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A verdade é que sempre odiei teatro. Dito isso, fica a dúvida: “Mas se odeia teatro, por que então topou o convite para escrever a nova peça do Teatro da Vertigem, a ser encenada a partir deste mês nas ruas do Bom Retiro, bairro da região central de São Paulo?” Como essa é uma pergunta que atravessará meu caminho, não custa antecipá-la aqui. Assim vou ganhando tempo para elaborar uma resposta que faça sentido. Não está excluída, claro, a possibilidade de uma mentira, embora não me convenha bancar o espertinho, pois a situação toda já sugere o limite de minha inteligência — afinal, aceitei o convite —, além de certa frivolidade de caráter.

Para piorar o quadro: ao ser convidado, eu sabia que o Vertigem, grupo paulistano fundado há duas décadas, monta suas criações em processo colaborativo com escritores. O método se baseia no diálogo e em improvisações para elaborar personagens e possíveis enredos. Também sabia que ao menos um dos escritores, Bernardo Carvalho, não gostou muito da experimentação em BR3, o espetáculo de 2006, encenado no rio Tietê. Minha resposta poderia apoiar-se em todos os clichês possíveis. Gosto de desafios. Será um aprendizado. Meus horizontes se ampliarão. Nenhum deles, porém, deixaria clara a verdade, que era a de que eu odiava teatro. Não odeio mais?

A origem dessa rejeição está em meu temperamento retraído. Falo pouco. Daí me dedicar a ler e a escrever. Na escola, sempre engolia respostas às provocações dos colegas que deviam ter sido dadas na bucha. Depois me arrependia e ia embora para casa chutando cascalho. Como então gostar dessa gente expansiva que prefere a coletividade ao isolamento? A balbúrdia ao silêncio? Ao aceitar o convite, o passo seguinte — em fevereiro de 2011 — foi me reunir com 15 pessoas (entre atores, assistentes de direção e técnicos), no Bom Retiro, para improvisos e conversas que ocupavam cinco horas diárias de segunda a sexta-feira. A intenção era identificar ambientes para a encenação e pesquisar temas por meio de jogos interpretativos. O laboratório se estendeu por três meses. Como pude?

Provocados pelo diretor Antônio Araújo, os envolvidos contribuíam com respostas cênicas, dramatúrgicas, físicas e metafísicas. A visita a uma oficina de costura clandestina com trabalhadores bolivianos provocou diversos esquetes e cenas que agora fazem parte da peça definitiva. Minha sensação era idêntica, suponho, à de ser torturado por capatazes sádicos. Participar de performances nas ruas repletas de judeus ortodoxos e comerciantes coreanos não me parecia só um mau retiro, mas também má ideia, e superava qualquer filme de terror asiático. Nada, porém, assustava mais do que conviver com atores. Enquanto isso acontecia, não me saía da cabeça um poema do costa-riquenho Luis Chaves: “Dos atores não surpreende/ a capacidade para fingir o pranto./ Digno de assombro/ é que finjam o riso”. Sou muito desconfiado.

Vergonha Alheia

Das 13 produções anteriores do Vertigem, eu assistira apenas ao Livro de Jó, encenada em 1998 num hospital abandonado de São Paulo. Para mim foi “a” experiência e, ao vê-la, meu preconceito em relação ao teatro começou a ser — agora constato — abalado. Então, ao aceitar o convite, eu saldava um débito com o grupo? De certo modo, sim – ainda que, depois disso, tenha passado por maus bocados como espectador, em geral devido à vergonha alheia que eu sentia. Segundo o cientista britânico Charles Darwin, pioneiro em tratar do assunto, sentimos vergonha em duas situações, e uma delas ocorre ao percebermos que nosso comportamento é condenado por inadequação. O mau ator teatral — não me refiro ao pessoal do Vertigem — é especialista em constranger os outros. E a mim, obviamente.

