Música
A Tropicália segundo Tom Zé
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Foto Gabriel Rinaldi
Capa da edição de julho de BRAVO!
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Foto Gabriel RinaldiDa esq. para a dir., Rodrigo Amarante, Tom Zé, Mallu Magalhães e Emicida. De acordo com o cantor baiano, o tropicalismo é fruto do "lixo lógico" -
Foto Gabriel RinaldiO cantor em ensaio fotográfico exclusivo para BRAVO!
Entre, querido, e me dê logo um abraço! Fique à vontade. Há quanto tempo, não? Valha-me Nosso Senhor Jesus Cristo! Faz o quê? Dez anos? Quinze? Você não mudou nada. Mudou? Seus cabelos ganharam alguns fios brancos? Alguns, não – muitos? Pode ser, pode ser. Que importa? Minha barba também branqueou um pouco. Já meus cabelos continuam escuríssimos. Se os tinjo? De jeito maneira! Não preciso. Em minhas veias, corre sangue de negro, de mouro. Envelheço devagar. Mas me acompanhe, rapaz, quero lhe mostrar uns infográficos que preparei. São três no total. Está vendo? Os três bem coloridos. Vou encartá-los no meu novo disco, que planejo lançar em julho. Sim, lembram de leve o tal... Qual o nome do troço? Setenta e cinco anos nas costas, a memória me trai... PowerPoint, claro! Examine-os com calma, hein? Juntos, os três resumem a tese do álbum. Explicam o que é a creche tropical, a banca de preceptores-babás, o berçário dos analfatóteles, o elementarismo degenerado...
“Calma, Tom Zé! Assim você assusta o moço!”
Correto, correto. Neusa tem razão. Ela tem sempre razão. A gente se casou em... Quando foi mesmo, filhinha? 1970! Desde então, acordo todos os dias, viro para o lado e peço: “Atende, musa!” Nos Estados Unidos, a chamam de mrs. Zé, olhe só. Pois esqueça os gráficos com cara de PowerPoint. Primeiro, é melhor você ouvir o disco sem tomar conhecimento de tese nenhuma. Escute-o como um anjo, na mais pura inocência. Não vai demorar, não. Prometo. São 16 músicas. Coisa de 50 minutos. Tenha paciência, viu? Minha Virgem Maria, você ainda está de pé?! Tire a mochila, por misericórdia! Ô, Tom Zé, que falta de educação! Nem convidou o pobrezinho para sentar. Agora não adianta... Faça a gentileza de me seguir. Abandonemos a sala. Tchau, sala! Vamos ouvir o álbum em meu estúdio, num quarto aqui do lado. Acomode-se. Espere que vou ligar o som. Que tal o volume? Baixo demais?

“Filhinho, você está cogitando escutar o disco com o moço? Enlouqueceu?! O coitado precisa respirar. Sou a dona da casa, não sou? Então me deixe organizar essa bagunça. Você sai e volta somente quando o rapaz terminar de ouvir as canções.”
Acontece que o cidadão é da imprensa, Neusa! E a imprensa necessita de informações. Pensei em lhe fazer companhia para a eventualidade de surgir alguma dúvida... Não? Correto, correto. Eu me retiro. Gostaria apenas de falar mais duas besteirinhas: 1. Batizei o disco de Tropicália Lixo Lógico. 2. Pegue caneta e papel, seu Repórter! Um único papel não basta, não. Trate de arranjar uma batelada. Aposto que você terá milhares de indagações para anotar.
Escutou? E o que sentiu? Pergunte-me tudo. Pode apertar o velho. Transforme-se em advogado do diabo, me derrube do cavalo. Mas, antes, saia do estúdio. Quer agonizar de calor, homem? Retornemos à sala, que está mais fresquinha. Aproveito e vou tirando os sapatos. Uma delícia tagarelar só de meias. Experimente! E o estúdio, já conhecia? Que bobagem, Tom Zé! Como conheceria, se terminei de montá-lo agorinha, especialmente para gravar o disco novo? Chama-se Vale do Silício – o estúdio, óbvio, não o álbum. Neste apartamento, que pertence à mãe de Neusa, também funciona o meu escritório. Não, não. A sogra não mora aqui. Ela garante que, cedo ou tarde, vai morar. Caso se mude realmente, me jurou que não desmontará o estúdio. Diz que adora músicos... Eu vivo cinco andares acima, no décimo. Sou freguês de Perdizes, um dos melhores bairros de São Paulo. Ô, filhinha, quando chegamos à região?

