Cinema
''Que Maravilha poder inventar a Vida''
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Jesus CarlosGabriel García Márquez e Ruy Guerra em 1982. Parceria afinada, apesar de o escritor achar que o cineasta destroçou um de seus livros. -
Fotos Columbia Pictures / Divulgação / KeystoneO gosto de García Márquez! Ao eleger os melhores filmes de 1954, o autor deu uma amostra de suas ideias sobre cinema. García Márquez adorava o cinema francês, tanto que escolheu Dieu a Besoin des Hommes (''Deus Precisa dos Homens'', acima) como o melhor do ano;... -
Fotos Columbia Pictures / Divulgação / KeystoneO gosto de García Márquez! Ao eleger os melhores filmes de 1954, o autor deu uma amostra de suas ideias sobre cinema ...respeitava os independentes americanos, como O Selvagem (acima);... -
Fotos Columbia Pictures / Divulgação / KeystoneO gosto de García Márquez! Ao eleger os melhores filmes de 1954, o autor deu uma amostra de suas ideias sobre cinema ...e definiu o brasileiro O Cangaceiro (acima) como ''um belo poema primitivo''.
Que tipo de mistério é esse, que faz com que o desejo de contar histórias se transforme numa paixão e que um ser humano seja capaz de morrer por essa paixão, morrer de fome de frio ou do que for desde que seja capaz de fazer uma coisa que, afinal, não serve para nada?", questiona Gabriel García Márquez, inquietando-se em descobrir o momento exato em que uma história surge. Momento esse que ele experimentou durante toda a vida, como escritor e também roteirista. Na juventude, García Márquez queria ser cineasta. O sucesso de Cem Anos de Solidão e a preferência pelo trabalho solitário de romancista o desviaram desse percurso, mas nunca conseguiram afastá-lo de sua obsessão pelo cinema. Este mês, ele é homenageado no 6º Festival de Cinema Latino-Americano de São Paulo, que acontece de 11 a 17 de junho.
Em 1950, García Márquez foi estudar roteiro em Roma. Decepcionou-se com as aulas puramente teóricas, ministradas, segundo ele, por "sábios doutores da lei", "que viviam convencidos de que não havia nada mais importante neste mundo, para um futuro roteirista, que a Estética do Cinema ou a História Socioeconômica do Cinema". Da escola, ele aproveitou a Cinemateca - graças à qual, pôde ver todos os clássicos - e um curso de montagem - no qual, observando o trabalho da professora, passou a entender como se urdia um relato cinematográfico. Desse interesse, vem a admiração pelo cineasta espanhol Luis Buñuel, considerado por ele um editor tão bom que se permitia ao luxo de editar com a câmera. "Eu não sou muito buñuelista, em termos de visão de mundo, mas admiro esse seu lado profissional. Buñuel fazia poucos cortes na moviola. Cortava durante a filmagem", disse.
De volta a Bogotá, em 1954, trabalhando como jornalista no jornal El Espectador, praticamente inaugurou o gênero de crítica cinematográfica, exercício que foi mantido por ele durante mais de um ano. Antes disso, não havia na imprensa colombiana uma coluna regular sobre o assunto. Os distribuidores e exibidores reagiram à iniciativa, achando que as críticas atrapalhariam seus negócios. Em uma carta ao veículo, um deles protestou: "Não esqueça, senhor GGM, que quando, ao comentar algum filme, se enfurece impiedosamente com ele, está, sem o propor, prejudicando os interesses de algum empresário". No editorial, o jornal defendeu o escritor: "A crítica cinematográfica não é feita com a intenção de 'amedrontar o público', mas educá-lo".
