Revista

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Foto Beatriz Lefèvre
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Introdução

Desde os primeiros anos de conquista européia nas terras que hoje conhecemos como Brasil, seus donos genuínos foram muitas vezes vistos como perigosos, selvagens e um entrave para aquilo que os povos ditos civilizados costumam chamar de progresso. Ao longo do nosso complexo processo de construção de nação, os povos indígenas foram sendo incorporados à noção de povo brasileiro por meio de uma perspectiva que desprezou seus modos de vida e sua relação com o território, colocando-os à margem, sempre em nome dos chamados interesses nacionais.

O filme Xingu, do diretor Cao Hamburger e assunto do texto Calça Osklen e tênis Nike no Xingu (publicado na revista Bravo!) oferece a oportunidade de refletir sobre a atuação decisiva dos irmãos Leornardo, Cláudio e Orlando Villas Bôas na tentativa de defender os povos indígenas do Alto Xingu diante de uma constante sanha de progresso. Levantar tal reflexão em sala de aula é o objetivo central deste plano.

Objetivos

- Discutir os seguintes aspectos das expedições lideradas pelos irmãos Villas Bôas: contexto histórico, impacto na construção de uma política nacional de proteção aos povos indígenas e papel na criação do Parque Indígena do Xingu e da Fundação Nacional do Índio (Funai).

- Refletir sobre os desafios atuais enfrentados pelas populações indígenas contatadas pelos irmãos Villas Bôas.

Conteúdos

- Irmãos Villas Bôas.

- Políticas de ocupação territorial.

- Parque Indígena do Xingu.

- Funai.

- Desafios atuais das populações xinguanas.

Tempo estimado

Três aulas.

Material necessário

Cópias da reportagem Calça Osklen e tênis Nike no Xingu (Bravo!) para todos os alunos, cópias da Carta Final do I Festival de Culturas Xinguanas e computador com acesso à internet.

Desenvolvimento

1ª aulaRumo ao "Brasil Profundo"

Inicie a aula perguntando aos alunos o que eles sabem a respeito do Parque Indígena do Xingu: onde se localiza, quando foi criado, quais são seus principais problemas. Registre as informações levantadas pela turma e comente que a partir de agora vocês começarão um trabalho com o objetivo de discutir a formação desse território indígena, a criação da Fundação Nacional do Índio (Funai) e a atuação dos irmãos sertanistas Leonardo, Cláudio e Orlando Villas Bôas.

Exiba o trailer do filme Xingu divida a turma em grupos e distribua cópias da matéria Calça Osklen e tênis Nike no Xingu. Depois da leitura coletiva da reportagem, conte aos alunos que ocupar o interior do Brasil foi uma preocupação constante dos governantes, por diferentes razões, desde os nossos tempos de colônia. Diga também que esses planos sempre esbarraram na existência de ocupantes legítimos do território: os povos indígenas.

A necessidade de explorar riquezas minerais, de expandir a chamada fronteira agrícola e, mais recentemente, de ampliar a geração de energia hidrelétrica colocou em choque a sociedade dita civilizada e os povos indígenas. Comente que, no século 19, ainda durante o Império, em meio ao avanço da formação da identidade nacional, a figura do índio passou a ser inserida nas narrativas sobre o povo brasileiro de forma quase mítica e elogiosa. Contudo, a prática continuou sendo a da violência física e simbólica, empregada no avanço constante para os sertões.

Diga ainda que as regiões Norte e Centro-Oeste do Brasil seguiram como um desafio para os planos de ocupação territorial até o século 20, quando o governo de Getúlio Vargas decidiu empreender uma nova "marcha para o oeste". Em plena Segunda Guerra Mundial e sob a ditadura do Estado Novo (1937-1945), o governo federal entendeu que era necessário ocupar de forma definitiva áreas do interior do Brasil vistas como desocupadas, evitando que fossem invadidas por colonos estrangeiros. Nesse sentido, foi organizada a Expedição Roncador-Xingu, iniciada em 1944, com a missão de explorar regiões ainda não ocupadas pelo Estado. A tarefa dos exploradores era abrir estradas e campos de pouso que seriam a porta de entrada para o tão propalado progresso e para a defesa militar da região.

