Literatura
Ficção inédita o louco da província
Joel submetia o corpo a uma disciplina ascética. Não comia carne, fazia exercícios com pesos e nadava todos os dias, mesmo que o frio estivesse a zero grau. Como às seis da manhã o Atlético Clube ainda estava fechado, ele pulava o muro e ficava cruzando os 25 metros da piscina durante duas, três horas. Suas excentricidades lhe valeram o apelido de “Joel maluco”. Ele fazia por onde. Era capaz de acender uma fogueira com o violão porque desafinou. Ou andar nu pelas ruas da cidade tarde da noite. Feio, baixo, atarracado e forte, usava sua feiúra para amedrontar as crianças, que fugiam dele à distância. Com um esgar e um jeito especial de arregalar os olhos, deformados pelas lentes fundo de garrafa, obtinha um efeito que conseguia aterrorizar não só as crianças. Mais impressionante ainda era o seu riso histérico, interminável, que se fazia ouvir ao longe.
Numa madrugada muito fria ele ameaçou me matar. Estávamos os dois sentados num banco do largo conversando, quando de repente ele confessou, encarando-me estranhamente, que estava sendo possuído por um impulso irrefreável de me estrangular. “Eu não sei se vou me controlar.” Não por coragem, mas por paralisia, não reagi. Fiquei imóvel. Gelado de frio, eu suava de medo. Mas ouvi a ameaça com fingida naturalidade. Só Deus sabia como. Suas mãos foram avançando, avançando em direção ao meu pescoço até o envolverem. Aí pararam. A encenação terminou com a sua tão conhecida gargalhada — gargalhada de louco, como se dizia na cidade. Era um teste de coragem e eu tinha sido aprovado. A notícia se espalhou e a partir daí passei a ser um dos membros mais respeitados do círculo. Em filosofia, zero. Mas em (fingido) destemor, dez.
Eu frequentava os dois grupos; às vezes na mesma noite, principalmente depois que comprara uma bicicleta de segunda mão com o meu primeiro salário pago por meu pai. Tremendo de frio, com os dentes batendo sem parar, as mãos quase dormentes, os olhos lacrimejando, aquele vento cortando o meu rosto e aquela fumaça que saía da boca como se a gente estivesse fumando, lá ia eu.
Eu soprava o vapor fazendo de conta que era fumaça de cigarro. Era uma viagem que tinha tudo para ser desconfortável, até penosa, e no entanto era uma sensação de liberdade só comparável à que eu tivera ao deixar o colégio dos padres. Se algum dia me senti completamente livre foi em cima daquela minha primeira bicicleta.
Uma noite, Joel apareceu na roda de Pepe com uma notícia que escandalizou todo mundo:
“Ontem, eu perdi minha virgindade!” Toda a turma quis saber como e com quem. Feito o silêncio e criado o suspense, ele respondeu:
— Com minha prima de 12 anos.
Já se sabia que, em tese, Joel defendia a pedofilia e o incesto, tanto que ficou amigo do casal misterioso, recém-chegado que, segundo as más-línguas, eram irmãos e dormiam juntos. Não se sabia se era verdade, Joel dizia que sim e lhes dava o maior apoio. “Eles fazem muito bem. Comer irmã deve ser ótimo. Infelizmente, não tenho nenhuma, então comi a prima.”
— Mas 12 anos! — gritou Samuel, católico e moralista.
Para irritá-lo ainda mais, Joel fingiu acreditar que ele estava achando muito:
— Mas é conservada.
Samuel retirou-se indignado.
— Sempre soube que você era maluco, mas não tarado.
— Espera aí, não vai, não. Você sabe quantos anos tinha Beatriz quando Dante se apaixonou por ela? Nove anos. E Laura, de Petrarca? Treze anos incompletos. Deixa de ser hipócrita. Vai dizer que nunca quis comer uma menininha, Samuel?
Pepe, que não lia por inteiro nem jornal e nunca fora além da praça, orgulhando-se das duas coisas, quis saber:
— E onde estão morando esses dois outros tarados, Joel?
O que acontecia fora — no Rio ou até no mundo — chegava a Florida, não é que não chegava, ainda que lenta e fragmentadamente. Mas faltava repercussão local, as ideias e informações não eram discutidas no colégio, em casa ou no jornal, ou eram muito pouco, quase não produziam efeito. Aquele pedaço em frente à Favorita funcionava como a nossa ágora. As novidades provocavam no grupo grande excitação mental. Havia noites em que as discussões ameaçavam degenerar. Principalmente quando aparecia por lá meu primo Ari, o “galinha verde”, como o chamava Leleco, que por sua vez era chamado de “bode vermelho”. Mais velho que Emílson e recém-casado, era saudado pelo grupo com brincadeiras indiscretas pelo fato de deixar a mulher sozinha em casa nem bem terminara a lua de mel. Ari defendia a tese de que o Brasil deveria entrar logo na guerra ao lado do Eixo, porque, segundo ele, os alemães seriam os vitoriosos. Ele pertencera à Juventude Integralista e chegara a desfilar com a camisa verde com o sigma bordado na manga. Tinha um carinho especial por mim, e logo depois eu soube por quê.
O LIVRO: Sagrada Família, de Zuenir Ventura. Alfaguara, 227 págs., preço a definir.
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