No fim de 1954, García Márquez publicou um resumo crítico do ano, por meio do qual é possível conhecer algumas de suas ideias sobre cinema. De uma maneira geral, ele não gostava de cinema norte-americano, mas elogiava as produções independentes dos Estados Unidos - O Selvagem, de Laslo Benedek, era visto "como o filme em que Marlon Brando desempenhou o papel mais denso de sua carreira", e O Diabo Riu por Último, de John Huston, como "a farsa mais divertida e mordaz daquele país". Era fã de cinema francês e elogiava os longas por sua "qualidade firme", sendo o melhor do ano Dieu a Besoin des Hommes ("Deus Precisa dos Homens", título sem lançamento no Brasil), de Jean Delannoy. Os melhores italianos daquele ano haviam sido os de Vittorio de Sica, como Milagre em Milão e Quando a Mulher Erra. Nesse panorama mundial, um brasileiro tem destaque: O Cangaceiro, de Lima Barreto, é considerado "um belo e duradouro poema primitivo", com uma "simplicidade capaz de transformar a matéria narrativa em pura substância lírica, mesmo em episódios tão brutais". Garcia Márquez escreveu ainda: "A sensação de que o futuro está no Brasil não desapareceu ainda naqueles que tiveram o privilégio de ver o magistral filme de Lima Barreto".
DOAÇÃO DO PRÊMIO NOBEL
Em sua atuação como roteirista, o diretor com quem melhor García Márquez trabalha é Ruy Guerra, moçambicano que vive há tempos no Brasil. "Ele me diz com franqueza o que tem a dizer. E eu também sou assim com o Ruy", conta. Juntos, trabalharam na série Me Alquilo para Soñar ("Me Alugo para Sonhar", 1992) e nos filmes Erêndira (1983) e A Bela Palomera (1988), todos adaptações de obras de García Márquez. O Veneno da Madrugada (2004) foi a única adaptação de García Márquez feita por Ruy Guerra da qual o escritor não participou. Quando viu o longa, Márquez chamou o amigo para dizer que seu livro havia sido destroçado, mas que Ruy tinha conseguido fazer algo magnífico. Depois disso, não conseguia lembrar-se do romance sem visualizar o filme.
Nos argumentos que não têm como ponto de partida seus livros, o interesse de García Márquez não foge ao seu universo literário, "histórias que testam os limites do verossímil". Uma vez, recebeu a proposta de um produtor que queria filmar um de seus livros e fez sua contraproposta: em vez disso, escreveria um roteiro, uma versão de Édipo Rei, na qual um prefeito de uma cidadezinha tenta acabar com a violência e descobre que ele é a causa da violência que pretende combater. Nesse projeto, trabalhou ao lado do brasileiro Orlando Senna e da cubana Stella Malagon. Os três discutiam quem informaria Creonte, irmão de Jocasta, mãe de Édipo, o que se passava na casa do rei - informações necessárias para que a história seguisse seu curso. Foi Márquez quem solucionou o problema e exclamou: o cavalo. Através do comportamento do animal, era possível perceber o que estava acontecendo. Estavam agora no campo do realismo mágico. "A sugestão do cavalo espião tinha a ver com a imagem do cavalo correndo, saindo de uma casa para chegar a outra. Era extremamente visual", relembra Orlando.
Anualmente e durante mais de 20 anos, o escritor ministrou uma oficina de roteiros na Escola Internacional de Cinema de San Antonio de Los Banõs, em Cuba (diga-se de passagem, García Márquez se empenhou para a fundação da escola, em 1986, doando, inclusive, o dinheiro que recebera com o Prêmio Nobel de Literatura.) Ali, durante uma semana, os alunos levavam ideias e, orientados por ele, tentavam transformá-las em uma estrutura coerente. Mais que ajudar os estudantes - com ensinamentos de que "uma história boa pode ser resumida em uma frase" e que "só podemos explorar outros caminhos quando já esgotamos a nossa experiência vital" -, a oficina introduzia o romancista em um universo de criação distinto do seu e que o fascinava: "Tornei-me um viciado no trabalho coletivo", disse. Durante uma das classes, um dos alunos o questionou se a peça teatral prevista em um roteiro seria clássica ou contemporânea. "Será do jeito que a gente quiser. Que coisa maravilhosa, poder inventar a vida!", respondeu o mestre.
Onde e Quando
Festival de Cinema Latino-Americano de São Paulo. De 11 a 17/7. Cinesesc (r. Augusta, 2075, Cerqueira César, São Paulo, SP) e outros cinco endereços. Mais informações: www.memorial.sp.gov.br
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