsica), de Mayer Hawthorne. Produtor: Mayer Hawthorne. Preço médio: R$ 25.
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