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OS FESTIVAIS DA LEGITIMIDADE

Os últimos grandes festivais de música na televisão brasileira aconteceram nos anos 80. A TV Globo, que já tinha transmitido o Festival Internacional da Canção (FIC) em 1967 e dera uma pausa nesse tipo de evento, decidiu investir para marcar sua volta. Dessa forma, em março de 1980 iniciou as eliminatórias do Festival da Nova Música Popular Brasileira - MPB 80, que ficaria no ar até agosto daquele ano. Depois dele, vieram o MPB-Shell Especial (1981), o MPB-Shell 1982 e o Festival dos Festivais (1985). A fórmula permaneceu quase inalterada em relação aos concursos já tradicionais. A grande novidade estava na participação maior das gravadoras na escolha dos intérpretes e na mudança de local das finalíssimas. Do Palácio das Convenções do Anhembi, em São Paulo, onde foram realizadas as finais do Festival da Tupi de 1979, as apresentações mudaram para o Maracanãzinho, no Rio de Janeiro, e se transformaram em verdadeiros espetáculos de som e imagem. As eliminatórias, vistas por públicos que variavam entre 20 mil e 30 mil pessoas, tornaram-se um grande negócio para a TV Globo, as gravadoras e também para os artistas.

Diferentemente do que ocorreu nos anos anteriores, em que as apresentações revelavam novos nomes do meio musical, houve uma mudança no perfil a partir dos anos 80. Os festivais passaram a abrigar artistas já conhecidos, como os aplaudidos Oswaldo Montenegro, Raimundo Sodré, Jane Duboc, Guilherme Arantes, Amelinha e Tetê Espíndola. Apesar disso, eles ainda não tinham conseguido êxito suficiente para se firmar como personalidades no meio musical e viam nos festivais a chance de entrar de vez para o cenário da música popular brasileira. A cantora e compositora Joyce é um bom exemplo. Depois de dez anos sem emplacar um sucesso, ela reapareceu no MPB 80 e classificou Clareana para a final. A apresentação se deu na mesma época em que ela lançava um novo LP.

Das revelações, apenas duas foram consideradas grandiosas: Jessé, que ficou com o prêmio de melhor intérprete masculino com Porto Solidão, de Zeca Bahia e Gincko, em 1980, e Leila Pinheiro, premiada com o Troféu Revelação no Festival dos Festivais, de 1985.

A TV Globo ainda tentou reviver esse apogeu dos concursos de música em 2000 com o Festival da Música Brasileira. Porém sem resultados expressivos. Isso não quer dizer que os festivais estejam extintos no Brasil. Atualmente, eles são realizados em cidades fora do eixo Rio-São Paulo e se tornaram um grande palco para bandas iniciantes, conforme artigo do jornalista José Flávio Júnior na edição de maio de 2009 de BRAVO!. Sem premiações em dinheiro ou transmissão pela TV, são sucesso em blogs e sites que retratam a cena alternativa brasileira e continuam revelando grandes nomes da música, como Macaco Bong, de Cuiabá (MT), Móveis Coloniais de Acaju, de Brasília (DF), e Cérebro Eletrônico, de São Paulo (SP).

CHANCE DE VIRAR ESTRELA Com participação de destaque em 1981 e 1982, Guilherme Arantes foi o maior nome dos festivais da TV GloboOs festivais dos anos 80 ficaram marcados pela falta de inovação nos repertórios. Poucos cantores se destacaram, e o período foi considerado uma entressafra da música brasileira. O maior destaque foi Guilherme Arantes, até então um jovem cantor que tentava emplacar seus sucessos nas rádios e se firmar como músico. Com os resultados obtidos, ele conseguiu finalmente entrar para o cenário musical brasileiro. Em 1981, o MPB-Shell Especial sagrou o jovem como intérprete e compositor da nova geração da MPB - título almejado por ele havia anos. A música Planeta Água, de sua autoria, ficou com o segundo lugar, mas foi ovacionada pelo público, que cantava em coro o refrão "Terra, Planeta Água". Os gritos de "já ganhou" eram ouvidos mesmo antes de Guilherme cantar. No mesmo festival, ele ainda participara com a música Perdidos na Selva, cantada pelo grupo Gang 90 & As Absurdetes. Como o regulamento não permitia a inscrição de duas músicas do mesmo autor, Guilherme a inscrevera como do jornalista e crítico musical Júlio Barroso. No ano seguinte, mais uma vez o compositor chegou ao topo. Apesar de não participar como cantor, se fez presente com a composição Ria de Mim, defendida por Cauby Peixoto, que ficou com o prêmio de melhor intérprete. A música ainda foi escolhida como melhor arranjo.

