Sala de Aula
Jorge Amado e Capitães da Areia
Foto Otto Stupakoff / Acervo Instituto Moreira Salles
O romancista com seu cachorro, o pug Fadul Abdala
Objetivos
Contextualizar a ficção brasileira da década de 1930
Pesquisar e refletir sobre a vida e a obra de Jorge Amado
Analisar trechos de cinco capítulos do romance Capitães da Areia
Conteúdos
Ficção brasileira dos anos 1930
Obra do escritor Jorge Amado
Tempo sugerido
Duas aulas
Materiais necessários
Cópias da reportagem "A revanche de Jorge Amado" publicada na edição 180 da revista BRAVO!
Trechos de cinco capítulos de "Capitães da Areia"
Cartolinas e material para a produção dos cartazes
Computadores com acesso à internet e caixas de som
Introdução
A obra de Jorge Amado (1912-2001) sempre despertou interesse do grande público. Não é à toa que já foi traduzida para diversas línguas, inclusive japonês, russo e tcheco. Apesar do enorme sucesso, somente nas últimas décadas a crítica reconheceu suas qualidades literárias.Para os estudiosos de hoje, a principal característica do autor de "Capitães da Areia" (1937) é a técnica de narrador de ofício. O relançamento de toda obra de Jorge Amado contribui para que a crítica reavalie sua opinião. Segundo reportagem publicada na revista BRAVO!, a maior virtude do escritor é "transformar a experiência de vida e de leitura em linguagem ficcional, movida por uma imaginação poderosa". Aproveite para despertar o interesse da turma pela leitura dos livros de Jorge Amado, em especial, o romance Capitães da Areia. A obra é recomendada para todo estudante de Ensino Médio pela presença constante na lista dos livros solicitados para os vestibulares de todo o país.
Desenvolvimento
Preparação
Devido à grande popularidade de Jorge Amado, peça, antecipadamente, que os alunos tragam obras do romancista de casa ou da biblioteca (também podem ser estudos sobre ele ou adaptações cinematográficas). Faça você também pesquisas em bibliotecas e na internet e leve referências sobre o escritor para a sala. O levantamento de todo este material reforçará a relevância de Jorge Amado para a turma.Para continuar o trabalho, procure também obras de outros romancistas brasileiros da década de 1930 que se caracterizavam pela crítica da sociedade. Sugerimos "O Quinze" (1930) de Rachel de Queiroz, "O Moleque Ricardo" (1935) e "Usina" (1936) de José Lins do Rêgo e "Vidas Secas" (1938) de Graciliano Ramos.
Aula 1 - Obra e crítica literária
Na sala de informática, organize uma exposição com os materiais trazidos pelos alunos e por você. Pergunte o que a turma conhece sobre o autor de "Dona Flor e Seus Dois Maridos" (1966). A turma pode lembrar, por exemplo,da minissérie Gabriela atualmente exibida na Rede Globo. Fale sobre a relevância de Jorge Amado como um escritor que, nas palavras de Caetano Veloso, "é um dos inventores do povo brasileiro" (ver reportagem de BRAVO!).
Comente que, após os "tumultos" promovidos pelas inovações estéticas apresentadas durante a Semana Moderna de 1922, muitos escritores da década de 1930, mais do que se preocuparem em dar sequência aos anseios modernistas, questionavam como produzir obras que retratassem as injustiças sociais do país. Por isso a publicação, na época, de obras como "O Quinze" de Raquel de Queiroz. Faça a apresentação das obras que sugerimos na preparação desta aula e pergunte aos alunos se já leram alguma. Ressalte que todas se caracterizam pela denúncia das mazelas do povo nordestino, por isso são chamadas de ficção regionalista.
Em seguida, apresente à turma a reportagem "A Revanche de Jorge Amado", de José Geraldo Couto, publicada na edição de agosto de 2012 da revista BRAVO!. Peça que façam a leitura do texto. Esclareça eventuais dúvidas e pergunte qual é a ênfase da reportagem. A turma deverá perceber que a dica se encontra no próprio título, pois somente nos últimos tempos é que a obra de Jorge Amado vem recebendo um olhar mais atencioso da crítica.