“Há umas quatro décadas. Não se recorda?”
Que lero-lero, meu Santíssimo! Vamos nos concentrar no que interessa, não é? O disco novo. Veja: todo mundo trombeteia que o tropicalismo não existiria sem a influência do Oswald de Andrade, o poeta modernista. E do José Celso Martinez Corrêa, o diretor de teatro. E do Hélio Oiticica, o artista plástico. E do José Agrippino de Paula, o escritor. E dos Mutantes. E do rock internacional. E... Sempre me chateei com esse papo. Reza a lenda que a ostra fabrica a pérola apenas depois de uma pedra invadi-la. Compreendeu? Vou repetir: a pedra entra na ostra e a importuna de dia, de tarde e de noite. Uma aporrinhação dos diabos. A ostra, perturbada, acaba gerando a pérola como reação àquele incômodo. Considere que sou a ostra e que a pedra é a tal história de Oswald, Zé Celso, Oiticica, Agrippino... Eles exerceram, claro, um papel fundamental no tropicalismo. Mas alardear que o originaram? Comigo não, violão! Afirmações do gênero me pareciam incompletas. Uma facilitação, um engano, uma irresponsabilidade! Levei um tempão refletindo sobre o assunto. A ostra remoendo a pedra. Até que, uma hora, brotou a pérola. Descobri um negócio incrível: o tropicalismo – o movimento cultural que Caetano Veloso e Gilberto Gil, dois gênios da raça, capitanearam em 1967, 68 e 69 – nasceu do lixo lógico! Oswald, Zé Celso, Oiticica, Agrippino, Mutantes e o rock internacional desempenharam somente a função de gatilho disparador. O verdadeiro pai da criança é o lixo lógico! Ô, Neusa, espie a angústia do rapaz. Ficou perdidinho, o desvalido. “Eu tô te explicando/ pra te confundir./ Eu tô te confundindo/ pra te esclarecer.” Lembra-se da minha velha canção?
Pois bem, vou retomar o raciocínio por outro caminho: o tropicalismo botou guitarra na música brasileira e a fez dialogar com o que havia de mais revolucionário fora do país – com os Beatles, os Rolling Stones, o cinema francês, a cultura pop. Caetano e Gil lideraram, assim, a vertente cantada do pensamento que tirou o Brasil da Idade Média e o levou para a Segunda Revolução Industrial. Foram os nossos heróis civilizadores, os caras que ajudaram a enxertar na juventude o gosto pelo progresso, pela inovação.
“Filhinho, diga o que você entende por Segunda Revolução Industrial.”
Está nos livros, meu Deus! Não está? Desse jeito, o moço vai suspeitar que invento tudo, que arranco coelhos da cartola sem base teórica nenhuma. Mas correto, correto, talvez não esteja nos livros exatamente do modo como formulei... Segunda Revolução Industrial é a da publicidade, da televisão, do processamento de dados, da semiótica, da improbabilidade de Werner Heisenberg, o físico alemão.

“Não complica, Tom Zé!”
Sossega, filhinha, jornalista tem inteligência. Fisga as coisas rápido. Se bem que, quando trabalhei como repórter, não primava nem um pouco pela agilidade... Em 1959, arranjei emprego num jornal de Salvador, imagine. À época, vivia com meu tio Fernando Santana, um comunista roxo – ou melhor, vermelho, vermelhíssimo! Todos os meus tios, aliás, seguiam os mandamentos de Karl Marx: o Vicente, o Elias, o Pedro, a Vanda, a Luiza... Eu morava na capital da Bahia porque em minha cidadezinha, Irará, não havia ginásio. Então, antes dos 15 anos, saí de lá para estudar e, mais tarde, acabei arrumando o tal serviço de jornalista. Só que não conseguia acompanhar o ritmo frenético dos colegas. Era um repórter tímido, lerdo. Certa vez, às vésperas do Dia de Ação de Graças, me mandaram bater na porta do arcebispo. Fui, ainda que tropeçando em vergonha. “Boa tarde, seu Arcebispo, gostaria que o senhor desse uma palavrinha sobre o Dia de Ação de Graças.” A Excelência Reverendíssima pôs a mão em meu ombro e disparou: “Olhe, não há muito que agradecer”. Voltei correndo e aprontei a matéria. Mal leu aquilo, a turma da redação caiu na gargalhada: “Quá-quá-quá! Está se vendo que você é um Santana! O arcebispo afirmou que não há muito para agradecer?! Quá-quá-quá!”. Eles pensaram que forjei a declaração e não publicaram uma linha. Dentro do jornal, virei um comunista escrevedor de reportagens facciosas...
