Artes Visuais
Factory - Peruca, Anfetaminas e Rock 'n Roll
Quando Billy Linich, o assistente pessoal de Andy Warhol, entrou pela primeira vez no quarto andar do número 231 na rua 47 Leste, em Manhattan, Nova York, já sabia direitinho o que deveria fazer para receber o artista. Ele passou todo o mês de janeiro de 1964 sozinho no galpão com 496 metros quadrados de área, envolvido na missão de transformar a antiga fábrica de chapéus no novo estúdio do amigo. Não que a tarefa tenha exigido uma grande reforma, pelo contrário. Foi mais um esforço criativo. Andy Warhol só invadiu o endereço quando as paredes encontravam-se cobertas por papel alumínio e o resto do loft, do chão ao teto, incluindo vaso sanitário, maçanetas, janelas, estava pintado com tinta prateada. Sua mesa de trabalho e o lendário sofá do espaço (veja foto na página 30) foram achados na rua. Linich andava por Nova York vasculhando os lixos porque, como ele dizia, mesmo os objetos mais velhos brilhavam de novo quando cobertos por uma camada de spray prateado. A cor se tornou marca registrada da Factory (fábrica, em português).
Depois de inaugurada, a Factory alternava entre um clima misterioso e o puro glamour. Na entrada, a parte de baixo de um manequim prateado - claro - recebia as pessoas. Lá dentro, noite e dia confundiam-se e para se ter certeza mesmo do tempo, só pegando de volta o elevador de carga e saindo à rua. A vida ao lado de Andy Warhol era euforia pura movida a um quarto de comprimido de anfetamina diária - que ele tomava religiosamente desde 1963, quando se viu numa foto e se achou gordo. E nada mais apropriado do que o tom platinado de suas perucas para dominar as cenas. Por causa delas e de sua Factory, o prata, nos anos 60, virou moda.
AMIGOS ALCOVITEIROS
Essa habilidade que o artista esbanjava em conseguir transformar uma condição adversa em algo a seu favor marcou sua arte e sua vida. É bem provável que o prateado tenha sido escolhido assim, de forma casual, por ser a cor mais adequada para disfarçar as imperfeições da antiga fábrica. As perucas, antes de serem estilo, escondiam uma calvície precoce, que começou a incomodar quando ele ainda tinha vinte e poucos anos. No fundo, no fundo, Andy Warhol era um baixinho feio, desajeitado, careca e com problemas de pele. Tudo o que um gay vaidoso jamais toleraria. Pois ele não apenas driblou as dificuldades como emergiu na sociedade americana da década de 1960 como o símbolo do oposto ao que lhe incomodava. Warhol e sua turma eram referência de beleza, moda e comportamento.
Muito antes de o Twitter ser inventado, Warhol acumulava uma legião de seguidores. E, ao seu redor, ninguém agia de acordo com manuais de etiqueta. O artista, que em 1965 declarou-se um pintor aposentado, interessado somente realizar seus filmes, instigava os colegas a adotar as mais ousadas posturas. Afinal, qualquer atitude poderia lhe servir como matéria-prima para o cinema. Na Factory, ao som geralmente de ópera, em especial Maria Callas - isso até os grupos The Rolling Stones e o The Velvet Underground tomarem conta do pedaço, lógico -, os amigos circulavam muitas vezes nus, animados por boas doses de anfetaminas - sempre anfetaminas - livres para protagonizar qualquer tipo de "experimentação artística".
De 1964 a 1968, a Factory foi uma espécie de laboratório, no limite entre um endereço dedicado à criação cultural e um espaço para encontros sociais. Movido a fofoca, Warhol estava sempre pronto para ouvir as últimas sobre quem havia brigado com quem ou, de preferência, sobre quem havia transado com quem. Todo mundo corria para contar as novidades para ele, com todos os seus pormenores. Nos ouvidos de Warhol, tudo parecia fazer mais sentido. Para ser amigo de Warhol, era preciso ser um bom alcoviteiro.
Ao longo dos quatro anos de auge da Factory, o artista, sempre com a ajuda de assistentes - como o poeta Gerard Malanga, seu braço direito com o silk-screen, e a modelo, atriz e socialite Edie Sedgwick, uma das principais conexões com o mundo das celebridades e estrela de muitas de suas produções -, Warhol finalizou mais de quinhentos filmes, um disco, um romance, e centenas de fotografias. Mas sua maior obsessão mesmo era a possibilidade de conhecer famosos e naturalmente se tornar um deles. Com a Factory, conseguiu. Não se organizavam tantas festanças por lá - pelo menos não tantas quanto reza o folclore do lugar -, mas o dia-a-dia já tinha um clima bem de festa, no sentido de os amigos irem se reunindo com o avançar das horas para jogar conversa fora e brincar. Uma brincadeira ou outra virava obra de arte.
Duas ocasiões merecem menção por terem sido de fato festanças históricas. A primeira, em abril de 1964, ocorreu logo após a vernissage da segunda exposição de Warhol na Stable Gallery, quando ele praticamente transformou o lugar em supermercado, espalhando pelo endereço suas imitações de caixas de sabão em pó Brillo, sucrilhos Kellogg's e catchup Heinz. Billy Linich iluminou a fábrica com luzes vermelhas, brancas e verdes e os convidados, que só entravam se estivessem com o nome na lista, puderam-se servir de cachorro quente e cerveja. Para satisfação de Warhol, o ídolo Roy Lichtenstein (1923-1997) apareceu e dançou ao som de uma jukebox alugada especialmente para aquela noite.
Boca Cheia de Macarrão
A segunda grande festa na Factory aconteceu exatamente um ano depois da primeira. Em abril de 1965, Warhol emprestou seu estúdio para uma noite apelidada de "A Festa das Cinquenta Pessoas Mais Bonitas do Mundo". Bem humilde assim mesmo. Há quem diga que foi a melhor dos anos 60. Na época, o artista posicionava-se muito bem entre a cultura underground do rock e das drogas e o glamour da moda e das celebridades. A festa juntou justamente personalidades dos dois universos e por causa dessa mistura, fez ferver as rodas de conversa e a pista de dança. Em certo momento da noite, sentados no sofá da Factory, o dramaturgo Tennessee Williams, a atriz Judy Garland e o ator Montgomery Clift monopolizaram as atenções. Responsável pelo som, Billy Linich tocou música negra da gravadora Motown, Supremes e Rolling Stones. E a bagunça continuou até o fim da tarde do dia seguinte, com uma refeição para poucos convidados. Em um dos pontos altos do jantar, dizem que Judy Garland cantou Somewhere Over the Rainbow, o tema do filme O Mágico de Oz, com a boca cheia de macarrão.
Dono de um espírito voyeur, Warhol raramente estava no centro de uma ação desse tipo. Ficava mais observando o desenrolar das coisas ao redor. Seu magnetismo, no entanto, era o grande responsável por instigar nos colegas atitudes inusitadas. Diante de Warhol, as pessoas - ricas, pobres, heterossexuais, homossexuais, famosas, marginais - sentiam-se impulsionadas a se deixar levar pelos mais loucos instintos. Saíam os freios. Reinavam as vontades.
Em junho de 1968, Warhol sofreu um atentado na Factory. A feminista Valerie Solanas invadiu o endereço e lhe deu três tiros à queima roupa. Depois de uma cirurgia de mais de cinco horas, ele se recuperou, mas a Factory foi desativada. Andy Warhol morrera muito mais tarde, em 1987, durante uma operação na vesícula. Hoje, o prédio que abrigava o estúdio prateado não existe mais.
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