Apesar da popularidade do autor fora do Brasil, "a apreciação de seu valor literário pela crítica nunca atingiu a unanimidade. Durante muito tempo, o romancista baiano - que completaria 100 anos no dia 10 de agosto - foi visto por uma parcela significativa da intelectualidade brasileira como um escritor menor". Daí as severas críticas de grande parte da intelectualidade brasileira, como Alfredo Bosi que identificou nas obras de Jorge Amado marcas de pieguice, volúpia, estereótipos e descuido formal em nome da oralidade, entre outras imperfeições.Para finalizar a aula e conhecer um pouco mais sobre o romancista, apresente um vídeo de curta duração em que Jorge Amado fala sobre o povo brasileiro. Este vídeo está disponível no site da Fundação Casa de Jorge Amado. Nele, percebemos a visão otimista do escritor sobre as injustiças sociais e a celebração da consolidação da democracia.
Aula 2 - Capitães da Areia
Retome brevemente o conteúdo da aula anterior e pergunte à turma se já leram o romance "Capitães da Areia" publicado em 1937. Alguns poderão dizer que não conhecem o livro, mas podem se recordar que já assistiram sua adaptação para o cinema. A obra já ganhou duas versões cinematográficas. A primeira, de 1979, foi dirigida por Hall Bartlett. A segunda, de 2011, foi dirigida por Cecília Amado, neta do escritor.
Questione se a abordagem da história das crianças abandonadas é um assunto atual e preocupante no Brasil. Dê um tempo para a discussão e, em seguida, divida a sala em cinco grupos. Cada grupo será responsável pela leitura e análise de uma parte do romance "Capitães da Areia" e deve identificar suas principais características. Para orientar a turma, você poderá fazer perguntas diferentes para cada grupo conforme o capítulo que estarão lendo:
Grupo 1 - "CARTAS À REDAÇÃO" (Leitura da notícia de jornal sobre os Capitães da Areia e das cartas relacionadas a este assunto)
Questione a forma textual escolhida por Jorge Amado para iniciar o livro. Pergunte se o modelo jornalístico é um bom modo para introduzir uma história e se ela causa expectativa no leitor. Qual é a função da notícia de jornal e das cartas na introdução do romance? A mistura de gêneros textuais (romance, jornal, carta) pode ser vista como índice de modernidade?Este grupo deverá atentar que esta forma de iniciar o livro é uma estratégia para apresentar resumidamente a temática central do livro, ou seja, a divergência de opiniões em relação ao problema das crianças abandonadas em Salvador, capital da Bahia.Como essência da notícia jornalística, este modelo textual tende a responder cinco questões básicas: o que aconteceu?, quem estava envolvido?, onde aconteceu?, quando aconteceu e omo aconteceu? Veja se este grupo consegue responder a todas estas perguntas. Aproveite para questionar o tom do jornal em relação às crianças abandonadas.
Grupo 2 - "Noite dos Capitães da Areia" (trecho a ser lido: do início do capítulo até o momento em que Pedro Bala recebe um cigarro de João Grande e sai em busca de Gato para tratar de um assunto particular)
Pergunte como é feita a apresentação dos Capitães da Areia. Questione se o narrador (em 3ª pessoa) inicia este capítulo de uma forma poética, quando, por exemplo, compara a figura de João Grande à vela de um barco caminhando sobre areia. Qual é objetivo desta ação? Por que João José, o Professor, era muito respeitado pelos outros meninos do bando? O grupo deve compreender que a comparação de João Grande à vela corresponde a uma das várias passagens líricas do texto que, quando somadas às aventuras do bando, recebem "as cores do romanesco heroificador", segundo declaração de Eduardo de Assis Duarte, em "Classe, gênero, etnia: povo e público na ficção de Jorge Amado".
Já o Professor, fanático por livros, - "o único que lia corretamente entre eles" - era muito querido pelo bando por ser muito inteligente e um exímio contador de histórias, além de possuir uma habilidade natural para o desenho. Acrescente que este tipo de personagem valoriza a tradição romanesca, pois sua essência é justamente narrar histórias. A intertextualidade de Capitães da Areia se dá basicamente por meio das histórias narradas pelo Professor aos meninos do bando. Procure explorar melhor esta relação entre textos. E pergunte se as histórias de aventuras e seus personagens heroicos, que os Capitães da Areia tanto gostam de ouvir, podem influenciar suas ações.
