Cinema
"Por Quê?"
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DivulgaçãoO ator Ezra Miller no papel de Kevin. Há no adolescente algo de irredutível às generalizações -
DivulgaçãoTilda Swinton e Rock Duer como Eva e Kevin. Uma relação marcada por olhares desafiadores e duras palavras
Precisamos Falar Sobre o Kevin está em algum lugar entre a tragédia e o filme de terror. Como no gênero fundador do teatro ocidental, ficamos diante de personagens entregues à ação devastadora do destino, que tudo arrasta para um confronto com forças essenciais e violentas, raramente resultando em final feliz. E, a exemplo da estética do susto, atravessamos seus 112 minutos tensos e intrigados, sem querer acreditar no que sabemos que de fato vai acontecer e, sobretudo, sem querer ver o que nos é mostrado com bem dosada crueza.
Revelar aqui o fim do personagem-título não estraga a surpresa: adolescente de classe média alta, Kevin perpetra um assassinato em série na escola, em um bucólico subúrbio norte-americano. Conduzindo a narrativa como uma colagem de tempos – e não como um mero flashback –, a diretora britânica Lynne Ramsay observa de perto a vida de Eva Khatchadourian, escritora de livros de viagem e talvez a mais solitária sobrevivente do massacre: ela é a mãe de Kevin.
O que importa, portanto, não é saber o que acontece, mas como acontece. E aí Precisamos Falar Sobre o Kevin mostra sua originalidade. A base dos superlativos êxitos de Lynne Ramsay é a decisão de adaptar o livro homônimo de Lionel Shriver, editado no Brasil pela Intrínseca. Vencedor em 2005 do Orange Prize, prêmio inglês dedicado à ficção escrita por mulheres, o romance da escritora norte-americana é uma engenhosa visão da tragédia, narrada por meio de cartas que Eva dirige ao marido. Envolvente nos detalhes, o texto tem uma qualidade paradoxal: ainda altamente emocional, não há nele nem uma única derrapada no sentimentalismo.
É esse ponto de vista, a um só tempo engajado e distante, que Lynne consegue recriar num roteiro excepcional. Pois duas tentações rondam um episódio dessa natureza. A primeira, o psicologismo, que confunde a liberdade própria da ficção como álibi para “entrar na cabeça” de um sociopata e fabular suas motivações. A segunda, o realismo pseudodocumentário, que faria do fetiche de reconstituições a exposição de uma tragédia “como ela é” – ou seria.
Uma bola, uma caixa de giz, o presídio
Do livro para o filme, Eva deixa de ser a narradora para ser observada por uma câmera imparcial – e, para aguentar esse tranco, só mesmo a soberba atriz inglesa Tilda Swinton. Como num pesadelo, desfilam momentos cruciais em sua vida: a juventude leve e liberta, o amor boêmio com Franklin (John C. Reilly), o casamento, a indesejada gravidez de Kevin, a exaustão física e psicológica da maternidade, a mudança forçada da amada Nova York para um subúrbio idealizado a fim de “criar os filhos”.
É importante observar que o filme é permeado, sem feminismos de almanaque, pelas intempéries da condição feminina. Sobretudo na exigência de a mulher conformar-se à procriação, assunto desconfortável ainda hoje, mais de 30 anos depois de a francesa Elisabeth Badinter ter lançado o petardo Um Amor Conquistado – O Mito do Amor Materno, estudo que mostra como se construiu historicamente um suposto “instinto” de maternidade.
Insidiosamente, o que se instaura é um desentendimento primordial entre mãe e filho, agravado pela chegada de Celia (Ashley Gerasimovich), nova filha não planejada. Numa narrativa em que nada se desperdiça, Lynne cria cenas simétricas desses enfrentamentos entre Eva e Kevin (vivido assustadoramente por Ezra Miller na adolescência e por Jasper Newell e Rock Duer em fases distintas da infância). Em tempos diferentes, os dois estão frente a frente, separados por uma bola, uma caixa de giz de cera, a mesa de um restaurante ou o parlatório de um presídio: há uma tensão insuportável, de poucas e duras palavras e olhares desafiantes. Há, também, analogias visuais e sonoras, com a música e os ruídos do ambiente transformados em personagens e uma meticulosa exploração visual do vermelho – em tomates, geleia, cartazes, figurinos e sangue.
Nem Michael Moore nem Gus van Sant
O que sai daí é uma fieira de perguntas perturbadoras: as explosões de violência do adolescente nascem das pirraças da criança? Kevin torna-se quem é por um protesto radical ao suposto desamor da mãe? Ao negar a maternidade como um destino, Eva torna-se um monstro? Coadjuvante na vida familiar, o pai é amoroso ou fraco? O quanto de manipulação suporta uma relação entre pais e filhos? O ovo da serpente está no meio da família ou na sociedade?
Na areia movediça das perspectivas, o filme sustenta não haver chão seguro. Todos seriam, em alguma medida, vítimas e algozes. Não há aqui, para citar dois filmes com situações semelhantes, a resposta populista de um Michael Moore, que em Tiros em Columbine (2002) responsabiliza o armamentismo da sociedade norte-americana pelo massacre que dois adolescentes realizaram em 1999 na escola do Colorado, nem a estetização do universo jovem como em Elefante (2003), do norte-americano Gus Van Sant.
A singularidade de Precisamos Falar Sobre o Kevin está em mostrar que, no centro do radicalmente disfuncional, não se encontra apenas a complexidade do humano ou a ação destrutiva da sociedade, mas uma área de opacidade que resiste às interpretações. Por isso, Kevin não é nem mesmo um arquétipo possível para personagens semelhantes e terrivelmente presentes no noticiário. Há nele algo de irredutível às generalizações. Ao, por exemplo, nomeá-lo “monstro” e responsabilizar sua mãe pela tragédia, a sociedade resolve seu problema, reafirma sua suposta normalidade – mas não chega ao lugar essencial e desde sempre inacessível.
Em dado momento, Eva está perplexa ao descobrir que Kevin coleciona vírus de computador. “Qual o propósito?”, pergunta ela, no diálogo que resume esse filme brilhante e perturbador. “Não há nenhum propósito”, responde ele. “Esse é o propósito”.
Paulo Roberto Pires é jornalista e escritor, autor dos romances Do Amor Ausente e Se Um de Nós Dois Morrer.
O FILME
Precisamos Falar Sobre o Kevin, de Lynne Ramsay. Com Tilda Swinton, John C. Reilly, Ezra Miller. Em cartaz nos cinemas.
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