Literatura
Gabriel Garcia Márquez - Gentil, Mas Sóbrio
Pode-se argumentar que, aos 82 anos de idade, a reputação literária do colombiano Gabriel García Márquez está estabelecida. Sua cotação na Bolsa de Valores Literários deverá sofrer oscilações ao longo do tempo, como a de qualquer escritor que não seja simplesmente esquecido, mas poucas vozes - como a do exilado cubano Guillermo Cabrera Infante, um desafeto político morto em 2005 - deram-se ao trabalho de lamentar seu "folclorismo e exotismo realmente desnecessários". Cem Anos de Solidão é um monumento cravado na história da literatura, ponto. E, como seus três ou quatro principais livros depois dele mantêm o sarrafo lá no alto, o solo sob os pés do escritor parece firme. No caso de Gabo, a reputação que falta fixar é a do homem público, a do "político" - papel que o ex-menino pobre e franzino de Aracataca passou a representar de modo praticamente profissional depois de se consolidar como celebridade planetária com o Nobel de literatura de 1982.
Foi essa frente política - ou seriam fundos? - que a crítica internacional atacou com maior apetite em Gabriel García Márquez: Uma Vida, a notável biografia autorizada que o inglês Gerald Martin publicou ano passado, após 17 anos de trabalho, e que chega mês que vem ao Brasil. Não adianta dizer que o homem político interessa pouco, que só se deve julgar um escritor por sua obra: García Márquez se impõe no papel não só por sua estética "terceiro-mundista", influenciadora de gerações de escritores ditos pós-coloniais, mas sobretudo por uma atuação pública de esquerda que sobreviveu à própria ideia de esquerda. Como separar vida e obra de quem prometeu em 1975, após lançar O Outono do Patricarca, que não voltaria a escrever romances enquanto o ditador chileno Augusto Pinochet estivesse no poder - promessa felizmente descumprida?
Admirador de primeira hora de Fidel Castro e seu amigo desde meados dos anos 1970, o escritor ilustre veio a se tornar também seu maior avalista internacional - disparado - à medida que o efeito a longo prazo do bloqueio comercial a Cuba e os novos ares políticos do mundo foram convertendo o ex-líder revolucionário romântico num dinossauro político. Essa amizade custou caro ao conceito de Gabo em certos círculos. Sem esconder sua condição de fã, Gerald Martin encara o tema, mas mesmo assim levou cascudos da maioria dos críticos por se abster de julgar seu personagem, jamais se declarando contra um apoio polêmico que não foi retirado nem quando, no episódio dos fuzilamentos de presos políticos cubanos em 1989 - entre eles um amigo de Gabo, o general Arnaldo Ochoa - o mundo intelectual lhe desabou em cima. O ex-amigo e depois inimigo do peito Mario Vargas Llosa deu-lhe um cruel apelido, que pegou: "Lacaio de Fidel". Natural: será sempre alto - e justo - o preço pago por um artista de peso ao endossar um regime ditatorial que passa sentenças de morte por crimes de opinião. Isso não quer dizer que não haja um tipo de coerência na posição de Gabo - e isso o livro de Martin expõe com clareza, ainda que com economia de adjetivos. Os fatos não são menos eloquentes por serem "autorizados".
A imagem de García Márquez como intelectual público que deles emerge é infinitamente mais complicada que a do escritor consagrado: contraditória, às vezes indefensável e maculada por doses maciças de vaidade e fascínio pelo poder, mas ao mesmo tempo corajosa e com traços de ingenuidade - um escritor, talvez o último de sua linhagem, que sonhou influenciar os rumos da humanidade para além dos livros. Basta levar em conta um mínimo de contexto histórico e cultural para deixar evidente a má vontade da resenha sobre o livro de Gerald Martin que o escritor Paul Berman publicou no jornal The New York Times: "Por que García Márquez escolheu travar tal amizade [com Fidel] é algo que eu não consigo explicar". Quando tenta, Berman só consegue dizer que o escritor "sempre foi fascinado pelo grotesco, pelo patético e pelo improvável." A explicação é outra, claro. Visto por García Márquez - visto, por sua vez, por Martin - Fidel é o maior nome da política latino-americana no século 20, líder de uma revolução que, devido ao bloqueio americano, passou por dificuldades, endurecimentos e erros, mas nada que lhe tirasse o mérito fundamental da auto-afirmação de um continente marcado por séculos de servilismo. Isso é García Márquez puro.
