Artes Visuais
Mistério no Museu
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Foto Nino AndrésPalhaço com Buzina Reta - Monte de Irônicos, idealizado por Laura Lima em 2007. A seguir, frases que o público do MAM diz quando se depara com a obra
“Você não tem graça nenhuma”
“Ô vida de rei, ficar dormindo aí dentro o dia inteiro!”
“Nossa! É uma pessoa de verdade mesmo, mas será que é paralítico?”
“Dá vontade de dar uma muqueta nessa cabeça de gesso”
“Parabéns pela paciência, hein!”
“Não faz nada, só isso?” -
Foto Nino AndrésCenas de um palhaço no museu. “Ele desconserta os espectadores. De repente, tem uma coisa ali que não se encaixa”, diz o curador Felipe Chaimovich -
Foto Nino AndrésCenas de um palhaço no museu. “Ele desconserta os espectadores. De repente, tem uma coisa ali que não se encaixa”, diz o curador Felipe Chaimovich -
Foto Nino AndrésO inusitado personagem no corredor do MAM paulistano. A obra representa bem o caráter experimental da instituição hoje -
Foto Nino AndrésO inusitado personagem no corredor do MAM paulistano. A obra representa bem o caráter experimental da instituição hoje -
Foto Nino AndrésO inusitado personagem no corredor do MAM paulistano. A obra representa bem o caráter experimental da instituição hoje -
Foto Eduardo EckenfelsHomem=Carne/Mulher=Carne - Dopada, de 1997. Esta obra de Laura Lima, que integra o acervo do Instituto Inhotim, já chegou a ficar quatro meses em cartaz, exigindo um grande número de voluntárias -
Foto Vivia 21Bala de Homem=Carne/Mulher=Carne, de 1997. O MAM comprou o trabalho em 2000, mas, contra a vontade de Laura Lima, chama a obra de performance -
Foto Sérgio AraújoHomem=Carne/Mulher=Carne - Baixo, de 1997-2010. A obra foi apresentada em uma individual da artista na Casa França-Brasil, no Rio de Janeiro, em dezembro de 2010 -
Foto Cadu d’OliveiraGalinhas de Gala, de 2004, mais um trabalho de Laura Lima. Penas e plumas tingidas de outras aves foram aplicadas nas galinhas pela técnica do megahair -
Foto FBSP -
Foto FBSP -
Foto FBSP
De longe, o palhaço mascarado parece um boneco. Sentado, imóvel, com uma buzina nas mãos, costas apoiadas em uma das paredes do museu, tem pernas desproporcionais, compridas de um jeito que só o mundo da fantasia comporta. Mas, à medida que o espectador se aproxima, muitas das impressões sentidas de bate pronto, no primeiro olhar, vão se desfazendo. Foi ele quem apertou a buzina agora há pouco? Esse movimento por baixo da roupa estampada de azul-marinho e bege é o da respiração? Um ombro mexeu? Dispositivos eletrônicos ou mecânicos podem simular tudo isso? Até que ele faz outro movimento, coisa rápida, mas o suficiente para concluir que uma pessoa está mesmo por trás daquele figurino todo. E a sensação que vem a partir daí é quase sempre igual. Saber da existência de um homem na obra tira o público da suposta situação de segurança vivenciada em um museu. O palhaço deixa os visitantes intrigados. Uma parte reage então de modo tenso diante de sua figura. A outra parte ri, dá gargalhadas até. Muitos tiram fotos. E quase todos passam pelo corredor de novo antes de ir embora. Vai que ele saiu de lá. Mas é principalmente por permanecer estático, abandonado em certo sentido, que o trabalho causa tanta curiosidade. Justo o palhaço, personagem que domina a plateia e mantém-se sempre em ação, encontra-se ali com os braços caídos sobre as coxas, inerte.
Palhaço com Buzina Reta – Monte de Irônicos, criado pela artista mineira Laura Lima em 2007, é a obra mais popular da mostra O Retorno da Coleção Tamagni: Até as Estrelas por Caminhos Difíceis, em cartaz no Museu de Arte Moderna de São Paulo. A exposição, que atraiu 9 mil espectadores desde o dia 12 de janeiro, confronta as peças doadas à instituição em 1967 por Carlo Tamagni, na época conselheiro do MAM, todas bidimensionais (pinturas, gravuras e desenhos), com as instalações incorporadas ao acervo recentemente e que revelam o caráter experimental do museu hoje. Foi por causa do incômodo que o palhaço provoca – tanto no público como na própria instituição – que os curadores Felipe Chaimovich e Fernando Oliva o selecionaram para a coletiva. “Ele desconserta os espectadores. De repente, tem uma coisa ali que não se encaixa. Tanto é que, na legenda comentada, questionamos: ‘O que faz um palhaço sentado no meio de um museu?’ Há desde quem se aproxime do personagem de uma maneira bem afetiva até pessoas que chegam de um jeito extremamente agressivo”, diz Chaimovic.