Mas, espere, qual a relação da tropicália com minha carreira meteórica na imprensa? Nenhuma! Deixei escapar o fio da meada outra vez... Como ia dizendo, por causa do tropicalismo, Gil e Caetano contribuíram para modernizar o país, mesmo nadando contra a corrente das esquerdas, que desejavam um Brasil eternamente bucólico, ninado pelas canções de Dorival Caymmi. “É doce morrer no mar/ Nas ondas verdes do mar.” Ocorre que nem Gil nem Caetano agiram sozinhos. Eu, Gal Costa, os poetas Torquato Neto e José Carlos Capinam, o artista gráfico Rogério Duarte e, de certa maneira, o Glauber Rocha aderimos às ideias dos dois e também participamos do movimento. Agora repare bem: de onde todos nós procedíamos? Do mato, do interior nordestino. O quê? Gal nasceu em Salvador? Veio do litoral, não do interior? Correto, correto, querido. Estou cometendo uns deslizes, fazendo umas generalizações poéticas... Erro nos detalhes e acerto no conjunto. O fato é que o pessoal do Sul, figuras com a magnitude de um Chico Buarque, um Edu Lobo e um Vinicius de Moraes, não chegava perto da tropicália. Tinha horror à nossa maneira de enxergar a sociedade. Não pescava nada daquela bagunça. Por quê? Responda! Seria mera coincidência? Eles, do Sul, e nós, do Nordeste? Creio que não... Estou convicto de que o lugar onde crescemos serviu de combustível para a explosão tropicalista. Um momento, repita a pergunta. Se tachei o Chico de vovô? Puxa, rapaz, não vou negar que realmente pratiquei uma heresia dessas... Durante um programa de televisão, no auge da rivalidade entre o tropicalismo e a MPB tradicional, me indagaram: “O que você pensa do Chico?” Preste atenção na sandice de minha resposta: “Eu o respeito muito. Afinal, o Chico é nosso avô”. Que infelicidade, Pai do céu! Provocar um camarada tão maravilhoso quanto o Chico... Um sujeito digno, de caráter, que respeita os outros... Não, não sei se ele ficou triste na ocasião.
“Só sabemos de um negócio: Chico nunca se aproximou da gente.”
Ô, minha filha, Chico não se aproxima de ninguém! O cabra preza a discrição. Convive apenas com os amigos do peito. De qualquer modo, não existem rusgas entre nós! Pelo contrário: sempre que nos avistamos, trocamos gentilezas. Chico é um lorde! Mas nasceu no Rio de Janeiro, e a tropicália soava esquisita para o povo do Sul. O motivo da estranheza? Os sulistas não dispunham do lixo lógico. Rodei, rodei e caí no danado de novo! Pareço um pião bêbado, né? Pois continue me acompanhando: quando Caetano, Gil e os demais tropicalistas éramos pequenos, imperava uma cultura nada aristotélica nas casas e nas ruas do interior nordestino. Você sabe: Aristóteles inaugurou a filosofia ocidental com... Me fugiram os nomes... Memória dos infernos! Neusa, meu amor, como se chamavam os intelectuais que perambulavam pela Grécia nos primórdios da filosofia?
“Sócrates, Platão...”
Correto, correto. Sócrates, Platão e Aristóteles construíram as bases do pensamento ocidental ou, se você preferir, os alicerces do racionalismo. Entretanto, no interior do Nordeste, consumíamos uma prosódia, um saber oral, uma visão de mundo que não advinha dos gregos, e sim dos árabes. Qual o espanto? Os árabes, inventores do zero e donos de uma arquitetura fantástica, de uma medicina sofisticadíssima, dominaram a península ibérica ao longo de séculos. Contaminaram, portanto, as ideias dos portugueses – sem mencionar que transaram com as mulheres deles. Vou mais além: transaram com as mulheres bonitas deles, com as perfumosas, as finas, as inteligentes. Se mandavam no terreiro, por que transariam com as horrorosas, as fedidas, as grosseironas, as idiotas? Paparam as beldades da península e geraram uma multidão de portuguesinhos árabes, que igualmente procriaram quando adultos. Conclusão? Sangue e imaginário mouros inundavam os lusitanos que colonizaram o interior nordestino. O quê? Também inundavam os gajos que colonizaram o Sul? Não banque o rigoroso, seu Jornalista! Não procure contradições em meu raciocínio.