A missão da Expedição não era das mais fáceis, sobretudo por conta daquilo que as autoridades consideravam um grande perigo: os índios. A região do Alto Rio Xingu, situada ao norte do estado do Mato Grosso, era alvo de interesse desde o século 19, época em que foi realizada uma primeira expedição, chefiada pelo alemão Karl von den Steinen. As incursões anteriores, porém, não conseguiram estabelecer marcos definitivos de ocupação, como queriam as autoridades - tarefa que coube à Expedição Roncador-Xingu. Entretanto, a atuação de três membros da Expedição acabou por desviar, ao menos em parte, as pretensões do Estado brasileiro em relação àquele vasto território "não ocupado". Os irmãos Orlando, Cláudio e Leonardo Villas Bôas tomaram a frente da empreitada e conseguiram estabelecer um contato amistoso com os povos indígenas que viviam no território a ser explorado, mesmo aqueles tidos como hostis, como era o caso dos Xavantes, contatados no ano de 1944.

Em meio ao trabalho de abertura das frentes de ocupação, como os campos de pouso, os irmãos Villas Bôas estabeleceram relações com os povos Aweti, Kalapalo, Kaimaiurá, Kuikuro, Matipu, Mehinako, Nahukuá, Naruvotu, Trumai, Wauja e Yawalapiti. Informe que, apesar da variedade linguística, formada pelas famílias Tupi-Guarani, Juruna, Aweti, Aruak, Karib, Jê e Trumai, os povos originais do Alto Xingu possuíam características culturais muito próximas, mantendo contanto profícuo entre si.

Mesmo com o aparente isolamento em que viviam, as populações indígenas contatadas pelos Villas Bôas sofreram, ao longo do tempo, a diminuição de sua população, muito em razão do contato com doenças infecto-contagiosas, adquiridas anos antes, a partir do contato com colonos brasileiros estabelecidos nos limites do território "não ocupado". Diante dos problemas causados pelo choque microbiano e pela ação predatória do Estado e de empreendedores da agropecuária - interessados na extração madeireira e na expansão de suas plantações e pastos em direção aos territórios agrícolas - os Villas Bôas deram início a uma série de ações que visavam a proteção das populações indígenas e de seus modos de vida.

O Parque Indígena do Xingu

Contando com a colaboração de outros indigenistas, como o antropólogo Darcy Ribeiro, os irmãos Villas Bôas passaram a defender a criação de um território exclusivo para os indígenas do Xingu, onde, teoricamente, ficariam resguardados do contato com a civilização exterior e suas doenças. Para isso, contariam com o auxílio do Estado, por meio do antigo Serviço de Proteção ao Índio (SPI), que seria responsável pela oferta de atendimento médico à população indígena.

Para os Villas Bôas, apenas o isolamento garantiria a sobrevivência, sobretudo física, daquelas populações. Entretanto, a ideia da organização de um território exclusivo para os xinguanos esbarrou nos planos do governo, o que fez com que os irmãos, principalmente Orlando, negociassem a criação da área que veio a corresponder ao Parque do Xingu. Em troca, o governo teria novas frentes de ocupação, como uma base aérea na Serra do Cachimbo, região entre os estados do Pará e Mato Grosso, que afetou diretamente as populações indígenas existentes na área, como os Kreen-Akarôres, quase totalmente dizimados.

Em 1952, foi apresentado à Presidência da República, então sob o comando de Juscelino Kubitschek de Oliveira, o projeto de criação do Parque Nacional Indígena do Xingu, calcado no ideal de isolamento das populações indígenas, bem como de seus recursos naturais. Contudo, o plano esbarrou no governo do Mato Grosso que, aliado aos interesses agropecuários, iniciou a distribuição das terras indígenas, detonando não só uma crise política, mas uma onda de violência e epidemias. O Parque foi criado oficialmente apenas em 1961, durante a presidência de Jânio Quadros, com contorno territorial reduzido a cerca de um quarto do que previa a proposta original.

À frente da administração do Parque, os Villas Bôas trataram de trazer para a porção norte de seus contornos populações indígenas não-originárias do Alto Xingu (Ikpeng, Kaiabi, Kisêdiê, Tapayuna e Yudja), provocando o deslocamento de aldeias inteiras. O deslocamento forçado e a introdução de bens materiais, como ferramentas agrícolas, fez com que a ideia de completo isolamento ou "proteção" apresentasse problemas.