Obra que pega ônibus
Nessa temporada, dois jovens revezam-se no papel de palhaço. De terça-feira a domingo, cada um encara uma jornada de trabalho de quatro horas diárias com direito a 15 minutos de intervalo por hora. A tal roupa azul-marinho e bege, com várias camadas de babado, esconde um cano de PVC que prolonga suas pernas. Na ponta, estão os tradicionais sapatos grandes, de bico arredondado. Como o figurino impede que os participantes da obra simplesmente se levantem e saiam de cena no momento do intervalo, eles têm de se livrar da fantasia na frente dos visitantes. E causam novo impacto quando o tule laranja e a máscara de papel machê, totalmente fechada, revelam sua cabeça.
Foi a própria Laura quem escolheu os tecidos, desenhou a roupa e encomendou a fantasia a uma costureira. Nesse sentido, projetou o palhaço como se fosse uma escultura. Moldou também a máscara de papel machê. Atualmente, existem sete versões da obra, algumas em poder da própria artista, outras até com colecionadores particulares. O MAM possui uma delas, o que significa que, além da vestimenta propriamente dita, é o guardião do conceito da peça, que pode ser remontada quantas vezes o museu quiser. Para isso, basta seguir as instruções da artista, bastante diretas: o participante precisa ficar em uma posição relaxada, mas imóvel, pelo maior espaço de tempo possível. Ele só pode se mexer quando absolutamente necessário e, assim mesmo, da forma mais discreta que conseguir. Não precisa disfarçar a respiração. Não pode falar. A buzina não deve ser tocada na frente de um visitante do museu e, quando for acionada, a ação deve ser feita de um jeito sutil. “Não estou atrás de entreter o público”, pontua Laura. A própria artista, no entanto, reconhece que lidar com gente implica um risco, ligado à imprevisibilidade da natureza humana. Laura sabe que as obras também “se rebelam” de vez em quando. Há um vídeo no YouTube, postado um mês atrás, em que o palhaço buzina justamente quando uma espectadora encontra-se ao seu lado. Ela leva um susto. Todos em volta levam um susto. A orientação não foi seguida à risca naquele momento. Em uma entrevista concedida à revista Arte Ensaios, em outubro de 2010, a artista falou sobre o limite do controle que exerce sobre suas criações: “Parte dessa obra sai, vai para casa, pega ônibus, volta; o risco que corro de essa imagem não estar lá no dia seguinte é gigantesco, mas é tão fascinante esse limiar tênue...”
Obra que dorme
Mineira de Governador Valadares e radicada no Rio de Janeiro desde a adolescência, Laura Lima formou-se em filosofia pela Uerj, a Universidade do Estado do Rio de Janeiro, e mais tarde fez cursos na Escola de Artes Visuais do Parque Lage. Desde 2003, dirige junto com os artistas Ernesto Neto e Márcio Botner uma galeria especializada na produção contemporânea no centro do Rio, A Gentil Carioca. Como criadora, projetou-se no fim dos anos 90, sempre com trabalhos que envolviam animais. Ou pessoas. “Gosto de falar que lido com coisas vivas”, diz Laura na tentativa de explicar sua produção. No início da carreira, em 1994, levou uma vaca de montanha para uma praia urbana, a do Arpoador, em Ipanema. Três anos depois, produziu Dopada, uma de suas obras mais polêmicas, em que uma mulher, vestida com uma longa camisola branca, toma 15 mg do remédio Dormonid, um sedativo poderoso, e dorme na frente do público por cerca de cinco horas. Essa criação pertence hoje ao Instituto Inhotim, em Brumadinho, Minas Gerais, que já chegou a exibi-la por quatro meses seguidos, o que exigiu uma quantidade enorme de voluntárias: quem toma o comprimido em um dia não pode repetir a dose por semanas sob o risco de se viciar.