O importante é que a meninada do Nordeste bebia daquele caldo não aristotélico até entrar na escola. Por isso, costumo dizer que a creche tropical acolhia uma porção de analfatóteles, os analfabetos em Aristóteles. Com 7 ou 8 anos, a garotada enveredava pelo colégio e, só então, tomava conhecimento da cultura ocidental. Calcule a surpresa, o fascínio. Descobrir os livros, as ciências e todo um palavreado diferente! Hipnotizadas por tamanho tesouro, as crianças jogavam fora o aprendizado anterior e deixavam que Aristóteles assumisse as rédeas em definitivo.
De onde extraí tantas premissas? Eu trabalho, seu Doutor! Leio à beça e, depois, junto os pauzinhos. Está achando que passo cheque sem fundo? Nunca! Quem avaliza meus cheques são os historiadores Pedro Taques e Nicolau Sevcenko, o folclorista Luís da Câmara Cascudo, o sociólogo Euclides da Cunha. Um batalhão de crânios, cujos estudos me norteiam. Mas, homem, não permita que eu divague novamente! Retomando: como frequentei muito divã, aprendi umas coisinhas sobre o cérebro. Sei, por exemplo, que nossa cabeça abriga o córtex e o hipotálamo. Tudo o que é desprezado pelo córtex – a camada cerebral mais externa, riquíssima em neurônios – migra para o hipotálamo. Nada desaparece, bicho! Nada! Já sacou aonde pretendo chegar? Aquilo que os meninos do Nordeste jogavam fora quando travavam contato com Aristóteles escapulia do córtex, se aninhava no hipotálamo e ali adormecia. Tornava-se lixo, só que um lixo dotado de lógica própria – a lógica dos árabes, do Oriente, do interiorzão. Um lixo lógico!

Na década de 1960, Caetano e Gil ouviram Beatles e Mutantes, leram Oswald e Agrippino, assistiram às peças de Zé Celso, conheceram as pirações de Oiticica e se incomodaram, como a ostra diante da pedra. Sentiram que um mar de inovações os convocava à luta e que a tal da MPB necessitava abraçar de vez a modernidade. Foi daí que o lixo lógico abandonou o hipotálamo deles e reinvadiu o córtex. Em outras palavras: os dois perceberam que tinham de resgatar o aprendizado do interior, a herança dos árabes, a tradição oral e uni-los à cultura pop do Ocidente, filha direta do pensamento aristotélico. Conseguiram, assim, engendrar um ser inteiramente original, a dona Tropicália.
Pronto, terminei. Não é impressionante a minha teoria? Como você pôde atestar lá no estúdio, o álbum novo mescla canções bastante festeiras, que discorrem sobre a tese, com outras também festeiras, que não abordam tese nenhuma. A produtora-executiva do trabalho, Milena Machado, me sugeriu convidar Mallu Magalhães, Rodrigo Amarante, Pélico e Emicida para participar do disco. Aproveitei a brecha e chamei ainda o Washington Carlos, cantor não profissional de Caruaru (PE), sobrinho de um conhecido que vende colchas numa feira perto de casa. A colaboração da molecada me trouxe imensa alegria. O quê? Ando excessivamente bonzinho? Passei a conversa inteira só tecendo loas à tropicália? Ô, Neusa, o moço resolveu me atiçar. Quer que eu desça a lenha em Deus e o mundo. Não tem problema. Bote o gravador mais perto de mim. Lá vai: tropicalismo, tu é feio! Tu é sem vergonha! Tu é descarado!
* Agradecimentos: Hotel Hilton, São Paulo Morumbi.
* Colaborou José Flávio Junior.
O DISCO:Tropicália Lixo Lógico (independente), de Tom Zé. Produtor: Daniel Maia. Patrocínio: Natura. Preço a definir.
“MANDE PARAR ESSA CARAVELA”
Num capítulo de Verdade Tropical, livro autobiográfico que lançou há 15 anos, Caetano Veloso descreve o dia em que Tom Zé trocou Salvador por São Paulo para participar do tropicalismo. Leia o trecho logo abaixo.