As relações sociais e as práticas culturais passaram por mudanças consideráveis a partir do contato com os funcionários do Parque recém-criado. Além disso, a existência de profissionais responsáveis por sua tutela provocou a diminuição do reconhecimento do poder dos chefes tribais, uma vez que a população passou a depender dos Postos Indígenas estabelecidos no Parque. Ainda assim, a coesão social dos grupos não foi desarticulada e até se fortaleceu ao longo dos anos. E as políticas de saúde e de controle de entrada evitaram o retorno das epidemias.

Explique à turma que, contudo, a criação do Parque do Xingu não eliminou as ameaças do avanço do progresso, sobretudo por parte do próprio governo. Durante o regime militar, os territórios indígenas foram constantemente ameaçados em nome do desenvolvimento e da defesa nacional, representados pela construção de rodovias (Transamazônica), hidrelétricas, mineradoras e bases militares.

2ª aulaO SPI e a FUNAI

Retomando algumas das informações da aula anterior, comente que a violenta expansão da ocupação territorial e do estabelecimento dos marcos da civilização no início do século 20 causou o desaparecimento de diversos povos indígenas. No ano de 1910, em meio a críticas internacionais ao banho de sangue promovido em nome do progresso, o governo brasileiro criou o Serviço de Proteção aos Índios e Localização de Trabalhadores Nacionais, visando a proteção da população indígena e a criação de colônias agrícolas no interior do país. No fundo, a intenção era transformar os indígenas em trabalhadores rurais ou operários urbanos. O conceito de índio era tido como transitório, como algo que dependia apenas da ação civilizatória promovida pelo Estado para desaparecer. Passados oito anos, índios e "trabalhadores nacionais" foram separados e então surgiu o Serviço de Proteção ao Índio (SPI), sem, contudo, que se alterasse a doutrina da integração e tutela anteriormente definidas.

Diante do flagrante desrespeito em relação à diversidade e autonomia dos povos indígenas, os irmãos Villas Bôas, junto a outros indigenistas, defenderam a criação de um novo órgão que pudesse eliminar os problemas existentes no antigo SPI, processo que culminou com a criação da Fundação Nacional do Índio (Funai) em 1967.

Entretanto, a Funai acabou por cumprir, durante os anos de ditadura militar, o papel de instituição propagadora do ideário do regime de exceção, subordinando-se aos planos de defesa e desenvolvimento, o que, obviamente fez com que a perspectiva assimilacionista do velho SPI fosse mantida e o conceito de índio continuasse sendo entendido como provisório, até que terminasse seu processo de incorporação.

A Funai manteve os moldes de órgão de tutela (e mesmo exploração) dos povos indígenas até o período de redemocratização, quando organizações de apoio aos índios, criadas ainda na década de 1970, ganharam força e visibilidade, colaborando de forma decisiva para o questionamento das políticas públicas idigenistas e estabelecendo um diálogo aberto entre os índios e a Funai.

Com a Constituição de 1988, a velha política assimilacionista e tutelar imposta aos povos indígenas foi rompida. O artigo 231 da Constituição garantiu o respeito à diversidade cultural dos povos e seu direito à posse de territórios. Já na década de 1990, a Funai sofreu uma profunda reestruturação, que culminou com a retirada de uma série de atribuições, como atendimento de saúde, redirecionados a outros órgãos federais e ministérios. Com a Fundação, ficaram a demarcação e a regulação dos territórios indígenas.

O Xingu hoje

Ao longo de seus 50 anos de existência, o Parque Indígena do Xingu passou por mudanças. Hoje, sem Orlando, Cláudio e Leonardo Villas Bôas e após os avanços na política indigenista brasileira, são os moradores que levantam voz em sua própria defesa. Não que não o tenham feito antes - eles participaram de forma ativa das discussões que levaram à própria concepção do Parque - mas hoje não precisam mais de intermediários. As nações xinguanas assumiram o papel político de defender sua cultura e o solo em que pisam há muito mais do que cinco décadas.