“Laura usa o corpo humano ou de animais como uma matéria qualquer. É como se o corpo fosse madeira, tecido ou tinta”, diz o curador Moacir dos Anjos, responsável pela escolha de Palhaço com Buzina Reta – Monte de Irônicos para o 30º Panorama da Arte Brasileira, no MAM de São Paulo, em 2007 – a primeira vez em que foi mostrado. Logo depois de terminada a exposição coletiva, a obra acabou sendo adquirida pelo museu por indicação do conselho consultivo da instituição – na época formado pela historiadora Annateresa Fabris e pelos críticos de arte Lisette Lagnado e Luiz Camillo Osório – com fundos doados pela empresa de telecomunicações Telefonica. Por contrato, seu valor é mantido em sigilo. Mas, segundo a galeria Luisa Strina, que representa Laura em São Paulo, um exemplar custa em média 25 mil reais. Quando o MAM decidiu comprar o trabalho, pesou bastante o fato de o museu já ter outras criações de Laura com o mesmo caráter: Quadris de Homem=Carne/Mulher=Carne, de 1995, e Bala de Homem=Carne/Mulher=Carne, de 1997, ambas obtidas em 2000. Bala coloca um sujeito chupando o doce com a boca permanentemente aberta por um aparelho e Quadris traz dois homens movimentando-se amarrados pela cintura. Na época, as aquisições ganharam as manchetes dos jornais como as primeiras performances a entrar na coleção de um museu brasileiro.
E o palhaço, o que é?
A associação de Laura à performance não ocorreu à toa. Na produção contemporânea, costuma-se atribuir esse termo às ações que envolvem pessoas e combinam preceitos das artes visuais com o teatro e a música. Performance também está frequentemente ligada a algo efêmero, que não se repete. Laura Lima nega a existência de uma encenação teatral em seu trabalho. E suas peças, uma vez em poder de um museu ou um colecionador particular, podem ser remontadas quantas vezes forem as vontades de seu dono. Por isso, quando o MAM chamou de performance as suas obras, a artista pegou-se dividida. Ao mesmo tempo em que comemorou a estreia em um acervo importante do país, irritou-se com a nomenclatura usada para classificar suas criações.
Mas, em um primeiro momento, nem ela sabia dizer ao certo o que eram. Nasceu assim a necessidade de elaborar um glossário particular para seu universo criativo. “Os participantes são apenas mais um dos elementos que compõem a peça. Fazem parte de uma estrutura poética que não leva em conta a experiência pessoal deles, a história de cada um. Nesse sentido, se coisificam. Recebem instruções sobre a obra, a tarefa que devem cumprir, e a realizam. Não há ensaio”, diz Laura. Na tentativa de fugir do termo performance que teimam em associá-la, adotou oficialmente a expressão Homem=Carne/Mulher=Carne. Para o curador Moacir dos Anjos, essa dificuldade de se encaixar em classificações está no cerne do trabalho da artista: “Laura atravessa definições. Ela nos obriga a negociar com o que vemos diante de nós. Considero isso bem corajoso, ela se despoja da zona de conforto”. À frente da exposição O Retorno da Coleção Tamagni, o curador Fernando Oliva defende que uma discussão nesse sentido nem sequer é pertinente para alguns criadores atuais, como é o caso de Laura: “Para Laura Lima e outros artistas, o suporte, a mídia, o gênero não são assunto, mas apenas ferramentas, algo de que eles se utilizam com o objetivo de atingir outros patamares de linguagem, falar de questões e problemas para além do que se vê em um primeiro contato”. Felipe Chaimovich, que divide com Oliva a curadoria da mostra no MAM e é também curador do museu desde 2007, enxerga o palhaço como um “quadro vivo”. De acordo com ele, a artista fluminense remete a são Francisco de Assis, que, no século 13, montou o primeiro presépio da história: “São Francisco fez um quadro vivo. Ele bolou toda a situação e apresentou aquilo como um quadro”.
