Teatro e Dança
Sacha que Amava Sacha
Se você pegar uma pá e bater no peito de um homem na altura dos pulmões, as danças param. Os pulmões não dançam mais, o oxigênio não chega." Com essa pancada começa Oxigênio, novo espetáculo da Companhia Brasileira de Teatro, em cartaz no Rio de Janeiro. Quem descreve o golpe é Sacha, o protagonista, que assassina sua esposa justamente com uma pá porque se apaixonou por outra mulher, uma garota também chamada Sacha. O crime passional é o ponto de partida para a nova encenação do grupo curitibano, vencedor do 6º Prêmio BRAVO! Bradesco Prime de Cultura na categoria Melhor Espetáculo por sua última peça, Vida. Como em outros trabalhos, está presente a principal característica da trupe: "apropriar-se" de textos, em vez de apenas encená-los em moldes convencionais.
A criação de uma dramaturgia autônoma partiu dessa vez do autor russo, originário da Sibéria e inédito no Brasil, Ivan Viripaev. Kislorod, o título original, atraiu imenso público em sua montagem em 2003, em Moscou, e foi encenada em diversos países europeus, virou filme em 2008 e ganhou sua versão brasileira no ano passado. Mais do que outros textos levados ao palco pelo grupo, Oxigênio estimula no espectador a impressão de estar ouvindo falas "pessoais". Os embates entre os personagens não parecem restritos ao âmbito da ficção, revelando possivelmente o próprio processo de construção da peça. Sem enveredar pelo terreno do confessional, tomadas de posição inflamadas vêm à tona, seja na esfera da história de amor, seja no campo da política, quando são discutidos temas como imigração e terrorismo.
FALANDO ALTO
Há a nítida intenção de Marcio Abreu em quebrar com o tom tradicional de representação. Mas se por um lado o diretor consegue afastar os atores da impostação, por outro as falas são ditas em volume mais alto que o necessário - às vezes, com microfones e intercaladas por melodias de rock tocadas ao vivo nos dez "cantos" de que é formado o texto, inspirados em um provérbio bíblico. O ator Rodrigo Bolzan, o Sacha, se adapta melhor a esse tom contundente que Patrícia Kamis, a Sacha. Mas a atriz ganha força no ápice do conflito. Apresentada sobre um plano inclinado, que no fim da encenação revela uma concepção cenográfica surpreendente (a cargo de Fernando Marés), a peça integra uma vertente de montagens de menor porte da Cia. Brasileira - mas que revela mais um passo da jornada de um dos grupos brasileiros mais promissores em atividade.
DANIEL SCHENKER É jornalista e crítico de teatro.
Oxigênio, De Ivan Viripaev. Direção de Marcio Aberu. Com Patrícia Kamis e Rodrigo Bolzan. Mezanino do Espaço Sesc Copacabana (r. Domingos Ferreira, 160, RJ, tel 0++/21/2548-1088). De 12 a 29/5. 5ª e dom., às 20h; 6ª e sáb., às 21h30. De R$ 4 a R$ 16.
1 comentário(s)
Comentado em 07.05.2012 às 18:52 por Julya Avila:
Olá, Gostaria de saber se esse espetáculo estará realmente em cartaz nesse período no S, porque não acho em nenhum outro meio, qualquer divulgação. Quero muito assistir a performance que rendeu ao Rodrigo o prêmio de melhor ator. Parece um trabalho muito interessante. Ficarei grata pela ajuda. Desde de já agradeço.