Cinema
O Oscar Brasileiro
Festas glamorosas, tapete vermelho, vestidos de grife. Para grande parte dos milhões de fãs de cinema que assistem todos os anos à entrega do Oscar, prêmios de cinema são apenas uma chance de ver celebridades num programa de televisão. Para os que fazem e estudam filmes, no entanto, eles vão muito além disso. Premiações como o Oscar e os três grandes festivas europeus - Cannes, Berlim e Veneza - são muito mais do que uma entrega de estatuetas. Elas têm inegável importância cultural, na medida em que sinalizam as tendências que marcam cada época. A partir dos indicados ao Oscar deste ano, o crítico Richard Brody, da revista americana The New Yorker, lançou a tese da volta da tendência autoral ao cinema - e o exemplo mais eloquente foi justamente o vencedor da estatueta, Quem Quer Ser um Milionário?. Premiações têm, também, importância econômica. Vencedor da Palma de Ouro do Festival de Cannes 2008, o modesto (em custo de produção) Entre os Muros da Escola, de Laurent Cantet, rodado em sete semanas em um colégio da zona leste de Paris, ganhou o mundo e se tornou sucesso de bilheteria - além de receber vários outros prêmios e indicações, entre elas para o Oscar de melhor filme estrangeiro.
No Brasil, até recentemente a repercussão dos prêmios era bem mais modesta. Os eventos criados sob a inspiração dos grandes festivais internacionais, em Gramado e em Brasília, tiveram seu momento - Brasília, entre os anos 60 e 80, por servir de tribuna contra o regime militar, e Gramado na década seguinte. Num momento em que essas duas premiações estão em crise de identidade, um novo evento emerge e, em pouco tempo, se transforma no maior do gênero na história cultural brasileira: o Festival de Cinema do Rio de Janeiro, ou Festival do Rio.
Em dez anos de existência, ele se tornou a primeira premiação nacional de cinema com visibilidade internacional. É frequentado por grandes produtores do mundo inteiro - como Harvey Weinstein, fundador da Miramax, que esteve na capital fluminense na edição de 2007. Curadores de festivais europeus como Cannes e Berlim também aparecem no evento, ou enviam representantes. O Festival do Rio se compõe de um grande panorama de filmes estrangeiros, sessões hors-concours (produções fora da competição exibidas pela primeira vez no Brasil) e contará, neste ano, com uma mostra paralela chamada Novos Rumos. A grande atração, no entanto, é a mostra competitiva Première Brasil - que se tornou a grande vitrine do cinema brasileiro. Ela tem lugar no Cine Odeon, uma glamorosa sala de exibição no centro do Rio de Janeiro. Além de despontarem para o cenário internacional, os filmes que são aplaudidos lá - como Tropa de Elite há dois anos - têm portas abertas no mercado brasileiro.
Por isso, há uma grande disputa entre diretores para ter seus filmes exibidos na Première Brasil. Neste ano, nela foram inscritos 61 documentários e 45 longas de ficção. Pode-se dizer que uma enorme fatia da produção nacional escolhe o festival para estrear seus filmes, que disputam as cerca de 20 vagas para exibição na competição. Isso gera até lobbies. É comum alguns diretores abordarem Ilda Santiago, idealizadora e diretora do festival, com frases como "veja meu filme com carinho". Dois são os critérios para que um filme seja escolhido: apontar novas tendências artísticas e ter viabilidade mercadológica, sem que um exclua o outro. Exatamente como ocorre em festivais como os de Cannes e Berlim, alguns dos inspiradores do Festival do Rio.
Ao todo, são 250 convidados estrangeiros - além de executivos de estúdios e programadores de festivais, críticos de publicações de peso e distribuidores internacionais comparecem ao festival. "Para nós, é uma grande oportunidade de negócio", diz Wilson Feitosa, diretor da Europa Filmes, uma das maiores distribuidoras brasileiras. "Nós mantemos contatos com vendedores internacionais. E esses contatos são um bom caminho para vendermos nossos filmes". Para a produtora Rita Buzzar, colecionadora de grandes sucessos de público, como Olga, o festival carioca é uma excelente janela para um filme nacional ter um público entre 300 mil e 500 mil pessoas no Brasil, além de ser uma plataforma para o mercado internacional. "Muita gente fica esperando o festival, que tem um bom impacto no mercado", afirma Rita.
