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Quando entra na sala de espetáculo, o público encontra uma mulher magra, frágil, com os cabelos castanhos presos num coque simples e sem maquiagem. Sentada no centro do palco, em meio a uma montanha de sacolas plásticas, ela também observa os espectadores. Alguns chegam com olhar desafiador, como que para conferir se Dani Barros merece todos os prêmios que recebeu em 2012: o Shell, o da Associação dos Produtores de Teatro do Rio de Janeiro (APTR) e o Questão de Crítica. Há noites difíceis, de recepção mais fria, outras de comoção extrema. Obsessiva pelo detalhe, a atriz fluminense não consegue abandonar o papel de produtora, que agora também desempenha e que a tem exaurido. O pensamento passeia por direções diferentes. Engana-se quem conclui que, por se tratar de um monólogo, a intérprete está sozinha em cena. Ela contém multidões.

A peça começa. Dani se suja delicadamente com tinta negra e desalinha os cabelos enquanto uma trilha sonora que inclui latidos de cães, ruídos do vento e barulhos dos caminhões que descarregavam lixo no Jardim Gramacho, o maior, e recém-extinto, aterro sanitário da América Latina, invade o teatro. No instante seguinte, a fragilidade do corpo desaparece e surge, em toda sua potência, Estamira Gomes de Souza, trabalhadora do lixão carioca, que percorreu festivais de cinema do mundo inteiro como protagonista do multipremiado documentário do diretor Marcos Prado. O filme, de 2004, que traz no título o prenome da personagem, retrata sua postura profética com relação à vida.

No palco, Estamira também se converte na própria Dani Barros, filha da pedagoga Maria Helena Coelho Barros, que morreu há dez anos numa clínica psiquiátrica. As duas vozes se unem e se alternam para compor um relato contundente das dificuldades associadas à loucura – e da lucidez possível e quase sempre ignorada que emana dela. Depois de duas temporadas de sucesso no Rio de Janeiro, Estamira – Beira do Mundo chega agora ao Sesc Pompeia, em São Paulo. A montagem não é apenas a transposição para os palcos da personagem do filme, ou um protesto contra a aridez do sistema psiquiátrico. É uma carta-inventário nunca enviada por Dani, coautora da peça, à mãe que partiu.

“ESTAMIRA, EU TE AMO!”

Poucas horas antes de mais uma sessão do espetáculo, a atriz descreve como o encontro com Estamira tocou em regiões profundas de sua história pessoal. Ao falar dela, seu tom é sempre intenso e emotivo. Diz que nunca chorou tanto com um filme – começou logo nos créditos iniciais. A mulher vigorosa a caminho do lixão de muitas formas lhe remeteu à mãe e a si mesma, convertendo-se numa espécie de heroína. E é assim que prefere retê-la, não doente e apagada, como quando a visitou, levando um carregamento de vidros de palmito (que Estamira adorava) no porta-malas, durante o Carnaval de 2011, ou sobre uma maca sem lençóis nos corredores do Hospital Miguel Couto, horas antes de morrer, cinco meses mais tarde.

O temperamento passional de Dani se reflete na peça e na conexão com o público. Desconhecidos a procuram para falar sobre familiares que sofrem de distúrbios mentais, amigos recordam as inúmeras vezes que a intérprete mencionou Estamira desde que assistiu ao documentário em 2005. Houve até quem gritasse em cena aberta: “Estamira, eu te amo!” Em pé entre as fileiras, a primeira professora da atriz, Kátia, acenou para avisar que um grupo da sua antiga escola estava ali para vê-la. Depois, lembrou o dia em que Dani a mordeu dentro da sala de aula.

Nascida em Petrópolis em 1973, a Maria Caquinho, apelido dado a Danielle Barros pela mãe, era uma criança esquisita. Catava tudo o que era “caquinho” que encontrava na praia e levava para casa para que as coisas não sentissem frio à noite. Revoltada e inquieta, quicava de um lado para o outro, olhando para os adultos com horror. Pensava: “Como podem ficar tão parados?!” e decidia que nunca seria assim. Mas podia facilmente “virar uma ostra”. Durante a infância, morou em Recife, em Fortaleza e no Rio. Chegou a ter sete endereços num ano. As mudanças seguiam o humor da mãe. O diagnóstico da bipolaridade de Maria Helena resultaria não apenas em inúmeros tratamentos e internações mas também no estado de alerta em que Dani precisou viver desde cedo.

ATRIZ-AUTORA

Cogitou ser jogadora de vôlei e atriz, jogadora de futebol e atriz... Até o dia em que percebeu que, por mais que mudasse de ideia, um projeto persistia. Com 13 anos, entrou para o Tablado, tradicional centro carioca de formação de atores. No final de quatro anos intensos, a atriz e diretora Guida Vianna a incentivou a mudar de ares. Dani passou então pela Casa de Artes de Laranjeiras (CAL) e ingressou na Faculdade de Artes Cênicas da Unirio. O apoio da mãe era irrestrito. Como moravam longe, e o percurso até a universidade podia ser perigoso, acompanhava a filha e a esperava para voltarem juntas. No fim de cada espetáculo que estreou, repetia-se a mesma imagem: Maria Helena andava em direção ao palco, aplaudindo em câmera lenta, com uma expressão dramática de orgulho no rosto. Dani se dividia entre a alegria e o embaraço: temia que a mãe fosse adiante e invadisse o cenário – o que nunca aconteceu.

A partir de 1992, enveredou pelo universo do circo e, sobretudo, do clown. Aos 19 anos sua história se parecia com a da maioria dos atores em começo de carreira: animava festas infantis para ganhar algum dinheiro, ignorando os apelos de uma tia para que “fizesse o concurso do Banco do Brasil”. Recém-saída da Escola Nacional de Circo, entrou para os Doutores Palhaços, mais tarde incorporado pelos Doutores da Alegria. A experiência de 13 anos entre a doença, a dor e o riso, dentro do ambiente hospitalar, acabou marcando seu registro de atuação.

“Ela consegue estabelecer uma tensão impressionante entre o trágico e o cômico. É uma atriz-autora, que precisa contar as próprias histórias, e alguém que conhece a ira, mas prefere a delicadeza”, define Beatriz Sayad, diretora de Estamira – Beira do Mundo. Coautora do espetáculo, amiga e dona de uma história semelhante com a própria mãe, Sayad tornou-se a parceira ideal na tarefa complexa de costurar as vivências íntimas e dolorosas de Dani Barros com as memórias de Estamira registradas pelo filme.

Dani passou por diretores como Moacir Chaves, Inez Viana e Anna Achcar e por sete anos integrou o grupo Os Privilegiados, dirigido por Antônio Abujamra e João Fonseca. Desde então, segundo ela, continuou sendo de alguma forma guiada por “Abu”. Fonseca a descreve como “uma profusão de talentos e emoções, uma atriz que desconhece limites”. Dificilmente alguém sairá da sala de espetáculo depois de vê-la em cena sem chegar à mesma conclusão.

Manoela Sawitzki é jornalista e escritora, autora do romance Suíte Dama da Noite.

A PEÇA: Estamira – Beira do Mundo. Sesc Pompeia (r. Clélia, 93, SP, tel. 0++/11/3871-7700). De 29/6 a 29/7. 6ª e sáb., às 21h; dom., às 19h. R$ 6 a R$ 24.

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