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O cineasta canadense David Cronenberg e o ator inglês Robert Pattinson nos bastidores das filmagens. História adaptada do romance de Don DeLillo

O cineasta canadense David Cronenberg ficou conhecido por filmes repletos de cenas violentas e às vezes repugnantes, como A Mosca (1986), Gêmeos – Mórbida Semelhança (1988) e Senhores do Crime (2007). Ao vivo, porém, tem expressão amigável e fala mansa. Sua calma aparente contrastava com o turbilhão do Festival de Cannes, em maio, quando o diretor, de 69 anos, encontrou BRAVO! para esta entrevista.

Tomando um expresso descafeinado sob o guarda-sol de um hotel na Croisette, célebre rua onde acontecem as principais atividades do evento, ele conversou sobre seu mais recente longa-metragem, Cosmópolis, que estreia neste mês no Brasil. O filme, protagonizado por Robert Pattinson (da série Crepúsculo), trata de um bilionário que resolve atravessar Nova York em sua limusine para cortar o cabelo, num dia de trânsito caótico por causa de uma visita presidencial à cidade e protestos anticapitalistas. A história é adaptada do romance homônimo do norte-americano Don DeLillo, escrito em 2003 e considerado premonitório da crise em que os Estados Unidos e o mundo mergulhariam ao final da década.

 

BRAVO!: Quando você leu o livro, o que mais chamou sua atenção para a possibilidade de fazer dele um filme?

David Cronenberg: Os diálogos. Pensei que seria fantástico ouvir bons atores dizendo-os. Num primeiro momento, apenas transcrevi as falas do livro e as coloquei no formato de roteiro. Olhei para aquilo e pensei: “Isso é um filme ou não?” E achei que era.

 

Em termos de construção, trata-se de um filme difícil, justamente porque o protagonista fica quase todo o tempo numa única locação, a limusine.

Eu gosto do risco. O fato de ser tão confinado me atrai porque força você, como artista visual, a se tornar inventivo. O que você vai fazer dentro dessa limusine? Que câmeras e lentes vai usar? Essas eram questões excitantes. Para mim, isso é arte. Se você está fazendo um produto em Hollywood, é um jogo diferente. Se você se considera um artista, então quer impor um desafio a você e ao público. Era arriscado? Sim, e difícil de atrair financiamento.

 

O que a limusine representa?

O personagem criou um mundo para si mesmo dentro dela. Ele tem total controle do ambiente e, ao mesmo tempo, se isolou. É como se fosse uma prisão. É quase como um caixão, porque ele se desconecta da cidade, não a ouve, mal pode vê-la e força todos a virem até ele, seja para sexo, discussões, negócios. Gosto desse uso incomum do carro. Mas isso estava no romance de Don DeLillo, é invenção dele. Durante as filmagens, os caras do som ficaram nervosos: “Tem certeza de que não quer nenhum barulho da rua, da cidade?” E eu disse que não porque a ideia é justamente lidar com o isolamento da realidade. Então você pode ouvir tudo o que acontece dentro da limusine, mas nada de fora. E quando o protagonista sai do carro não sabe como se comportar, não sabe nem conversar com sua mulher. Ele diz a ela: “É assim que as pessoas conversam, não é?” E a resposta é: “E eu sei?” Porque ela é igual.

 

Por que você deixou de fora as falas do livro sobre o 11 de Setembro?

Há coisas que funcionam bem em literatura e são impossíveis de transformar em cinema. É por isso que, em tantos filmes, você tem alguém lendo o livro para você: porque o diretor falhou em encontrar uma maneira de transformar aquilo em cinema. Para mim, essa é uma admissão da sua falha enquanto cineasta. Coisas como o diário de Benno (personagem interpretado por Paul Giamatti) são pensamentos e não podem ser transformados em filme.

 

Você comentou que a escolha de Pattinson se deu depois de ver um de seus filmes independentes, Poucas Cinzas – Salvador Dalí (2008).

O papel de Dalí é incomum para um jovem ator, estranho e sexualmente ambíguo. Achei que havia ali alguém que leva o assunto a sério.

 

Você nunca teve medo de mostrar violência, mas em Cosmópolis as cenas são mais suaves.

