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8 de julho de 1978. Um incêndio destroi todos os trabalhos presentes em uma retrospectiva do uruguaio Joaquín Torres García (1874-1949) no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, além de outras peças de nomes como Picasso, Dalí e Magritte. A tragédia foi responsável por parte significativa da má reputação da salvaguarda e preservação de obras de arte no Brasil, ao lado de outros episódios lamentáveis, como o roubo de telas de Matisse e Monet, entre outros, nos Museus Castro Maya, em 2006, e de outro incêndio, desta vez queimando parte do acervo de Hélio Oiticica (1937-1980), em 2009.

Mais de 33 anos depois da perda de porção decisiva da obra do artista uruguaio no Rio, agora com o Brasil vivendo um momento efusivo no circuito das artes em âmbito internacional, novamente um conjunto importante de pinturas, desenhos, colagens, objetos e publicações de Torres García volta ao país para uma exposição. Joaquín Torres García – Geometria, Criação, Proporção segue até o dia 26 de fevereiro na Pinacoteca do Estado, em São Paulo, depois de ter passado pela Fundação Iberê Camargo, em Porto Alegre.

De certa forma, a mostra pode ser vista como um pedido de desculpas tardio do sistema de arte brasileiro à obra do uruguaio. Dois dos mais bonitos edifícios museológicos do país, construídos por laureados arquitetos - o português Álvaro Siza assina o projeto na capital gaúcha, enquanto Paulo Mendes da Rocha modernizou o prédio paulistano - sediam a individual, que apresenta de forma clara todas as fases da trajetória do artista.

No recorte elaborado pelos curadores Alejandro Diaz e Jimena Perera, contudo, a fase construtiva de Torres García é de longe a mais robusta, visível em especial pelos quadros pertencentes à coleção Patricia Phelps de Cisneros, de Nova York. Reunidas, as pinturas Estação (1932), Composição Construtiva 16 (1943) e Construtivo Linha Dupla (1932), por exemplo, são exemplares em dar uma dimensão adequada a tal momento poético do artista. “Tinha de ordenar esse mundo que, agora, parecia um caos”, destacou o uruguaio.

Especialista em óleos sobre cartão, Rua de Barcelona (1917), Nova York (1920) e O Porto de Barcelona (1919) são interessantes por atestar a habilidade do uruguaio em captar ritmos, velocidades e novos equipamentos urbanos e por exibir uma certa redução formal na sua trajetória. Colagens de jornais com intervenções feitas por ele em 1920 e 1921 também comprovam o interesse dele na rápida circulação que caracterizavam as metrópoles da época.

Obras de pequeno porte estão entre os bons achados da exposição, como Máscara com Olhos de Cortiça (1930), em que o material banal empregado em rolhas é central na composição da peça, e Construtivo com Varetas Sobrepostas (1930), no qual filetes de madeira dispostos em um plano ajudam a compor a estrutura construtiva do trabalho. Uma das paixões de Torres García, os brinquedos também estão presentes na mostra, como Cachorro (1922) e Ferroviário (1921-22). Curiosamente, a fábrica nova-iorquina que confeccionava os objetos também passou por um incêndio, em 1925, e, depois, o artista apenas realizaria artesanalmente essa produção. A habilidade na elaboração de peças de escalas diversas é outra qualidade que transparece nesse novo olhar sobre a obra do uruguaio.

 

Mario Gioia é jornalista, crítico de arte e curador independente.

A Exposição

Joaquín Torres García – Geometria, Criação, Proporção. Pinacoteca do Estado (Praça da Luz, 02, Luz, SP. tel. 0/++/11/3324-1000). Até dia 26 de fevereiro. De 3ª a dom., das 10h às 17h30. R$ 6,00 (grátis aos sábados).

Tags: Joaquín Torres Garcia, Pinacoteca do Estado, Joaquín Torres García – Geometria Criação Proporção,

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1 comentário(s)

  1. Uma das melhores revistas!Gosto muito.