A produção de Laura não desafia seus interlocutores dentro das instituições só pela nomenclatura. Os museus também precisam se preparar para conviver com uma obra dela. O descritivo mesmo de Palhaço com Buzina Reta – Monte de Irônicos, espécie de manual de instruções que o MAM deveria ter com sua equipe de pesquisadores para consultar a cada vez que o trabalho fosse remontado – e que Laura costuma chamar de modus operandi da peça –, ainda não está pronto. Ou seja, as orientações passadas aos palhaços, por enquanto, são apenas verbais. “Se não me engano, na primeira vez em que o palhaço foi apresentado, tinha uma história de que ele só podia tocar a buzina três vezes por dia. Essa regra acabou se perdendo. Não sei se a quantidade de buzinadas é algo que ainda importa para Laura. E é no momento em que o museu se propõe a formalizar isso que a gente até faz o artista pensar”, diz Chaimovich.
Outras obras do museu estão exigindo o mesmo tipo de iniciativa, ainda que não se valham de pessoas. Aconteceu recentemente com o Totó Treme-Terra, do coletivo carioca Chelpa Ferro, outro trabalho da mostra O Retorno da Coleção Tamagni. A instalação, de 2006, inclui uma mesa de pebolim e, em uma tarde, estimulou o público a improvisar um campeonato animado dentro do museu. A equipe do acervo entrou em contato com o grupo para saber se era mesmo essa a intenção deles. Recebeu como resposta a sugestão de um uso controlado da mesa. “Mas não é um jogo? Não está aberto? Então se cria um problema de verdade”, diz Chaimovich, que para atender ao pedido do Chelpa Ferro colocou educadores na sala onde fica a peça. “Tais situações obrigam a instituição a se repensar, a lidar com a contemporaneidade. Os próprios artistas não haviam estipulado uma condição para isso ainda.”
Durante a produção desta reportagem, BRAVO! se viu diante de um impasse típico desse cenário atual. Logo no primeiro contato com Laura, a artista deixou claro seu desejo de que não revelássemos a existência de um homem por trás da roupa de palhaço: “Vocês vão estragar parte da minha obra”. Tanto ela quanto o MAM também mencionaram o contrato assinado entre ambos para impedir que os participantes do trabalho dessem entrevistas. Respeitamos apenas o contrato. Por mais que os artistas decretem regras para suas criações, é impossível exercer o controle absoluto sobre uma obra de arte.
A EXPOSIÇÃO
O Retorno da Coleção Tamagni: Até as Estrelas por Caminhos Difíceis. Museu de Arte Moderna de São Paulo (parque do Ibirapuera, portão 3, SP). Até 11/3. De 3ª a dom., das 10h às 18h. R$ 5,50.
O Corpo como Matéria
Outros artistas já usaram pessoas em suas obras com um conceito próximo ao de Laura Lima
por Bruno Moreschi

1. ABAJUR, DE CILDO MENDES
Em 1995, Cildo Meireles rascunhou a obra em seu bloco de anotações. Mas demorou 15 anos para tirá-la do papel. Na 29ª Bienal de São Paulo, em 2010, o artista carioca montou três grandes cilindros, um dentro do outro, numa sala de 70 m2. Uma imagem de mar com navio, aves e nuvens ilustrava as peças redondas que giravam. Ao subir uma pequena escada, o visitante percebia que o cenário movia-se graças ao esforço de quatro homens. Seus movimentos lembravam os dos escravos nos moinhos de açúcar do Brasil colonial. Ainda neste ano, Cildo pretende remontar a obra. Dessa vez, na Fundação Serralves, na cidade do Porto, em Portugal.

2. BRAÇO DE UM TRABALHADOR, DE SANTIAGO SIERRA
Grande parte da produção do espanhol Santiago Sierra critica a exploração nos ambientes de trabalho. Em 2004, o artista contratou dois homens para se revezarem numa obra que causou polêmica na Cidade do México. Eles colocavam o braço num buraco aberto no teto da galeria. Quem a visitava se deparava apenas com o braço saindo de uma fenda. Cada um permaneceu no papel três horas por dia e recebeu um salário mínimo.

3. UNFAIR, DE DAMIEN HIRST
Em 1992, o artista britânico Damien Hirst contratou Ingo e Torsten, dois gêmeos idênticos, para ficarem sentados na frente de duas de suas pinturas de bolinhas coloridas. Desde então, o trabalho foi repetido com outros pares de gêmeos idênticos em alguns museus do mundo, como a Tate Modern, de Londres. A única exigência é que os irmãos sejam de fato muito parecidos e se vistam com roupas também iguais. Encontrar candidatos não costuma ser uma dificuldade. Na National Gallery do Canadá, em Ottawa, mais de 60 duplas concorreram por uma vaga em 2010.
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