Cinema
Poncho, conga e militância
-
DivulgaçãoA atriz Francisca Gavilán em cenas de Violeta Foi para o Céu. O filme não adoça nem amansa o temperamento espinhoso da biografada -
DivulgaçãoA atriz Francisca Gavilán em cenas de Violeta Foi para o Céu. O filme não adoça nem amansa o temperamento espinhoso da biografada
A poeta, compositora e cantora chilena Violeta Parra foi talvez o símbolo máximo da resistência latino-americana à hegemonia política e cultural dos países do Hemisfério Norte. No Brasil, seu nome está associado à onda de “poncho e conga”, que tomou a juventude de esquerda nos anos 70, década em que suas músicas Gracias a la Vida e Volver a los 17 foram gravadas por Elis Regina e Milton Nascimento, respectivamente.
O filme Violeta Foi para o Céu, que chega este mês aos cinemas do país, de certo modo revive o espírito daquele período ao delinear a tormentosa e infeliz trajetória da artista, que se matou em 1967, antes de completar 50 anos. É significativo que o longa de Andrés Wood (diretor também do comovente Machuca) venha à luz e ganhe repercussão internacional num momento em que renasce com força na América Latina uma tendência anti-imperialista e de valorização das tradições populares de raiz pré-colombiana, expressa em governos nacional-populistas, como os de Hugo Chávez (Venezuela), Evo Morales (Bolívia), Rafael Correa (Equador) e Cristina Kirchner (Argentina).
PERSONALIDADE INCÔMODA
Violeta Foi para o Céu tinha tudo para ser uma cinebiografia chapa branca, até pelo fato de ter se baseado no livro homônimo do filho da compositora, o também músico Ángel Parra, que acompanhou o roteiro e as filmagens como consultor. Mas o longa não adoça nem amansa o temperamento espinhoso da biografada. Ao contrário: mostra-a como criatura francamente incômoda e até desagradável, em permanente desavença não só com o poder político e econômico mas também com os parentes, os amores, os amigos e, o que é pior, consigo mesma.
Narrado em vários tempos, Violeta expõe momentos significativos da vida da compositora: a infância pobre; a relação difícil com o pai professor, músico e alcoólatra; o aprendizado da música como autodidata; a filha morta ainda bebê, quando a artista estava na Polônia; as andanças pelo continente e pela Europa. Uma imagem recorrente é a de Violeta caminhando a pé no meio do mato, a subir e descer montanhas com seu filho, Ángel, em busca de velhos camponeses que lhe ensinem canções ancestrais, transmitidas ao longo dos séculos pela tradição oral. As cenas revelam sua faceta de pesquisadora do folclore, mas também sua personalidade inquieta.
Já a militância comunista aparece de modo indireto (por exemplo, nas perguntas capciosas de um entrevistador de televisão). Com poucos recursos para a reconstituição de época, Andrés Wood praticamente restringiu seu foco às áreas rurais e às cenas internas. Há, ainda, certa complacência diante da sofrível produção de Violeta como artista visual. Está certo, ela expôs no Louvre, mas no salão de artes decorativas e quase como uma curiosidade exótica.
No mais, o filme não tem grandes rasgos de inspiração nem achados de mise-en-scène, mas sustenta bem sua narrativa. A atriz Francisca Gavilán adere com garra à personagem, sem esconder suas arestas e sua inclinação depressiva. Lançado em agosto do ano passado no Chile, Violeta levou aos cinemas 300 mil espectadores, num país com menos de um décimo da população brasileira, e virou minissérie televisiva de sucesso. A crítica local foi favorável, e alguns o consideraram o principal filme chileno da história – um exagero na terra de diretores como Raoul Ruiz, Miguel Littín e Patricio Guzmán.
Os prêmios em importantes festivais de cinema independente, como o de Sundance, nos Estados Unidos, animaram os produtores, entre os quais figura a brasileira Bossa Nova. E a carreira internacional de Violeta Foi para o Céu está apenas começando. No segundo semestre, estreará na Espanha, na França e na Polônia.
José Geraldo Couto é jornalista e assina a coluna José Geraldo Couto: No Cinema, em blogdoims.uol.com.br.
O FILME
Violeta Foi para o Céu. Com Francisca Gavilán, Thomas Durand. Estreia neste mês.
Nenhum comentário