Música
O Dissidente Sutil
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Foto GettyimagesO russo Dmitri Shostakovich. Em obras destinadas à exaltação do regime soviético, o compositor dava um jeito de criticá-lo nas entrelinhas -
Foto GettyimagesJosef Stalin, que liderou a União Soviética entre 1922 e 1953. O ditador ora perseguia Shostakovich, ora o enxergava como colaborador
O compositor russo Dmitri Shostakovich (1906-1975) foi:
a) Um lacaio do regime soviético, compondo obras que refletiam os propósitos do “realismo socialista”: patrióticas, grandiosas e acessíveis.
b) Um formalista, enredando suas peças em frívolos esquemas intelectuais que as tornavam incompreensíveis para a grande massa trabalhadora.
c) Um dissidente político, contrabandeando críticas sarcásticas aos líderes do Partido Comunista no meio de uma ópera e de muitas de suas 15 sinfonias.
d) Um autor convencional, praticamente alheio ao atonalismo, que inflamou o debate musical na primeira metade do século 20.
e) Um deprimido, como comprovam seus 15 quartetos de cordas, espécie de diário pessoal.
f) Todas as respostas acima.
Acertou quem cravou a alternativa F, claro – do contrário, não haveria sentido propor um teste. Ao longo da vida, o compositor revelou-se um homem de múltiplas escolhas, não raro contraditórias. Musicalmente, todas estão representadas nos quatro CDs da caixa Shostakovich, terceiro lançamento da série Acervo Russo, da Biscoito Fino/Dell’Arte. Há três sinfonias, dois quartetos de cordas, a sonata para viola, um trio para piano, violino e violoncelo e uma sonata para piano, entre outras peças. Assim como nos lançamentos anteriores, dedicados a composições de Igor Stravinsky e a interpretações do pianista Sviatoslav Richter, as gravações da caixa foram realizadas ao vivo para a Gostelradio, uma de tantas estatais soviéticas, entre 1954 e 1985 – o que resulta em diferentes níveis técnicos, aceitáveis para registros históricos (vez por outra, ouve-se alguém tossir na plateia).
Entre os executantes da coletânea, estão alguns dos maiores astros da música clássica da URSS, como os maestros Evgeny Mravinsky e Rudolf Barshai, a Orquestra Filarmônica de Leningrado, o violista Yuri Bashmet e o pianista Richter. Os temas que eles interpretam são fulgurantes, emotivos e, acima de tudo, demasiado humanos, mesmo quando, às vezes, recaem no intelectualismo, do qual o compositor foi acusado pelo regime ditatorial de Josef Stalin. Na maior parte do tempo, porém, são facilmente assimilados por qualquer ouvinte, chegando a ser divertidos. O quanto dessa “facilidade” foi voluntária ou induzida pelo medo dos campos de trabalho forçado ainda está em aberto.
FORMALISTA, VULGAR E PRIMITIVA
Na verdade, os problemas de Shostakovich com Stalin não eram bem musicais e nem derivavam do excesso de opacidade, mas, pelo contrário, se deviam ao excesso de transparência. Em 1936, o ditador ficou furioso depois de assistir a uma apresentação da ópera Lady Macbeth de Mtsensk – que não consta dessas gravações da Gostelradio – por enxergar no assassinato do sogro prepotente pela protagonista uma crítica a si próprio e a seu governo. Provavelmente tinha razão. Seja como for, logo um artigo intitulado Desordem em Vez de Música, no jornal Pravda, condenava a ópera por ser formalista, vulgar e primitiva. Não era um bom ano para cair em desgraça com Stalin: 1936 marca o início dos Grandes Expurgos, nos quais, acredita-se, algo em torno de 1,5 milhão de soviéticos foram presos ou mortos. Sem alternativa, Shostakovich acabou fazendo rapidamente uma autocrítica. O que surpreende é que, lidos hoje, os termos do pedido de desculpas soam bastante irônicos. Seus amigos, como Isaak Glikman, diziam que, se ele declarava “estou me sentindo ótimo”, talvez quisesse expressar o contrário.
A Segunda Guerra, que se aproximava e que iria contrapor os soviéticos aos alemães, lhe daria a oportunidade de “fazer as pazes” com o regime, ao compor peças heroicas destinadas a elevar o moral da população. Uma de suas sinfonias mais famosas na URSS foi a Sétima, estreada em 1942 e intitulada Leningrado. A antiga São Petersburgo era a cidade onde o compositor nasceu. Ela ficaria sitiada pelas tropas de Adolf Hitler por 900 dias e sofreria com a fome. Deu-se um jeito de fazer a partitura superar o bloqueio, e a obra foi ouvida na terra de ninguém. Pode-se imaginar a comoção popular. No entanto, até nela, Shostakovich tratou de criticar o stalinismo, ainda que por tabela, ao atacar o nazismo, numa marcha sinistra que parodia o Bolero de Ravel. Totalitarismo, afinal, é totalitarismo. Essa visão se tornou corrente após a publicação, em 1979 (ou seja, depois da morte do compositor), de memórias supostamente ditadas a Solomon Volkov. No livro, Shostakovich ressurge como um dissidente sutil e injustiçado por seus pares, um opositor cujas mensagens nem sempre eram compreendidas.
Duas sinfonias que estrearam após essa primeira grave crise do ex-menino prodígio com o regime – haveria outra, em 1948 – abrem a caixa do Acervo Russo, ambas sob a batuta de Yevgeny Mravisnky, justamente o seu primeiro regente: a Quinta e a Sexta. São consideradas mais convencionais do que as anteriores, mas, como tudo no autor, há nuances e beleza. Numa, o terceiro movimento (Largo, lento) é um ótimo exemplo da profundidade emocional alcançada. Noutra, o terceiro movimento (Presto, rápido) traz a ironia furiosa, também característica do autor. Entre outros destaques da caixa ora lançada no Brasil, estão transcrições para orquestra de câmara de nove prelúdios escritos para piano e do sombrio Quarteto de Cordas Nº 8, composto depois de uma visita à cidade alemã-oriental de Dresden. Em 1960, ela permanecia no estado ruinoso ao qual fora reduzida por bombardeios ingleses durante os estertores da Segunda Guerra. Mais uma vez, ao dedicar o quarteto “às vítimas do fascismo e da guerra”, Shostakovich soou ambíguo. Ninguém matou tantos alemães quanto os russos. E vice-versa.
Arthur Dapieve é jornalista e escritor, autor do romance De Cada Amor Tu Herdarás Só o Cinismo.
OS ÁLBUNS
Acervo Russo – Shostakovich (Biscoito Fino/Dell’Arte), caixa com quatro discos, que reúnem peças de Dmitri Shostakovich. Produção: Pipeline Music. Preço médio: R$ 90.
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