Se você olhar quadro a quadro, não é bem assim... Sei que os fãs vão fazer isso. (risos) Eu não tenho uma teoria sobre a violência no cinema. Cada projeto diz o que precisa dizer. Estou trabalhando nesse filme, tentando fazer o roteiro ganhar vida e, no processo, meus outros filmes são irrelevantes. As pessoas perguntam sobre o Pattinson em Crepúsculo, e isso é irrelevante também. Paul Giamatti fez outros 100 filmes, e não me preocupo com eles.

 

Muitos dos seus longas problematizam a tecnologia e a transformação do corpo. Você vê um toque cronenberguiano na relação do protagonista com a limusine?

Eu não me preocupo com o tom cronenberguiano porque sou Cronenberg. (risos) Então ele vai sempre estar lá, quer eu queira, quer não. Nós, cineastas, estamos trabalhando com o corpo humano o tempo todo. O que nós fotografamos é o rosto, o corpo, esse é nosso material, numa ficção científica, num terror ou num drama. Você vê pela maneira como fotografo Pattinson: ele tem um rosto bonito, que muda muito de acordo com o ângulo, e eu uso isso. Ele é meu efeito especial.

 

A dúvida sobre o que é realidade na visão dos personagens está muito presente em sua obra. É algo consciente?

Todos os cineastas lidam com essa questão porque sabemos que criamos uma falsa realidade. Quando assistimos a um filme, sabemos que não é real. Escolhemos acreditar naquilo.

 

O longa, como o livro, tem muito a dizer sobre o capitalismo. Qual a sua visão sobre o tema?

Nos Estados Unidos, eles acham que o Canadá é um país socialista (risos) só porque temos sistema universal de saúde e algumas outras coisas que não existem na América. No Canadá, achamos que os seres humanos deveriam ao menos ser cuidados. Na comparação, consideramos a América muito cruel e brutal. Sinto que o capitalismo puro é um sistema ruim. Para mim é óbvio. Precisamos de equilíbrio. Tanto no livro quanto no filme, há essa crítica.

 

Pensava na crise quando começou a trabalhar no filme?

Quando comecei a trabalhar no longa, antes de Um Método Perigoso (2011), o livro não era uma profecia, sabe? Mas, na época em que começamos a rodar, o filme virou um documentário. Porque, quando estávamos filmando cenas de protestos anticapitalistas nas ruas de Nova York, líamos no jornal notícias sobre esses protestos. Estranhamente o filme se tornou uma discussão sobre o momento em que vivemos. Para mim, deveríamos ser capazes de lidar com dinheiro porque nós o inventamos. E, no entanto, ele é que nos controla. Se fosse otimista, e eu sou, diria que a crise é boa porque nos força a perceber que precisamos achar juntos uma solução.

 

Mas sempre haverá personagens como o seu protagonista, que vão se aproveitar da situação.

Aí está a questão: ele nem pensa que está explorando os outros. Ele é ingênuo, jovem, sabe como manipular o dinheiro, mas nem chega a tocá-lo. Nunca toca nada real, incluindo sua mulher. Ele mesmo ficaria surpreso ao ser descrito como um vilão capitalista. Nem tem consciência disso, o que é parte do problema. Muitas dessas pessoas são assim. Fizemos uma cena em que o protagonista é atingido por uma torta na cara e, uma semana depois, vimos Rupert Murdoch (empresário australiano de mídia que enfrenta acusações por suborno e escuta ilegal praticada por um de seus jornais) levar uma torta na cara. Acho que Murdoch acredita ser um cara legal. Ele não entendeu por que isso aconteceu.

 

Já sentiu vontade de acertar a cara de alguém com uma torta?

Sim. (risos) Nunca faria, pois é uma agressão física. Mas todos nós, em algum momento, ficamos irritados ao ver alguém destruindo uma companhia e a vida de muitas pessoas e ainda assim levando um bônus de 38 milhões de dólares no final do ano. Mesmo se você estiver indo bem, fica revoltado porque é bizarro.

 

 

O DIRETOR EM QUATRO TEMAS

Itens indissociáveis da obra de Cronenberg.

1 - Tecnologia: Na esteira de certa linhagem da ficção científica, o progresso é visto por Cronenberg sob uma perspectiva sombria. Em Videodrome (1983), um programa de TV a cabo causa alucinações e violência. Em Crash (1996), os carros criam nos personagens uma pulsão erótica e autodestrutiva.