É preciso ler os festivais da maneira correta. Em alguns deles, vencer não é o mais importante. No caso do Festival do Rio, isso é especialmente verdadeiro. Todos sabem como é a estatueta do Oscar e também que o vencedor em Veneza leva um Leão de Ouro, o de Berlim, um Urso de Ouro e o de Cannes, a Palma de Ouro. Gramado e Brasília consagraram, respectivamente, o Kikito e o Candango. A estatueta atribuída ao vencedor do Festival do Rio - o Redentor, cuja foto está na capa de BRAVO! - ainda não entrou, no entanto, no imaginário nacional. Isso porque no evento carioca, mais do que levar a estatueta, o importante é "causar". Como a Première Brasil é, em última análise, um conjunto de estreias, o importante é a repercussão. Filmes que provocam algum tipo de polêmica na imprensa têm mais chances de decolar. Essa é justamente uma das principais vantagens do Festival do Rio sobre Gramado ou Brasília. Por se localizar numa das maiores metrópoles brasileiras, que por muito tempo foi a capital cultural do país (condição que hoje divide com São Paulo), o festival acaba mais próximo da opinião pública.
O maior exemplo disso foi Tropa de Elite, de José Padilha, exibido na Première Brasil em 2007. Antes do festival, o filme já tinha sido visto por milhões de brasileiros em cópias piratas vendidas por camelôs. Foi a partir da exibição na Première Brasil que a produção se tornou polêmica. "O filme é de um reacionarismo que talvez não tenha paralelos na história do cinema nacional", atacou o escritor João Paulo Cuenca, um dos convidados para a estreia do longa no evento. Vitaminado pela discussão, Tropa de Elite, que contou com opositores e defensores ardorosos, levou 2,5 milhões de pessoas aos cinemas. A renda total do filme no Brasil ultrapassou os R$ 20 milhões, o dobro de seu custo. Impulsionado por Harvey Weinstein, coprodutor e distribuidor internacional do longa, Tropa ganhou o mundo e do Rio foi para o Festival de Berlim, onde levou o Urso de Ouro de melhor filme - em um júri presidido pelo diretor Costa-Gavras, notório realizador de filmes políticos.
Outro caso emblemático da vitrine que o Festival do Rio representa foi Estômago, de Marcos Jorge, vencedor do voto popular da edição de 2007. O longa protagonizado pelo ator João Miguel custou R$ 1 milhão - produção magra até para o mercado brasileiro. No dia seguinte à exibição, que teve aplausos consagradores e igualmente repercutiu na imprensa, a produtora de Estômago, Cláudia da Natividade, recebeu 50 e-mails de distribuidores de todo o mundo interessados na produção. Dos 23 países para os quais foi vendido, mais de dez ainda aguardam a estreia. A estimativa é que o filme, incluindo o Brasil, já tenha sido visto por 500 mil pessoas. "Sem o Festival do Rio, isso dificilmente aconteceria", diz Cláudia. Estômago se pagou com folga. Até agora já arrecadou R$ 2,5 milhões. Um ano antes, em 2006, o Festival do Rio viu a pré-estreia de O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias. "Suspeito que o festival daqui ajudou o filme a ir para outros festivais", diz o diretor Cao Hamburger. Depois de aparecer no evento carioca, o longa foi escolhido para o Festival de Berlim e também indicado pelo governo brasileiro para representar o país no Oscar. Até agora, o filme de Hamburger já foi exibido em 20 países - acaba de estrear na Espanha.
Neste ano, algumas das produções mais aguardadas são Cabeça a Prêmio, estreia na direção do ator Marco Ricca; Hotel Atlântico, novo filme da veterana Suzana Amaral; Os Inquilinos, do polêmico Sérgio Bianchi; e Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo, dirigido pela dupla Karim Ainouz e Marcelo Gomes. E surge a questão: que tendência do cinema brasileiros esses filmes sinalizarão? Trata-se de uma pergunta pertinente, já que ao longo dos últimos anos o Festival do Rio, mais do que qualquer outro, se tornou a bússola do cinema brasileiro. A partir das sinopses dos filmes e do depoimento da diretora do festival, Ilda Santiago, é lícito supor que tais produções sigam o veio aberto, no ano passado, por Linha de Passe. O filme de Walter Salles e Daniela Thomas promove uma visão mais complexa do Brasil, equidistante do otimismo das comédias de Watson Macedo, nos anos 50, e do pessimismo de tintas deterministas da corrente dos filmes sobre violência.