Dickens e Harry Potter
Não se trata de defender sua posição, mas de compreendê-la. Quando narra o famoso caso em que o escritor atuou como guarda-costas de Fidel em visita à Colômbia, em 1994, seu biógrafo não foge da informação e ainda acrescenta ao quadro um detalhe fundamental: ao se prontificar a tomar um tiro no lugar do amigo, o que Gabo expunha, mais do que lealdade cega, era o orgulho de quem se considerava inatingível em sua posição de herói popular - ora, que colombiano arriscaria lhe fazer mal? Com exceção dos trechos em que enaltece os méritos literários do biografado, Martin é um narrador sóbrio, embora nunca menos que gentil com seu personagem. Sóbrio a ponto de, quem sabe a despeito de si mesmo, terminar por ser imparcial. Quando García Márquez brincou que "todo escritor deve ter um biógrafo inglês", talvez não captasse todo o alcance da frase.
Mais embaraçosa sob certos aspectos era sua amizade festiva com Omar Torrijos, ditador populista do Panamá, também detalhada no livro. Desse quebra-cabeça político desponta um García Márquez que, como sua prosa, é mais colorido e barroco do que reto, embora tenda a ser de uma lealdade quase mafiosa a seus amigos - veja-se o modo como se aferrou a Fidel em seus tempos mais difíceis, no momento em que a maré do mundo virava com a ascensão de João Paulo 2º, Margaret Thatcher, Ronald Reagan e Mikhail Gorbachev. A defesa politicamente incorreta que fez de seu também amigo Bill Clinton no episódio Monica Lewinsky é mais uma confirmação desse estilo.
Personalista e não programático, Gabo cultivou ainda as boas graças de esquerdistas moderados, como o francês François Mitterrand e o espanhol Felipe González - e apoiou até um candidato conservador à presidência da Colômbia, Andrés Pastrana. Em compensação, nunca foi fã de Hugo Chávez, apesar de compartilharem o anti-americanismo. A vaidade transoceânica é a face menos favorável do baixinho Gabo. Fica óbvio o prazer que ele sente no papel de mediador universal: o escritor no labirinto de sua própria influência, sob o peso de uma fama achachapante, brincando de resolver os problemas do mundo.
Esta é a segunda metade do livro, pós-sucesso e pós-Nobel. A primeira, que se lê como um conto de fadas, destrincha a intrincada árvore genealógica que García Márquez se dedicou a espelhar e deformar em suas histórias e o segue passo a passo, quase dia a dia, por meio de uma apuração de rigor maníaco: os primeiros anos de menino praticamente abandonado por pai e mãe, a adolescência entre prostitutas, o horizonte curto de um rapaz pobre perdido na zona bananeira da Colômbia que de repente ganhou uma bolsa de estudos salvadora, virou jornalista e casou-se com seu amor de infância, a discreta Mercedes, com quem teve filhos, correu o mundo e passou por situações de extrema penúria. Até que, em 1967, como se fosse uma pedra filosofal levada a Macondo pelo cigano Melquíades, Cem Anos de Solidão transformou a abóbora em carruagem de ouro. Aqui tem-se a impressão de que Gabriel García Márquez: Uma Vida esgota seu tema - e em certas passagens, reconheça-se, também o leitor. Meticuloso e incansável, Gerald Martin é o tipo de autor que ganha por pontos, mas atravessar suas seis centenas de páginas linha por linha é tarefa recomendada apenas a fãs cascudos.
Uma boa ideia do que foi o impacto de Cem Anos de Solidão pode ser alcançada imaginando-se uma fusão absurda, a de um Charles Dickens moderno com Harry Potter para adultos, temperada por um Jorge Luis Borges que vendesse horrores. Algo que todo mundo era obrigado a ler, que entusiasmava tanto a telefonista do escritório quanto o pós-doutor de Harvard. Nenhum escritor de meio século para cá, talvez mais, chegou perto de operar a mágica desse casamento de alta cultura e cultura de massa com a eficiência de Gabriel García Márquez (talvez Umberto Eco e seu O Nome da Rosa venham em segundo lugar, mas muito longe). Quem, aborrecido com o excesso de informação, resolver zapear o impressionante tijolo de Gerald Martin deve tomar o cuidado de não pular o capítulo 15, com suas 11 páginas comoventes dedicadas ao processo de feitura dessa obra-prima.
Sérgio Rodrigues é jornalista e escritor, autor de Elza, a Garota, entre outros.
O LIVROGabriel García Márquez: Uma Vida, de Gerald Martin. Ediouro, preço a definir.
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