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2 - Corpo:É o campo de batalha entre uma essência humana talvez idealizada e as máquinas que a ameaçam. Exemplares desse enredo que se repete com variações são o cientista transformado num inseto em A Mosca (1986) e o implante no cérebro que funde realidade e videogame em eXistenZ (1999).

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3 - Mente: Mote para histórias que embaralham certo e errado, realidade e ficção. O cérebro é menos visto como consciência do que aparato fisiológico – presa de dons e/ou doenças como a premonição (A Hora da Zona Morta, 1983) e a esquizofrenia (Spider, 2002).

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4 - Identidade:Outra reflexão derivada dos temas cronenberguianos: o que faz um indivíduo agir moral ou imoralmente? Há o livre-arbítrio ou ele é sempre vítima de forças maiores vindas da história ou de sua própria biologia? Perguntas que estão presentes em filmes como Gêmeos – Mórbida Semelhança (1988), Senhores do Crime (2007), Almoço Nu (1991) e Marcas da Violência (2005).

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Mariane Morisawa é jornalista.

 

 

OUSADIA REVERENTE

Cosmópolisacerta ao manter o tom algo surreal do romance de Don DeLillo

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Com a adaptação de livros difíceis no currículo, caso de Almoço Nu (William Burroughs) e Crash (J. G. Ballard), David Cronenberg enfrentou um desafio que parecia mais simples em Cosmópolis. A prosa minimalista do romance de Don DeLillo, forjada em diálogos diretos e descrições plásticas, em teoria ajuda o cineasta que procura trechos “externos” para tirar dali uma narrativa visual.

Mas é uma impressão enganosa. De todos os autores norte-americanos em atividade, DeLillo talvez seja o melhor criador de atmosferas, algo que num texto pode ser engendrado nas frestas de um estilo transparente, dialogando com a imaginação do leitor por meio de alusões e lacunas. A precisão pode não apontar para um centro, e sim para sensações periféricas moduladas por nuances de voz, tom, ritmo e melodia. “Preparação que ele adquiriu num deserto, setecentos anos antes de nascer”, diz um trecho do romance. “Ali havia uma história, um folclore denso de tempo e destino”, informa outro. Tente fazer isso aparecer na tela.

A dificuldade se estende a todos os elementos do filme, do cenário à composição psicológica. No romance, por exemplo, a limusine do protagonista Eric Packer (vivido por Robert Pattinson) é descrita de forma hiperbólica, o que faz algumas de suas caraterísticas mitificadas – como o tamanho – diluírem a claustrofobia de uma história quase toda passada em alguns metros quadrados. Na tela, temos apenas um carro: não há como um banco de três lugares, um frigobar ou um capô parecerem mais do que isso.

 

Moralista ambíguo

Algumas vezes, o impasse é mesmo insolúvel: a riqueza que esperaríamos de um bilionário como Packer – seus modos, suas roupas e seus aparelhos eletrônicos, tudo tão estranhamente descrito no livro – não escapa de uma caracterização comum, assim como as imagens dos protestos anticapitalistas, sem impacto para quem já cansou de vê-las em telejornais. Em outras, o diretor consegue soluções notáveis por meio de recursos bastante cinematográficos: o efeito do silêncio no interior do carro, o nonsense a sério do check up médico, o visual entre sonho e pesadelo da barbearia, a atuação tensa de Paul Giamatti.

Ao final, o saldo é mais positivo que negativo, o que em muito se deve ao registro – já existente no livro – um tanto surreal. Como DeLillo, Cronenberg é um tipo ambíguo de moralista, que desconfia do progresso e da tecnologia sem deixar de ter certo fascínio por ambos. Cosmópolis usa a aparente falta de lógica do sistema financeiro para voltar ao tema. E seu principal acerto é evitar tratá-lo de forma direta, como faria uma narrativa panfletária ou sem ousadia.

Michel Laubé escritor, autor do romance Diário da Queda, entre outros.

 

O filme:Cosmópolis, de David Cronenberg. Com Robert Pattinson, Paul Giamatti e Juliette Binoche. Estreia neste mês.

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