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Cristiano Mascaro
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Jorge Ben Jor em 1968, no festival da TV Record. Revolução comparável à de João Gilberto.

Vamos começar falando de tudo que a caixa Salve, Jorge! não tem. Os 13 discos que Jorge Ben (então sem o Jor, adotado em 1989) gravou pela Philips não vêm acompanhados de libretos caprichados como deveria ser. Em suas contracapas, apenas textos pobres da jornalista Ana Maria Bahiana, além de fichas técnicas com zero de pesquisa, o que é muito estranho uma vez que a coordenação do projeto é do jornalista Rodrigo Faour, responsável por trabalhos impecáveis, como o da caixa Camaleão, de Ney Matogrosso.

On Stage, À L'Olympia e Tropical, três discos lançados pela mesma gravadora, só que no exterior, não entraram no pacote. A omissão é lamentável. A embalagem da caixa e a capa do CD de raridades (com 28 faixas tiradas de compactos, coletâneas ou que sobraram das gravações) não trazem imagens da época, entre 1962 e meados dos anos 70. Mas isso é porque Jorge não gosta de se ver moço. Ficou conhecido o episódio em que ele mandou a MTV mudar o cenário de seu Acústico porque havia uma foto antiga sua como pano de fundo - isso um dia antes da gravação do especial!

E apenas por Jorge ser essa figura cheia de manhas e manias é que dá para relevar as pisadas de bola de Salve, Jorge!. A Universal - que herdou o catálogo da Philips - passou exatos dez anos tentando desovar esse material. E dele faz parte um dos cinco discos mais importantes da MPB: o filosófico A Tábua de Esmeralda (1974). Inspirado pelo que aprendeu em dois anos de seminário, Jorge compôs uma obra fascinante, capaz de mudar a vida de uma pessoa logo na primeira audição. Versos como "trazem consigo cadinhos", de Os Alquimistas Estão Chegando, nunca mais serão repetidos. Só cabem mesmo no universo criado pelo cantor nesse clássico.

Quase tão genial quanto A Tábua de Esmeralda, Solta o Pavão saiu um ano depois. Abre com a espetacular Zagueiro, provando que, em seu auge criativo, Jorge podia fazer poesia com qualquer personagem do futebol. Outro álbum irretocável é Ben (1972), cuja mística voltou a crescer depois que a canção Que Nega É Essa sonorizou a cena mais bonita do filme É Proibido Fumar, de Anna Muylaert. É dele também a gaiata O Circo Chegou, que rima "Deise" com "raio laser" (ou "leisi", na pronúncia de Jorge).

É verdade que teve sempre a companhia de grandes arranjadores e músicos (em especial o Trio Mocotó, banda de apoio em três discos, entre eles o referencial Força Bruta, de 1970). Mas nada é mais importante do que a levada que Jorge desenvolveu ao violão (e à guitarra, a partir de África Brasil, de 1976) com sua abençoada mão direita. Ela embaralhou rock, samba, funk, blues e obrigou a música brasileira a ir atrás.

José Flávio Júnior é jornalista.

A CAIXASalve, Jorge! (Universal), de Jorge Ben Jor. Preço médio: R$ 300.

Tags: Jorge Ben Jor - Mãos que Embaralham - Crítica,

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