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• Veja trechos de filmes adaptados de peças que lotaram salas de teatro

Com um público na casa de 1 milhão de espectadores até meados de maio, o filme Divã não é apenas mais um grande sucesso dos cinemas, mas também um fenômeno da arte da adaptação. Baseado na peça homônima de Martha Medeiros que lotou teatros de todo o Brasil entre 2005 e 2007, o filme de José Alvarenga Jr. consegue reprisar nas telas esse estrondoso êxito — um raio num céu azul numa história de fracassos cinematográficos diante de suas matrizes teatrais. Mesmo aqueles que saem de perto quando a conversa é sobre teatro já ouviram falar de peças como Caixa 2, de Juca de Oliveira, Trair e Coçar É só Começar, de Marcos Caruso, ou O Mistério de Irma Vap, do americano Charles Ludlam. Esta foi para o Livro Guinness de Recordes Mundiais como o espetáculo que permaneceu mais tempo em cartaz com o mesmo elenco — os atores Marco Nanini e Ney Latorraca. No entanto, ao serem adaptadas para o cinema, as três naufragaram na bilheteria. E não foram as únicas.

Por que essa é uma regra com tão poucas exceções? Do alto de sua experiência de quem já produziu mais de 50 longas-metragens em 80 anos de vida, com uma vasta coleção de prêmios internacionais, o cearense Luiz Carlos Barreto, o Barretão, não se atreve a dar uma resposta conclusiva. Barretão sentiu na carne a maldição das peças que goram nas telas. Ele produziu, em 2007 e 2008, dois filmes baseados em megassucessos do teatro que amargaram números melancólicos nas telas: o já citado Caixa 2 e Polaroides Urbanas, dirigido por Miguel Falabela com base na peça Como Encher um Biquíni Selvagem, escrita pelo próprio diretor.

Elenco mal escolhido? Direção equivocada? Adaptação malfeita? O mais frequente é atribuir a culpa do fracasso ao autor do roteiro. Durante o trabalho de adaptação de Caixa 2 para o cinema, foram muitos os atritos entre Juca de Oliveira e Bruno Barreto. Segundo Juca, o diretor insistia em fazer mudanças no texto original. "O problema é que as alterações mudavam a estrutura, eliminavam conflitos fundamentais e acabaram por descaracterizar o tema da peça."

Diante da dificuldade de se chegar a um acordo, além de tirar seu nome do roteiro, Juca decidiu não fazer o papel do protagonista que interpretava no palco, entrando em seu lugar Fúlvio Stefanini. "Tinha certeza de que aquele roteiro não funcionaria, o que infelizmente aconteceu", diz o autor, que mesmo assim assegura não ter ficado magoado com o cineasta.

Outro autor com opinião semelhante à de Juca é Mário Bortolotto, com mais de 20 peças no currículo, levadas aos palcos em encenações modestas, mas muito elogiadas pelos críticos. No ano passado, Bortolotto não ficou nada satisfeito com a versão cinematográfica de um texto seu, o filme Minha Vida não Cabe num Opala, baseado na peça Minha Vida não Vale um Chevrolet (título que acabou sendo mudado por exigência da montadora General Motors). Ele ataca: "Os roteiristas fazem questão de desfigurar o texto para que sua assinatura prevaleça sobre a do autor do texto original. O diretor do filme deveria sempre chamar o dramaturgo para fazer a adaptação junto com ele, para não haver prejuízo artístico de nenhum lado".

VAUDEVILLE E TROCA DE ROUPAO raciocínio parece lógico, mas não é. O roteiro do filme Divã, por exemplo, não foi feito por Martha Medeiros, mas por Marcelo Saback, um profissional com vasto currículo na televisão. Por outro lado, são inúmeros os insucessos de filmes em que o dramaturgo fez também as vezes de roteirista. Exemplos: os textos do ator e dramaturgo Marcos Caruso Sua Excelência o Candidato (escrito em parceria com Jandira Martini) e Trair e Coçar É só Começar. Caruso arrisca uma explicação para esses fracassos: "Sua Excelência e Trair e Coçar são vaudevilles, e esse estilo é, de certa forma, intransponível para o cinema. Jandira e eu tentamos superar esse obstáculo, mas acabamos traídos pela carpintaria do gênero". O vaudeville se caracteriza por uma série de confusões criadas entre os personagens, que vivem se encontrando nos momentos errados. Outras vezes, a comicidade surge quando um personagem é confundido com outro. O improviso dos atores e a relação que eles estabelecem com a plateia são essenciais para o sucesso — e essas coisas se perdem no cinema.