Explique à turma que, por ocasião do I Festival de Culturas Xinguanas, realizado em 12 de junho de 2011 na Aldeia Ipavu, os povos que ocupam o território estabelecido pelos irmãos Villas Bôas redigiram um claro manifesto às autoridades governamentais brasileiras, indicando suas necessidades e posições políticas frente às ameaças que ainda os cercam. Então, divida os alunos em grupos, distribua cópias da Carta Final do I Festival de Culturas Xinguanas e faça uma leitura coletiva do documento. Em seguida, estimule um debate a respeito da posição manifestada pelos índios, ressaltando, por exemplo, o protesto em relação à visão de que são incapazes - o que, segundo eles, fez com que o próprio território fosse concebido quase como um "zoológico humano", isolando-os como animais a serem apreciados por turistas e autoridades. Ressalte ainda o fato de que os índios pedem a mudança do nome Parque Indígena do Xingu para Território Indígena do Xingu, uma reivindicação do reconhecimento de sua autonomia e diversidade sociocultural. Ainda em relação ao documento dos povos do Xingu, procure questionar os alunos a respeito das ameaças que rondam o território, como a polêmica construção da usina hidrelétrica de Belo Monte. Discuta a forma como o progresso se mantém como constante ameaça às populações indígenas e à sua relação com o meio ambiente.

Por fim, peça aos grupos que desenvolvam uma dissertação comentando a forma como as populações do Xingu continuam enfrentando os problemas relacionados ao contato com a sociedade dita civilizada e como eles têm se organizado a fim de defender sua cultura e território. Informe ainda que cada grupo deverá fazer uma apresentação em forma de seminário, expondo impressões contidas no trabalho. Para isso, estimule-os a buscar fontes complementares de informação sobre a situação atual do Xingu, como reportagens e vídeos.

3ª aula

Utilize a terceira aula do plano para a realização dos seminários. Faça intervenções quando julgar necessário, solicite que os alunos participem com seus comentários e impressões e peça que todos registrem os pontos mais relevantes da discussão.

Avaliação

Durante as conversas das primeiras aulas, a realização dos seminários e por meio do trabalho escrito entregue pelos grupos, observe se os alunos compreenderam a importância da atuação dos irmãos Villas Bôas no processo de criação do Parque Indígena do Xingu, bem como para o estabelecimento de uma política de proteção efetiva aos povos indígenas brasileiros. Não obstante, avalie se os alunos foram capazes de entender que os problemas em torno da questão indígena continuam existindo no nosso país e que as populações têm se organizado e reivindicado autonomia, direito a voz e respeito por sua identidade cultural.

4 comentário(s) de 4

  1. Na verdade,se for analizada a história, desde odescobrimento do Brasil, este país não foi descoberto, pois aqui já tinha gente(índios), que eram os verdadeiros donos e tinam o domínio e a posse deste país. Portanto, não é justo que fiquem sem pelo menos uma parte destas terras para a suas sobrevivências e para conservação de alguma coisa do meio ambiente, para a também a nossa própria sobrevivência. Temos que produzir mas precisamos ter cultura ambiental. Se a manutenção ou reintegraçãode posse vale para o branco, também deveria valer para os índios,não é mesmo?

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  2. Há muito tempo eu não assistia a um filme brasileiro, bem feito, com historia e tão bem interpretado, o trio perfeito na interpretação, mais o ator João Miguel dar um show a parte. Me encantou em cada sena. O olhar a movimentaçaõ de uma singularidade de encantar. amei. amei

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  3. este site e otmo parabens beijos

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  4. Cabe a escola, particularmente ao professor, um papel importante na construção desse sujeito crítico o preparando para lidar com as ideologias que estão subentendidas nas linguagens cinematográficas, para realizar a “leitura crítica do mundo” a partir das imagens, pois elas escondem posturas ideológicas, direcionamentos políticos, valores que devem ser percebidos pelo leitor. Os filmes classificados como históricos, que contêm em sua estrutura narrativa ou conteúdo relacionados com fatos históricos, devem ser abordados com metodologias adequadas, precedidas por médio do levantamento de dados que permitam a identificação do filme, tais como o conhecimento da ficha técnica da obra (ano de produção, local, diretor, elenco, produtores) e comentários de especialistas publicados em jornais e revistas. Com a observação das características estilísticas do enredo, a música, o roteiro, as montagens, observando esses recursos técnicos gerará o auxilio perceber as convenções estéticas e sociais comuns a um determinado período histórico, estimulando o referencial crítico dos estudantes. Em fim o filma poderia ser trabalhado no Ensino de História mediante um plano de aula que reflita o contexto da época, o impacto na construção de uma política nacional de proteção aos povos indígenas e papel na criação do Parque Indígena do Xingu e da Fundação Nacional do Índio (FUNAI). Estudnate de Pedagogia

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