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Eduardo Longoni/ Corbis/ Latin Stock
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Mario Benedetti no Café Brasil, em Montevidéu, em 1997. Nos últimos meses, ele fazia palavras cruzadas e escrevia poemas num caderno de notas

Se fosse vivo, o escritor uruguaio Mario Benedetti (1920-2009) completaria 90 anos no dia 14 de setembro próximo. Em seu país, a comemoração será em grande estilo, com o lançamento de Biografía para Encontrarme, livro de poesias que o escritor deixou pronto meses antes de morrer, em maio do ano passado. BRAVO! teve acesso à obra e publica, com exclusividade, um dos 66 poemas que integram a edição (leia texto ao lado). "Tratam-se de escritos de teor filosófico e existencial", diz Ariel Silva, ex-secretário do escritor e hoje gerente da Fundação Mario Benedetti. "Os poemas tocam o tema da morte, da solidão, de sentir a proximidade do fim."

Poeta, novelista, dramaturgo, crítico e jornalista, Benedetti é o maior nome da literatura uruguaia recente, ao lado do contista Juan Carlos Onetti (1909-1994). Autor de livros como A Trégua, nunca parou de escrever, mesmo quando estava gravemente doente, em seus últimos meses. As atividades sagradas de seu cotidiano no último ano de vida, quando trabalhava em Biografía, eram fazer as palavras cruzadas de um dos vários jornais que lia e, ao longo do dia, tomar notas em um pequeno caderno. Quem relembra é Rossana Echagüe, que esteve vinculada profissionalmente ao escritor por 14 anos e, nos últimos dias da vida dele, era uma das que cuidava de sua casa e sua saúde.

Detentora dos direitos sobre toda a obra do uruguaio, a Fundação Mario Benedetti pretende lançar também em setembro o Prêmio Mario Benedetti, no qual poderão se inscrever escritores de prosa e poesia de todo o mundo. A entidade prepara, ainda, a reedição completa de todos os livros do escritor.

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RESUMO

Resumindo

digamos que oscilamos

entre alegria e tristeza

quase como dizer

entre o céu e a terra

ainda que o céu de agora e o de sempre

se ausente sem aviso

as ideias vão se tornando sólidas

sensações primárias

palavras ainda em rascunho

corações que batem como máquinas

serão nossos ou de outros?

este choro de inverno não é igual

ao suor do verão

a dor é um preço / não sabemos

o custo inalcançável da sabedoria

pensamos e pensamos duramente

e uma paixão estranha nos invade

cada vez mais tenaz

mas mais triste

resumindo

não somos o que fomos

nem menos do que fomos

temos uma desordem na alma

mas vale a pena sustentá-la

com as mãos / os olhos / a memória

tentemos pelo menos nos enganar

como se o bom amor

fosse a vida

(Tradução de Denise Mota)

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