Música
Flautas e Oboés na Periferia
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Foto Jefferson CoppolaFUTURO MELHOR Acima, Geisiane Oliveira de Souto toca oboé. O Instituto Baccarelli mudou o destino destes jovens -
Foto Jefferson CoppolaFUTURO MELHOR Acima, o violinista Jucivan Alves dos Santos, que integra a Sinfônica Heliópolis. O Instituto Baccarelli mudou o destino destes jovens.
Há seis anos, Heliópolis, na zona sul de São Paulo, não é só conhecida por ser a maior favela da cidade. Existem dias em que só o que se vê por lá são jovens, entre 14 e 27 anos, circulando com violinos, contrabaixos, flautas e oboés. E aí os vizinhos já sabem: é dia de ensaio da Sinfônica Heliópolis. Reconhecida como um dos mais bem-sucedidos casos de promoção social do país, a orquestra, que já tocou até para o papa Bento XVI, fez uma turnê pela Europa no ano passado. Os meninos voltaram de lá com histórias para contar: alemães, holandeses e ingleses pediram bis.
A orquestra começou a existir graças à iniciativa de um músico. Ao assistir pela TV as imagens do incêndio de 1996, que devastou parte da favela, o maestro paulista Silvio Baccarelli resolveu ajudar. Procurou a diretora da Escola Municipal Gonzaguinha e se ofereceu para dar aula de instrumentos aos alunos. No início, a turma de 36 estudantes ia de ônibus até a escola de Baccarelli, na Vila Mariana, um bairro de classe média. Em 2005, com o apoio da Lei Rouanet e a entrada de patrocinadores como Volkswagen, Votorantim e Petrobras, o projeto passou a funcionar em um espaço alugado em São João Clímaco, o bairro onde a favela se localiza.
Quatro anos depois, com a ajuda financeira da entidade sem fins lucrativos Pró-Vida, foi inaugurado um edifício feito sob medida para abrigar a escola de música. Fica encostado à favela e conta com 33 salas de estudo e ensaio com isolamento acústico apropriado. "Planejamos erguer ainda um teatro para motivar a comunidade a assistir aos concertos e atrair pessoas de outras regiões", diz Edmilson Venturelli, diretor de relações institucionais do Insituto Bacarelli. "Inclusão social é isso", acredita. O maestro paulistano Isaac Karabtchevsky, que assumiu no início do ano a direção criativa do Baccarelli, está disposto ainda a levar o exemplo a outros núcleos da cidade. "Trata-se de formar um centro de irradiação cultural, e não apenas restrito à música. Heliópolis é a primeira delas, mas a tendência será, sem dúvida, a multiplicação."
MÚSICA E NECESSIDADE
Ao longo desses anos, o número de alunos saltou para 1,1 mil. Muitos recebem bolsa de estudo, que varia entre 1,2 e 3,6 mil reais mensais - uma política criada em 2003 para que os jovens não abandonem a música por causa da necessidade de contribuir com a renda familiar. Mudou também o processo seletivo para a entrada na orquestra: hoje são aceitos candidatos de outros bairros, cidades e até países. Foi assim que o norte-americano William Anthony Brichetto, 24 anos, foi parar em Heliópolis. Ouviu falar da qualidade da sinfônica, fez o exame e há nove meses é um dos contrabaixistas da orquestra. Num caminho inverso, quatro ex-alunos do Instituto Baccarelli tocam atualmente em orquestras fora do país, em Israel e na Alemanha.
Os que iniciam a aprendizagem, no entanto, ainda chegam exclusivamente por meio das escolas públicas da região. Geisiane Oliveira de Souto, 10 anos, não sabia o que era música erudita quando a mãe a inscreveu no programa há quatro anos. "É de graça e eu queria que minha filha tivesse um futuro melhor", diz Maria Aparecida. Agora, a menina, que passa as tardes estudando oboé, sonha em entrar para a sinfônica. O violinista Jucivan Alves dos Santos, 26 anos, conseguiu. Ele toca no instituto desde 2000 e agora, além de participar da orquestra, dá aula aos mais novos. Recebe 20 reais por hora de trabalho. "Minha vida é tocar", diz.
1 comentário(s)
Comentado em 19.07.2011 às 10:55 por Alex Zanetti de Lima:
Ótima reportagem.