Revista

A A A
Divulgação
iracema-148-g
Edna de Cássia e Paulo César Pereio em Iracema. O longa tem como pano de fundo a devastação da floresta amazônica na década de 1970

Em outubro de 1974, meia dúzia de pessoas saía de São Paulo dentro de uma Kombi com destino a Belém, no Pará. Nela se encontravam o diretor Jorge Bodanzky, o codiretor Orlando Senna, um produtor alemão chamado Wolf Gauer e outros três integrantes da equipe de filmagem de Iracema, uma Transa Amazônica. O grupo carregava apenas uma câmera Eclair muito leve, uma lente zoom, um tripé, negativos em 16 mm e algumas lâmpadas. Cerca de 40 dias depois, estava de volta. À medida que as filmagens se desenrolavam, os negativos eram enviados para a Alemanha - mais precisamente para a sede da ZDF, emissora pública de TV que financiava a empreitada.

Em dezembro daquele ano, a versão final de Iracema ficou pronta. O longa de 90 minutos se atrevia a retratar um fenômeno raríssimas vezes abordado na época: a devastação da floresta amazônica. A ousadia fez com que o governo militar o proibisse no país até 1980. Mas isso não impediu que a obra corresse o mundo e se tornasse uma lenda. Mesmo no Brasil, cinéfilos conseguiam vê-la em sessões clandestinas na casa de Bodanzky e em alguns cineclubes.

A ideia inicial dos diretores era registrar os estragos ambientais e sociais que um projeto caro à ditadura - o da rodovia Transamazônica, até hoje intransitável em boa parte do ano - causou à região. O filme também contava a história fictícia de Iracema (Edna de Cássia), menina cabocla de 14 anos que se prostitui e se amasia com um caminhoneiro gaúcho, Tião Brasil Grande. Interpretado por Paulo César Pereio, o motorista transportava madeira ilegal da Amazônia para São Paulo.

A produção se tornou um clássico não somente pelo forte conteúdo de denúncia, mas pela originalidade de sua linguagem. A inovação se deve principalmente ao fato de o roteiro criar sequências nas quais os atores se aproximam de pessoas reais sem deixar claro que se trata de uma encenação. Quando dialoga de improviso com Tião Brasil Grande, por exemplo, um madeireiro de verdade acredita que o personagem é mesmo um caminhoneiro do Sul e atribui a presença da câmera à realização de uma reportagem.

Não à toa, Iracema figura entre os primeiros filmes do mundo classificados como documentário/ficção - gênero híbrido de que o cineasta paulistano Eduardo Coutinho se valeu em 2007 para lançar o aclamado Jogo de Cena. Outro representante ilustre desse modelo é Entre os Muros da Escola, do francês Laurent Cantet, que ganhou o Festival de Cannes no ano passado. O longa retrata os embates de um professor com filhos de imigrantes num colégio da periferia de Paris. Tanto o docente quanto muitos dos alunos não são atores profissionais e vivem, longe das telas, situações similares às que representam. O sucesso de ambos os filmes serviu para demonstrar que, ainda hoje, o estilo inaugurado por Iracema mantém um admirável vigor.

Tags: Iracema, Uma Transa Amazônica - Clássico do Mês,

Comente

Nenhum comentário