Em meio às “derivas situacionistas” propostas por Antônio Araújo – estratégia para explorarmos o bairro por meio de mecanismos deambulatórios, como seguir pessoas com saquinhos de supermercado até se perder na Cracolândia —, eu refletia sobre a principal distinção do projeto atual em relação aos anteriores. Se em Paraíso Perdido, O Livro de Jó e Apocalipse 1,11 os espaços públicos continham sólida simbologia social — respectivamente uma igreja, um hospital e uma penitenciária —, conduzindo o tema e indicando possibilidades de elaboração prévia por parte da plateia, as implicações do local que agora percorríamos eram de outra ordem.

Espécie de recorte metonímico da voracidade especulativa de São Paulo, o Bom Retiro é um palimpsesto de culturas migratórias que por ali se instalaram desde seu surgimento, no século 19, e cujas marcas esvaneceram, sobrepostas umas às outras como camadas de tinta na parede. Atualmente um shopping a céu aberto, sobrevoado por helicópteros, a área tem população decrescente e, nos intervalos entre fervilhantes expedientes comerciais, torna-se um bairro fantasma. Enquanto tentávamos criar personagens e situações, interessei-me principalmente pelo que acontecia ali enquanto nada acontecia, por fantasmagorias do “after hours”. Assim, fetiches por manequins, lixo, roupas e outros objetos que criam vida ganharam importância no universo de Bom Retiro 958 Metros – título que afinal escolhemos, não sem algum embate. Os 958 metros se referem ao espaço percorrido pelo público, inclusive dentro do Lombroso Fashion Mall, lugar tão horrível quanto o nome.

Depois do laboratório, tive três meses para desenvolver a primeira versão da dramaturgia. Enfim só? Que nada. Muito contraditoriamente, senti saudades da turma toda. Entreguei o texto em julho de 2011. Em menos de uma semana, se deu sua primeira leitura pública. Com plateia. E críticos. Toda essa gente que ama o teatro. Quase faleci de vergonha, dessa vez própria, não alheia. Acusaram o texto de ser longo, incompreensível e fragmentado demais. A peça vem sofrendo reelaborações desde então. Agora, às vésperas da estreia, encontra-se em sua oitava versão, cerca de 60% mais magra. Chegaremos lá? Beth Néspoli, crítica teatral que documentou o processo para seu doutorado, afirma que terei o texto definitivo só ao final de um mês em cartaz. Bem animador.

Não posso revelar muito além disso, pois prefiro — como o grupo — que o público tenha suas próprias impressões. Posso, entretanto, manifestar minha admiração pelo método criativo do Teatro da Vertigem por meio de um conto do alemão Heinrich von Kleist, Sobre o Teatro de Marionetes, que contém o diálogo do narrador com um bailarino acerca da dança. É um elogio da inocência perdida em tom de parábola. Dançarinos nunca alcançarão a graça das marionetes, “que dependem exclusivamente da gravidade e das leis mecânicas, enquanto o homem é desviado desse centro pela afetação”, afirma o tradutor Pedro Süssekind no posfácio à edição brasileira. “A afetação aparece quando a alma encontra-se em qualquer outro ponto que não seja o centro de gravidade do movimento”, escreve Kleist. Eis um resumo do método insano de Antônio Araújo: chegar ao osso do teatro em busca de seu equilíbrio gravitacional e da absoluta falta de afetação. Se não passei a amar o teatro, ao menos aprendi a respeitá-lo. Profundamente.

Joca Reiners Terron é escritor, autor dos romances Do Fundo do Poço Se Vê a Lua e Não Há Nada Lá e da novela gráfica Guia de Ruas Sem Saída, entre outros títulos.

 

A PEÇA

Bom Retiro 958 Metros. De Joca Reiners Terron. Concepção e direção geral de Antônio Araújo. R. Três Rios, 363, tel. 0++/11/3255-2713. Desde 7/6. 5ª, 6ª e sáb., às 21h; dom., às 19h. R$ 30. O espetáculo será cancelado em dias de chuva.

 

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