Revista

A A A

Júnior Aragão

ci-colherada-reichenbach

Em foto recente no Festival de Brasília

O cineasta Carlos Reichenbach morreu na tarde de ontem em São Paulo, no dia em que completou 67 anos. Deixou como legado uma obra autoral, pautada pelo deboche e a anarquia, num convite a um mergulho nas contradições, no ridículo e na vívida periferia urbana. Seus dois filmes mais premiados, Filme Demência, de 1985, e Anjos do Arrabalde, de 1987, são bons exemplos desse estilo, e reforçam o pertencimento de Carlão, como ele era chamado, a movimentos como o Cinema Marginal e a Boca do Lixo.

Carlão assinou 22 filmes como diretor, filmou 21 roteiros e dirigiu a fotografia de 38 películas. Seu último trabalho foi Falsa Loura, lançado em 2007. Entre seus principais filmes como diretor estão A Ilha dos Prazeres Proibidos (1979), Império do Desejo (1981), Filme Demência, Anjos do Arrabalde, Alma Corsária (1993) e Garotas do ABC (2003).

Ao longo dos anos 80, Reichenbach foi premiado nos principais festivais do país, como Brasília e Gramado, e chegou a ser tema de uma mostra com seus filmes no Festival de Roterdã, na Holanda. Em sua última edição, realizada no início deste ano, o festival apresentou uma cópia restaurada de Liliam M – Relatório Confidencial, de 1975.

Mas para definir Carlão com mais precisão e ter a dimensão do que sua perda representa talvez seja melhor recorrer a um trecho do livro Carlos Reichenbach - O Cinema Como Razão de Viver, do jornalista Marcelo Lyra: "Desde esse filme (Alma Corsária), passei a acompanhar Carlão um pouco mais de perto, indo sempre que possível a debates e palestras. Nestes, destaca-se pelo modo apaixonado de falar sobre cinema, seja de seus filmes ou de outros. Em todas, invariavelmente excede em muito o horário limite. Apaixonado e passional, se o tema o desagrada, é capaz de rompantes de fúria, traço de sua personalidade que eu iria conhecer melhor mais adiante, numa entrevista quase fulminante. Mais de uma vez o vi sair da sala conversando com o público, fazendo o debate prolongar-se na porta dos locais. Segundo ex-alunos do curso de cinema da Escola de Comunicação e Artes da USP, o mesmo acontecia depois das aulas, que costumavam ser acompanhadas por alunos de outros cursos. Nelas procurava se expor ao máximo, tentando contaminar seus alunos com esse prazer do fazer cinematográfico que o impulsiona e, no fundo, é sua razão de viver".

 

 

Tags: Carlos Reichenbach,

Nenhum comentário