Um caso curioso é Vestido de Noiva, peça que, escrita por Nelson Rodrigues em 1943 e filmada em 2006 por seu filho Jofre, também fracassou. A peça original tem aspectos revolucionários, ao situar a ação em três planos (presente, passado e imaginação) que se alternam, exigindo do encenador múltiplos efeitos de luz, num ritmo próximo ao do cinema. Paradoxalmente, esse aspecto cinematográfico, se é surpreendente no palco, na tela torna-se um recurso banal, que as plateias já estão cansadas de ver. No caso do filme de Jofre, o problema ainda foi agravado pelo excesso de reverência com que o filho do autor abordou o texto do pai, transformando uma peça revolucionária em "cinema museológico", como observou o crítico Luiz Zanin Oricchio, do jornal O Estado de S. Paulo.

Por motivos diferentes, outra peça cuja adaptação para o cinema é um problema e tanto é O Mistério de Irma Vap, que virou o filme Irma VapO Retorno, dirigido por Carla Camurati e com roteiro escrito por ela, Adriana Falcão e Melanie Dimantas. As complicadas trocas de figurinos e maquiagem que os atores Marco Nanini e Ney Latorraca faziam em poucos segundos enquanto saíam por uma porta e entravam por outra eram um dos maiores atrativos no teatro. Tal efeito não tem a menor graça na tela, já que o espectador sabe de antemão que, graças ao recurso dos cortes e da montagem, atores e técnicos têm tempo de sobra para fazer as mudanças.

Carla, que no início havia pensado em realizar o que seria praticamente uma versão filmada do texto teatral, concluiu que a ideia não funcionaria. Decisão acertada. O problema é que, com o novo caminho pelo qual optou, a diretora acabou embarcando numa canoa furada. No filme, o filho de um produtor teatral decide fazer uma nova encenação de Irma Vap, peça que havia sido o grande sucesso do pai. A produção, no entanto, hesita entre homenagear o mundo do teatro e o mundo do cinema. Tem-se a impressão de uma festa entre amigos artistas que parecem estar se divertindo muito diante das câmeras, só que a diversão jamais contagia o espectador. Conclusão: no teatro, 11 anos em cartaz, mais de 2,5 milhões de espectadores; nas telas, não mais de 250 mil pessoas viram o filme. Em números absolutos, não é pouca gente. Mas, para quem esperava ao menos chegar perto do megassucesso teatral, é um fracasso.

"Quero generais que tenham sorte", dizia Napoleão Bonaparte, sugerindo que, para o sucesso, mesmo os grandes gênios militares precisam estar cercados daqueles que foram abençoados pela Fortuna. Embora o raciocínio de Bonaparte nada tenha de científico, ele talvez ajude os produtores que filmam sucessos do palco certos de que esses triunfos serão multiplicados na bilheteria do cinema. Talvez seja esse o caso, ao menos em parte, de Divã. Talvez o filme de José Alvarenga Jr. pertença à linhagem dessas produções "pés-quentes", e no ambiente do show business ninguém discute que o melhor sinônimo de pé-quente do cinema brasileiro é Daniel Filho, que representa a grande exceção da maldição das telas.

Ao filmar grandes êxitos teatrais como A Partilha e A Dona da História, ele fez com que suas bilheterias se multiplicassem no cinema. Como Daniel é do tipo que gosta de desafios, num exercício de futurologia pode-se imaginar que ele resolva dar prosseguimento ao sucesso das duas comédias percorrendo o caminho inverso, ou seja, com o cinema como ponto de partida e o teatro como ponto de chegada. Algo assim: baseado nos dois megacampeões do cinema, montar um espetáculo intitulado Se Eu Fosse Você 3 — A Peça, claro, dirigido por ele e, naturalmente, tendo no elenco Glória Pires e Tony Ramos.

Alguém duvida que seria um sucesso arrasador?

Jairo Arco e Flexa é jornalista.

Tags: teatro, espetáculos,

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