Literatura
Presenças e Ausências - Ficção Inédita
AÇÚCAR
Meu vô Laco era branco e leve, sentado à porta. Respirava baixo. Tinha nos olhos resto de espanto: era cego. E no cegar sequer sabia a gente, na cadeira anoitecia, quieto, quieto, entre galinhas e sapos. Havia escuro, mas no rosto do vô as duas velas, até minha mãe, sua filha, soprá-las com voz e braço, ternos.
Era plácido; inimigo do vento. Às vezes quis falar-lhe, dizer verso, dizer: vô Laco, o senhor lembra que são bonitas as galinhas? Dizer: vozinho, quer que eu te conte essa figura de revista? Não disse. Meu vô Laco era perecível. A gente ficava sem jeito de amá-lo.
Cheirava morno. Vestia casaco, seu único, de linho marrom. Casaco de baús. Nos bolsos, guardava as mãos, muitíssimo. Muitíssimo ruminou segredo na boca vazia de dentes. Mastigava - os lábios cerrados, beija-flor de asa - algum caramelo eterno.
Gostava, sim, de caramelos. Mas o doutor lhe proibira açúcar: a filha escondera em terríveis potes as doçuras todas da casa. Não raro a gente o via na cozinha a tatear, cheirar, derrubar xícaras. Sumiam nacos de rapadura e chocolate, fatias de bolo - que coisa feia, o senhor não tem vergonha? E o vô sorria, desentendido.
Uma vez me chamou: Julinho. Então ele me sabia? Tirou do bolso chicle de hortelã. O sol, monótono, se punha. Houve barulho: de grilo, rádio, cão. Fiquei assim, com ele, ao pé da porta - silencioso, diminuto, a estourar bolas.
Um velho sentado em cadeira preenche os quintais do mundo. Não há não vê-lo; não pensá-lo. Um velho vive porque a gente o vê, a gente pensa: quando ele for, o que será? Pois se ele tem a idade do tempo. A gente ri do que ele fala, diz: está caduco. Um velho atravessa o dia muito só, lembrando, navegante de horas. Leva a cadeira ao quintal, de manhã; à noite a recolhe. Entrementes, o nada supremo, as cozinhas.
Não disse: quer um gole do meu guaraná? Que eu te faça chapéu de jornal? Ele era pouso pros aviões da gente - gigante doce, inerte.
Decerto, entrementes, mastigando, quis dilúvio, quis incêndio, morreu, morreu - sequíssimo e intacto. E já não era vô Laco; era o horror das cadeiras sem velho.
Foi velado, sobre a mesa. Vieram parentes, com choro. Lá fora, o burburinho das aves. A filha penteara-lhe o cabelo, pusera-lhe sapatos, um casaco outro, novo. Eu sério, homenzinho, as pestanas inquietas. Amei-o com atraso.
O que é de um morto esconde-se em armário, atrás de porta. É um palpitar no escuro. A gente o liberta, enfim - e está mofado.
Do vô, era o casaco. Pendia (tão seu único, tão marrom) de algum cabide firme. E vi - que ditosas, achadoras de tesouro, invadiam-lhe os bolsos mil abelhas e formigas.
CHAPÉU-COCO, SAIA DE PREGAS
É o parque em inverno de muitos verdes, de: pipoca, algodão-doce, cata-vento. Estamos envoltos em lã. Alguém toca realejo.
Vemos - que o moço de chapéu-coco senta-se a um canto, a outro a moça de saia de pregas. Ignoram-se. Ambos escondem cinzas, poucas, no coque e sob o chapéu. Têm o rosto cansado, mas sereno.
E sabemos - que o moço, matemático, perdeu a mulher pra cantor (de boleros). Às vezes, chora. Não tem vícios. Gosta de carrosséis, à noite. Cultiva cravos.
A moça nunca arranjou marido. É enfermeira (mas quis ser trapezista). Quer filha, pra chamar de Alice. Sente frio.
Se o moço visse a moça, se a moça visse o moço, haveria comoção, queda de amores. Piscariam os grandes olhos tépidos. O moço daria à moça o cravo em sua lapela, seu negríssimo sobretudo. Mentiria - que é muito poeta, tocador de acordeão.
A moça estenderia a mão com luva, tentaria sorriso nunca usado. Saberiam, ambos. Dar-se-iam o medo de que o outro morresse, fugisse - o acender de luzes pra ver se o outro tem um corpo, e dorme.
Se vissem, se apenas vissem, ela seria Mafalda, ele Armando, de sobrenome mesmo. Assinariam papéis. Na boda, Mafalda usaria lilás, já tão cheia de Armando, de Alice: Alice seria frágil, de doçura tanta... Teimaria em andar descalça (menina, nesse chão gelado!), enquanto a mãe lhe tricotasse longas meias, e para o pai um cachecol vermelho.
Se, apenas se, iriam ao circo, andariam de carrossel, à noite - Alice sorrindo, sem os dentes da frente. Seriam três, por aí, tão juntos (cuidado com o vento, os carros, o sangue, os insetos). Seriam três, e a certeza de um beijo, se o quisessem, e não respirar sozinho.
Mas eis que chega a hora de partirmos. É cada vez mais tarde. O moço, que tinha nas mãos o chapéu-coco, devolve-o à cabeça. A moça ajeita a saia de pregas. Levantam-se.
E caminham, os dois, para ruas opostas, na direção de prédios muito altos.
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Ana Santos é escritora. Ainda sem data de lançamento, o livro O Que Faltava ao Peixe - do qual fazem parte os contos publicados nesta edição - nasceu graças ao Programa de Bolsas de Estímulo à Criação Artística, da Fundação Nacional de Artes (Funarte).
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