Teatro e Dança
Na Linha de Fogo
O diretor carioca Ivan Sugahara, da companhia Os Dezequilibrados, se tornou conhecido pela expressiva utilização de espaços não convencionais. Já encenou peças em apartamento (Um Quarto de Crime e Castigo), hall de cinema (Vida, o Filme), boate (Bonitinha, Mas Ordinária) e no prédio do Oi Futuro (Memória Afetiva de um Amor Esquecido). Um de seus objetivos está em afastar o espectador de uma apreciação passiva, incluindo-o na cena ou pelo menos aproximando-o dela. Agora, Sugahara apresenta em um teatro o espetáculo Mulheres Sonharam Cavalos, do argentino Daniel Veronese. Mas, mesmo no Poeirinha, espaço do Teatro Poeira, em Botafogo, no Rio de Janeiro, mantem a natureza das propostas anteriores. Emoldura a cena com uma parcela da plateia, nas laterais, e posiciona o restante dela entre os atores, integrado ao cenário que o envolve.
O espectador fica na linha de fogo dos embates passionais travados entre os integrantes de uma família desestruturada. Os três irmãos e suas respectivas mulheres trazem à tona uma grande carga de insatisfações. A tensão decorrente de relacionamentos conjugais abalados pelo desgaste do tempo e pelo desprezo se soma à descoberta de uma doença terminal de um dos irmãos. Os personagens dão vazão a uma sucessão de catarses, mesmo sem terem a plena consciência de que a violência é mais preocupante na esfera familiar do que no mundo externo, a respeito do qual falam vez por outra. A solidão, o desamparo e, em especial, a sensação de falta de identificação explodem num jorro de surpreendente extravasamento.
Claustrofobia
Esse panorama familiar descortinado por Daniel Veronese – destaque do teatro argentino, um dos fundadores do grupo El Periférico de Objetos e reconhecido ainda pela apropriação de textos de autores como Ibsen e Tchekhov – é materializado na proposta cenográfica do espetáculo. Flavio Graff, que assina a direção de arte, opta por uma ambientação estilizada para o apartamento improvisado onde se passa a ação. Evidencia conteúdos do texto por meio de soluções como o cômodo interditado aos olhos dos espectadores, tão oculto quanto os acontecimentos e as emoções até então não revelados que irrompem em meio ao convívio claustrofóbico. O emaranhado de fios que cobre boa parte do cenário também parece informar sobre os relacionamentos intrincados. Alguns objetos, a exemplo do colchão, dispostos sobre os praticáveis por onde o afinado grupo de atores transita, comprovam que, naquela família arruinada, não há mais como utilizar móveis novos para esconder antigas manchas.
Daniel Schenker é jornalista e crítico de teatro.
A PEÇA
Mulheres Sonharam Cavalos. De Daniel Veronese. Direção de Ivan Sugahara. Com José Karini e outros. No Teatro Poeirinha (r. São João Batista, 108, Rio de Janeiro, tel. 0++/21/2537-8053). 6ª e sáb., às 21h30. Dom., às 20h. Até 26/2. R$ 20.
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