No mais, os festivais revelaram o óbvio. Oswaldo Montenegro, que vinha despontando desde 1972 - quando escreveu Automóvel e deu para os Três Moraes cantarem no FIC -, ganhou o MPB 80 com Agonia, de Mongol. Atrás dele, ficaram Amelinha, com Foi Deus Quem Fez Você, de Luiz Ramalho, e em terceiro Raimundo Sodré, com A Massa, de autoria própria em parceria com Antonio Portugal. Jessé, um cantor de bailes, classificou Porto Solidão (Zeca Bahia e Gincko) para a final. Não ganhou o prêmio principal, mas foi consagrado como o melhor intérprete masculino e vendeu mais de 100 mil discos.

Em 1981, além da participação de Guilherme, o MPB-Shell Especial teve a vitória de Lucinha Lins, com Purpurina, desagradando o público. Em terceiro, veio o samba Mordomia, de Ari do Cavaco e Gracinha, cantado por Almir Guineto.

A variedade de ritmos deu o tom no MPB-Shell 1982. Emílio Santiago, com o samba Pelo Amor de Deus, de Paulo Debétio e Paulo Rezende, conquistou o primeiro lugar e fez o Maracanãzinho cantar e dançar em clima de carnaval. Na segunda colocação ficou o grupo Raíces de América, com Fruto do Suor (Tony Osanah e Enrique Bergen). O ritmo caribenho contagiou a plateia. O Festival dos Festivais, de 1985, parecia vir para inovar ao trazer composições em ritmos diferenciados, como o rock, com Os Metaleiros Também Amam. Mas na final deu o tradicional. Tetê Espíndola, com seu timbre agudo e preciso, foi a vencedora com Escrito nas Estrelas, de Arnaldo Black e Carlos Rennó. O segundo lugar ficou com Mira Ira (Vanderlei de Castro e Lula Barboza) e o terceiro, com Verde (Eduardo Gudin e Costa Neto), cantada por Leila Pinheiro, a única boa surpresa desse festival.

POR DENTRO DOS ANOS 80 As histórias interessantes que aconteciam enquanto os festivais da TV Globo se desenrolavam no palco

Lucinha Premiada e VaiadaLucinha Lins foi a vencedora do MPB-Shell Especial, realizado em 1981. Em pleno Maracanãzinho, a cantora ouviu, ao ser anunciada como melhor intérprete com a música Purpurina, de Jerônimo Jardim, uma sonora vaia que durou 15 minutos. O público preferia Planeta Água, de Guilherme Arantes, e protestou vaiando, gritando palavras de baixo calão e atirando ventarolas de papelão na cantora. Mesmo com lágrimas nos olhos e voz embargada, ela fez sua apresentação final. No dia seguinte, contava hematomas nas costas e dores pelo corpo. Apesar do vexame, ela manteve a pose de vencedora. Em declaração à revista Veja, em 23 de setembro de 1981, Lucinha afirmou: "As vaias não afetaram nem minha vida profissional, nem pessoal. Sou uma mulher feliz. E não costumo carregar traumas pela vida".

Música Censurada

O festival realizado em 1980 chamou a atenção também pelas letras que faziam apologia

do homossexualismo e ao uso de drogas. Sandra de Sá, na época apenas Sandra Sá, dividiu preferências com Demônio Colorido. Na música, ela elogiava a "amiga de olhos verdes". Mas polêmica mesmo quem criou foi a dupla Baby Consuelo (Baby do Brasil) e Pepeu Gomes, com O Mal É o que Sai da Boca do Homem. Em plena ditadura, os dois subiram ao palco cantando um trocadilho com a palavra "baseado", com os versos Você pode fumar baseado/ baseado em que você pode fazer quase tudo/ Contanto que você possua/ mas não seja possuído/ Porque o mal nunca entrou pela boca/ do homem.../ Porque o mal é o que sai da boca/ do homem... A canção conquistou a plateia e chegou até a final do festival. Logo depois, foi proibida, passando a tocar nas rádios apenas

em versão instrumental, e rendeu ao casal um processo do qual foi absolvido um ano depois.

Tags: Festivais da TV Globo,

1 comentário(s) de 1

  1. Amei os festivais.A globo deveria infestir de novo nos festivais.Pensa nisso.

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