Grupo 3 - "Ponto das Pitangueiras" (trecho a ser lido: do início do capítulo até o momento em que Pedro Bala, chefe do bando, se prepara para invadir uma casa e roubar um embrulho encomendado)
Como é retratada a fala dos Capitães da Areia? Quais são os motivos que os levam a cometerem seus crimes? Este grupo deve perceber que a representação da fala dos meninos corresponde à linguagem informal, repleta de gírias e de erros gramaticais ("hoje nós vai fazer o gasto", disse Gato ao garçom de um restaurante). Esclareça que, com isso, o autor procura ser fiel ao conceito aristotélico de mimese: a representação da realidade por meio da ficção literária. Lembre-se que ligado a este conceito teremos a questão da verossimilhança. Assim, não seria verossímil ver uma linguagem culta na fala de crianças abandonadas e que nunca frequentaram a escola.
Quanto à motivação em um romance, segundo David Lodge, em "A Arte da Ficção", "seu objetivo é nos convencer de que os personagens agem da forma como agem não só porque assim servem aos desígnios da trama [...], mas porque uma série de fatores internos e externos combinam-se de forma plausível para justificar seus atos". Pergunte ao grupo quais seriam estes fatores. Lembre-se que o narrador sempre dá justificativas aos atos de infração cometidos tanto pelo bando quanto pelo padre José Pedro. Questione se o fato dos Capitães da Areia não receberem praticamente nenhum apoio assistencial é justificativa para cometerem crimes.
Grupo 4 - "As luzes do carrossel" (trecho a ser lido: do início do capítulo até o momento em que Volta Seca sobe no carrossel e dá corda a uma pianola que começa a tocar uma valsa antiga e todos se aglomeram para ver o espetáculo)
Qual é a intertextualidade presente neste trecho da obra? O fato das ações no romance ocorrerem ao mesmo tempo em que se passam as aventuras de Lampião e seus seguidores serve como índice de temporalidade para a trama de Jorge Amado? Os alunos do grupo já ouviram falar sobre Antônio Conselheiro e a Guerra de Canudos (1896-1897)? Este grupo deverá perceber que as referências ao grupo de Lampião, por meio da citação direta, servem tanto como índice de intertextualidade como de temporalidade ao cruzar personagens fictícios com figuras reais da nossa história e que também estão retratadas em "Os Sertões"(1902) de Euclides da Cunha.Deste modo, para reforçar a luta contra as injustiças sociais no nordeste do país, as histórias dos Capitães da Areia ocorrem ao mesmo tempo que as aventuras de Lampião e seu grupo, ou seja, no final do século 19. Por isso a preocupação ética de Amado com a situação das crianças abandonadas retrata uma época anterior ao lançamento do livro, em 1937.
Grupo 5 - "Docas" (trecho a ser lido: do início do capítulo até o momento em que Pedro Bala, assim como seu pai, imagina um dia fazer parte da greve e lutar pelos direitos trabalhistas dos doqueiros)
Quais são as marcas de crítica social presentes neste trecho da obra? Os alunos deste grupo deverão atentar que ao introduzir a questão grevista, o livro, segundo declaração de Eduardo de Assis Duarte, em "Classe, gênero, etnia: povo e público na ficção de Jorge Amado", "se deixa banhar pelo discurso da utopia socialista, o texto revela claramente o intuito de fazer da escrita um gesto político. O resultado é a configuração de um laço mimético com o real, que lastreia a seu modo um conhecimento do país, fundado tanto nas concepções partidárias, quanto numa fina intuição de nossa realidade e do caráter do nosso povo. Esse traço mimético emerge por entre as frestas do romanesco para deixar falar as vozes subalternizadas no processo social e, desta forma, contar a história dos vencidos" (1997, p. 92).
Peça para o grupo indicar onde estão as marcas deste "discurso da utopia socialista" citado por Duarte. De que maneira ele está retratado? Os alunos deverão perceber que estas marcas do discurso estão revestidas pelo projeto ideológico do escritor que fundamenta sua crença em um mundo socialmente mais justo.A seguir peça que componham cartazes sobre os trechos analisados e o que entenderam como a essência da obra Capitães da Areia.Cada grupo deve expor sua análise. Ressalte que neste trabalho o autor já se mostrava bastante preocupado com a temática das crianças abandonadas no país. Questione os alunos se este tema ainda é atual e porque Jorge Amado o escolheu.
Avaliação
Observe com o trabalho final se os alunos compreenderam os temas que aparecem na obra de Jorge Amado e como esta abordagem está relacionada à sua ligação com a Bahia e ao ideal de um país socialmente mais justo. Boa parte da crítica só recentemente reconheceu as qualidades literárias dos seus livros. É importante que os alunos concluam as aulas identificando algumas delas. Outro objetivo que deve ser alcançado ao fim da sequencia didática é o incentivo à leitura integral de Capitães da Areia e de outras obras do autor.
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