"[Em 1967], numa de minhas idas à Bahia — eu não passava mais de dois meses sem ir a Salvador — convidei Tom Zé para ir para São Paulo comigo. Tom Zé tinha sido nosso companheiro dos shows do Teatro Vila Velha. Quando comecei a frequentar os meios artísticos e boêmios de Salvador, ele já era uma figura conhecida dos estudantes universitários. Assim como Capinan — com quem, de resto, ele tinha colaborado em alguma peça do braço baiano do Centro Popular de Cultura (CPC) —, Tom Zé tinha prestígio entre os artistas que eu conhecia: as pintoras Sônia Castro e Lena Coelho, a dançarina Laís Salgado, os professores Paulo e Rena Faria, todos me falavam dele. Quando afinal nos conhecemos, ele me cativou pelo seu ar de sertanejo, por suas observações pseudomal-humoradas expressas num sotaque rural que mais realçava do que escondia a elegância clássica de seu português culto e correto. Seu físico de duende mameluco, de personagem de lenda cabocla confirmava sua condição de pessoa especial. Tom Zé tem uns olhos muito vivos, como que a provar que uma intensíssima concentração de energia é a razão de ele ser tão miúdo. Essas indicações de excepcionalidade eram em parte confirmadas por suas canções satíricas feitas em tom deliberadamente folclórico. Consistindo em longas crônicas da vida urbana de Salvador e em retratos de personagens típicos ou de exceção, essas composições de sua primeira fase mostravam-se a um tempo atraentes e insatisfatórias aparentemente pela mesma razão de não estarem em sintonia com os interesses estéticos da bossa nova. Sua inteligência e originalidade pessoal asseguravam que sua produção não fosse simplesmente antiquada. (...)
Inicialmente, no entanto, ele resistiu muito ao meu convite. Lembro-me de uma conversa nossa perto do Cine Guarany (atual Glauber Rocha), na praça Castro Alves, em que ele me dizia que a ideia era uma loucura. Eu e seu desejo profundo de assumir seu destino de músico o convencemos. A simples viagem de avião com Tom Zé de Salvador para São Paulo já deu o tom do que seria sua atuação. O Caravelle da Cruzeiro do Sul — aeronave cuja modernidade de linhas me encantava como um samba de [Tom] Jobim ou um prédio de [Oscar] Niemeyer —, voando em céu azul, parecia que ia explodir com a vibração da presença de Tom Zé. E isso chegou a exteriorizar-se até o conhecimento da aeromoça e quem sabe de outros passageiros. Não que ele se mostrasse nervoso por estar voando — embora sua ostentação de estranheza em relação a tudo o que se passava no avião indicasse (talvez enganosamente) que ele nunca tinha voado —, mas seu sotaque e suas expressões arcaicas pareciam agredir a realidade tecnológica da aviação e o conforto burguês dos “serviços” de consumo: ele estava me dizendo — e dizendo a si mesmo e ao mundo — que ia, sim, para São Paulo, mas que permaneceria irredutível quanto a certos princípios e certos traços de caráter. Ele lidava de modo inventivo — e bizarramente elegante — com o medo da mudança de situação. Referia-se ao avião em que estávamos como “essa caravela”, indicando intimidade e estranheza ao mesmo tempo, e, por trás dessa ironia, comentando o sentido de partida para outro continente que essa viagem tinha para ele.
Quando a aeromoça se aproximou para perguntar o que queríamos beber, ele respondeu cortantemente: 'Cachaça'. Havia humor na obviedade de seu conhecimento de que não deviam servir cachaça a bordo. Mas a sinceridade de seu ar desafiador — embora não impolido — levava a pensar em como era ridícula a pretensão de refinamento da freguesia desses serviços (não havia, por exemplo, uma só aeromoça preta em qualquer companhia de aviação brasileira) tornados amorfamente “internacionais”, e em como Tom Zé estava disposto a não contemporizar com isso. À esperada resposta da aeromoça — “Desculpe, não temos” — ele começou a desapertar o cinto de segurança e, fazendo menção de levantar-se, disse — dirigindo-se a mim, não a ela: 'Então eu vou-me embora. Mande parar essa caravela'.
A verdade com que essas palavras foram ditas assustou-nos, a mim e à moça, pois, embora soubéssemos impossível obedecer a tão absurda ordem, sentíamos, na determinação com que esta fora dada, que ela se imporia de alguma maneira. Claro que Tom Zé não criou um caso dentro do avião, mas tampouco desconcertou-se ou deixou seu movimento se retrair: ele, que parecera por um instante que ia sair dali custasse o que custasse, agora desistia educadamente irritado, como quem achasse inútil o gesto, mantendo total independência até o fim. Tudo isso sem que se perdesse o humor distanciado de quem diz ao mesmo tempo que tudo é uma brincadeira — e de quem sabe que tem charme."
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