Literatura
Japão Sórdido e Sangrento
A publicação de Do Outro Lado, romance da escritora Natsuo Kirino, deve ser celebrada num momento em que a literatura japonesa recebe no Brasil atenção crescente, mas ainda menor do que no hemisfério norte, onde novos livros e autores costumam ser traduzidos com maior regularidade. Fenômenos como Haruki Murakami à parte, as iniciativas locais para a edição dos japoneses contemporâneos são raras. Se a barreira da língua é motivo para justificar essas lacunas, já que não são muitos os tradutores qualificados de japonês no Brasil, a edição de Do Outro Lado dribla esse problema. A tradução é da versão inglesa. Com isso, perde em qualidade, mas ganha em rapidez e custo.
De qualquer forma, o romance policial de Natsuo Kirino, ex-garçonete, hoje escritora best-sellers, foi originalmente publicado em 1997. Num país onde para ler os últimos japoneses temos de aprender a língua ou procurar versões inglesas, quase não dá para dizer que o livro é velho. Até porque o retrato seco que a escritora traça do Japão em 544 páginas não envelheceu.
Do Outro Lado (Out, em inglês) é um policial noir com tintas folhetinescas que explora a rotina de quatro mulheres de classe média baixa num distrito dos subúrbios de Tóquio. Afundadas em dívidas, elas trabalham à noite embalando alimentos numa linha de montagem. Depois de desinfetadas de cima a baixo, montam pratos feitos, daqueles envoltos em plástico que se encontram em lojas de conveniência por todo o arquipélago japonês.
A rotina dessas mulheres sempre exaustas, sempre subjugadas pelos homens, sempre desprezadas pelos filhos, sempre pobres e sempre deprimidas é relatada por Kirino com riqueza de detalhes. Se a autora em princípio não parece se ocupar muito com a linguagem (a descontar o fato de que lemos uma tradução, e uma tradução de outra tradução), o tom direto das ações e as descrições precisas e sem muitas adjetivações, com frases curtas, ajudam a construir um ritmo e um tom quase que monocórdios para o romance tom e ritmo que espelham a vida cinzenta e comezinha dessas mulheres.
Mas suas existências letárgicas sofrerão forte abalo, para sorte delas e dos leitores desse romance. Logo na página 69, ocorre um crime familiar que acabará por conectar as donas de casa desesperadas com o sórdido submundo de Tóquio. O que pode ser contado é que Yayoi, a mais bela delas, enforca o marido, Kenji, com um cinto. As amigas Masako, Yoshie e Kuniko acabam por ajudá-la a livrar-se do corpo de uma forma nada ortodoxa, e aí o livro deslancha, ainda que lentamente, para o thriller de mistério que anuncia ser.
RELAÇÕES MERCANTISNo caminho, descobriremos que o marido assassinado era viciado em jogo e frequentava um bar de acompanhantes no Kabukicho, o bairro do jogo e da prostituição de Tóquio. Kenji estava apaixonado por uma de suas recepcionistas, uma chinesa alcunhada Anna, protegida pelo dono do bar, Satake, ex-presidiário cujo passado violento o levou a ser rejeitado pela própria Yakuza, a máfia japonesa. A trama sinuosa do livro fará com que um falido Satake desembarque no subúrbio de Musashi-Murayama e na vida das protagonistas, com consequências pouco agradáveis para o quarteto de amigas.
Esses bares de acompanhantes, ou hostess clubs, são muito populares no Japão. Neles, pode-se gastar uma fortuna para ser bajulado por uma mulher que lhe serve drinques, conversa banalidades ou canta karaokê um contraponto moderno para as gueixas. Há menos erotismo do que um ocidental poderia imaginar, embora em certos casos possa haver sexo fora do horário de trabalho. Pelas ruelas de Kabukicho, veem-se na fachada de alguns prédios as fotos das acompanhantes e o ranking de seus ganhos em milhões de ienes. Algumas delas se tornam pequenas celebridades do quarteirão. Enriquecem, literalmente, vendendo conversa.
Esse sentido de mercantilização das relações humanas permeia todo o romance assim como a sociedade onde ele se constrói. Não são apenas as lolitas de boa família que se deitam com executivos ou jovens da Yakuza em troca de dinheiro no bairro de Shibuya, mas as amigas de Yayoi também cobram pelo favor de despachar o cadáver de seu marido. Todas as suas relações familiares, além disso, parecem basear-se no mesmo princípio. Até o encontro platônico-romântico entre o brasileiro do romance, o paulistano Kazuo, e a heroína Masako se resolve num plano de troca de favores. (O tema da imigração é lateral no livro; os brasileiros são citados quase como parte da paisagem, o que realmente são naquele país.)
Entre tanta superficialidade, esquematismo e falência afetiva, parece que ali a vida se encontra na sua própria negação, em pulsões nada oníricas de sexo e morte, que é justamente quando a prosa de Kirino ganha garras afiadas, espirrando sangue e secreções outras no rosto do leitor. Por trás de sua aparente banalidade, Do Outro Lado nos faz entrever as mais íntimas contradições de um Japão sem glamour.
João Paulo Cuenca é autor de Corpo Presente e O Dia Mastroianni. Seu terceiro romance, Noturno para Submarinos, é inspirado numa viagem a Tóquio e deve sair no segundo semestre de 2009.O LIVRO
Do Outro Lado, de Natsuo Kirino. Tradução do inglês de Roberto Wander Nóbrega. Rocco, 544 págs., R$ 57.
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