Neste ano, a diretora Sandra Werneck estará na Première Brasil com Sonhos Roubados, no qual funde realidade e ficção ao abordar a juventude da periferia - assim como Walter Salles e Daniela Thomas fizeram em Linha de Passe. O ambiente da violência interessava havia alguns anos a diretora, mas ela não queria um filme maniqueísta. "É incrível a alegria na periferia por causa do futebol aos sábados e também dos bailes. Não se imagina que seja assim um lugar onde tiroteios são recorrentes", disse a diretora em entrevistas. Outra obra da Première é de Sérgio Bianchi. Em Os Inquilinos, o diretor, que sempre apresentou uma visão extremamente pessimista do Brasil em filmes como Cronicamente Inviável e Quanto Vale ou É por Quilo?, aborda a vida de uma família de classe média baixa às voltas com vizinhos envolvidos com a criminalidade. Como ocorreu no ano passado com Matheus Nachtergaele, que mostrou o seu A Festa da Menina Morta, neste ano outro ator estreia como diretor. Marco Ricca chega à mostra competitiva no Rio com Cabeça a Prêmio, filme adaptado do romance homônimo de Marçal Aquino. Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo, de Karim Ainouz e Marcelo Gomes, selecionado para a sessão hors-concours, é road movie que atravessa o sertão nordestino e no qual não se vê a cara do protagonista - um geólogo que, em viagem de trabalho, reflete sobre a dor da recente separação. Não há no longa fatalismo algum, e a travessia da perda leva a um mergulho profundo nos sentimentos do personagem e no que ele vê ao longo da viagem. A reportagem de BRAVO! assistiu ao filme e prevê que provocará grande discussão.
Além da relevância cultural e econômica, o Festival do Rio, como todo evento do gênero que se preza, tem, sim, tapete vermelho e celebridades nacionais e internacionais. Neste ano, o convidado mais aguardado é o diretor Quentin Tarantino, que vem provocando polêmica no mundo com seu filme Bastardos Inglórios, ambientado na Segunda Guerra. O Cine Odeon transforma-se em uma verdadeira festa de gala nas estreias e no dia da premiação. A sala de exibição oficial do festival, localizada no bairro carioca da Cinelândia, foi inaugurada em 1926 e há nove anos passou por uma reforma para recuperar as características arquitetônicas originais. A ideia era recriar o requinte que o ambiente tinha na época em que foi construído. A sala de 600 lugares tem, como nos cinemas de antigamente, uma cortina de veludo vermelha sobre a tela. Antes da projeção, soam as três badaladas de um gongo. Neste ano, o festival comemora dez anos, e a decoração lembrará as edições passadas, com cartazes de todos os filmes que tiverem passado pela premiação.
Nesses dez anos, o Festival do Rio teve vários momentos marcantes. No ano passado, o ex-mutante Arnaldo Baptista, que andava sumido por conta de problemas de saúde, foi aplaudido de pé por uma plateia lotada, por mais de cinco minutos, após a exibição do documentário Loki, de Paulo Henrique Fontenelle. Na edição de 2007, a ex-chacrete Rita Cadillac "causou" no Odeon depois da apresentação do documentário do diretor Toni Venturi. "A lady do povo", como diz o título do longa sobre a sua vida, entrou no palco no estilo Cadillac, de vestido reluzente preto com uma generosa fenda na perna, e, de mãos dadas com Venturi, fez um breve discurso. Ela contou com lágrimas nos olhos que, quando jovem, passava as tardes vendo filmes no Cine Odeon, mas nunca imaginara que, um dia, seria a estrela naquela tela.
Nos últimos anos, o Rio de Janeiro, que já foi considerado a capital cultural do país, passou a dividir essa condição com São Paulo, tradicionalmente a capital econômica. Estabeleceu-se uma verdadeira "divisão de áreas" entre as duas cidades. São Paulo é a capital das artes plásticas, do design e também da música erudita -
a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp) se firmou como centro de excelência de dimensão inédita no país. O Rio de Janeiro ficou com a música popular - os principais artistas da MPB ainda vivem lá - e o cinema. Faltava à capital fluminense, no entanto, um evento de peso na área em que a cidade é forte, assim como São Paulo tem a Bienal de Artes Plásticas e a SP-Arte. O Festival do Rio surgiu para suprir essa lacuna. Como diz um dos cariocas mais cariocas que existem, o escritor Sérgio Cabral, pai do governador do estado do Rio de Janeiro, o festival veio para ficar. "São tão importantes os filmes exibidos no nosso festival que não creio haver outro evento na América Latina com tantas opções para conhecer as novas produções cinematográficas", diz Cabral. Sua frase não é patriotada. É a pura realidade.
O FESTIVALFestival do Rio 2009. Entre 24 de setembro e 8 de outubro. Os filmes da Première Brasil serão exibidos no Cine Odeon.
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