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Foto André Ducci
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Desenho que integra Guia de Ruas Sem Saída. Cinzas, fezes e sangue são alguns dos materiais que formam o cerne do romance

Em A Insustentável Leveza do Ser, o escritor checo Milan Kundera refuta a ideia de Deus baseado no pressuposto de que nenhum Deus criaria uma vida na qual fosse necessário defecar. Guia de Ruas Sem Saída, novo romance de Joca Reiners Terron, cria um mundo que aboliu qualquer traço de Deus. “Um mar de merda. Remexo e nada. Vomito. Espaguete. Vomito mais”, registra um dos personagens. Cinzas, fezes, sangue – esses são alguns dos materiais que formam o cerne do livro. Evocando o odor da mortalidade e da decadência, o excremento aparece como uma piada universal, que serve de alerta a todos, leitores e personagens, como uma lembrança da morte certa. A morte, protagonista do Guia, é a rua sem saída por excelência – voltar é impossível.

A história se alterna entre dois homens: um cartunista barbudo, que cria um super-herói de sucesso, o Homem-Escada, e um que procura um transplante de fígado no exterior. As tramas se desenvolvem em paralelo entre capítulos breves de texto e outros com ilustrações de André Ducci, que recebeu orientações do próprio autor. Frases curtas, onomatopeias e repetições de vozes narrativas contribuem para deixar o discurso sempre por um fio, convulsivo, na iminência de um abandono. Os desenhos evocam uma atmosfera onírica, sensação potencializada pelo desconforto com os ambientes que nasce e cresce dentro do próprio texto. As imagens não estão ali para ilustrar uma história coesa e linear, mas para provocar ainda mais ruído, fazendo do Guia um intrigante jogo de armar, uma caçada ao sentido, que sempre escapa.

Gorilas e Beckett

A escritura do livro acompanha a progressiva perda de consciência dos personagens, que já não se reconhecem (“Tem um homem refletido na parede interna da geladeira. Quem será esse barbudo?”) e não sabem mais para onde ir (“O outro lado do mundo é um lugar distante demais para morrer”). Surgem gorilas assassinos, prostitutas, intervenções cirúrgicas, chips com GPS – todos produtos dessa voragem narrativa que impede o estabelecimento de qualquer explicação ou motivo.

Nossos tempos de vertiginosos estímulos aparecem nas descrições com metáforas inesperadas. Os diálogos rápidos e áridos, de palavras enigmáticas, carregam marcas beckettianas e de recriações posteriores, como a peça O Gordo e o Magro Vão Para o Céu, de Paul Auster: “Ninguém. Néquem. E você? – Não sei – Não-Sei e Ninguém. Podíamos montar um grupo musical. Nosso maior sucesso iria ser ‘Nunca’”.

O Guia é, no fim das contas, um exercício de contato com a morte. Sua construção, no entanto, mostra que grande parte dos tormentos está na vida – e deve ser resolvida enquanto ela ainda existe.

Kelvin Falcão Klein é crítico literário, autor do blog Um Túnel no Fim da Luz (falcaoklein.blogspot.com).

O LIVRO

Guia de Ruas Sem Saída, de Joca Reiners Terron. Ilustrações de André Ducci. Selo Edith, 256 págs., R$ 35.

Tags: Guia de Ruas Sem Saída, Por um fio, Joca Reiners Terron,

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