Cinema
Uma versão decaída de Bertolucci
Divulgação
Mulher e homem encontram-se por acaso nas ruas de Paris. Em poucas horas, transam em pé, encostados numa cerca. Dali em diante, quando não estão na cama discutem asperamente e dedicam-se à milenar arte de destruição recíproca.
Sim, caro leitor, você já viu esse filme. E eu também. Por isso, fica difícil não enxergar em Amor e Dor uma versão decaída de O Último Tango em Paris. Com o agravante de o diretor chinês Lou Ye não ser exatamente um Bertolucci e, desnecessário dizer, o par formado pela chinesa Corinne Yam (Hua) e pelo francês Tahar Rahim (Mathieu) não lembrar, em nenhum aspecto, Maria Schneider e Marlon Brando.
Proibido de filmar em seu país desde o lançamento, em 2006, de Palácio de Verão, Lou Ye escolheu como parceiro de sua estreia no Ocidente outro perseguido pelo regime chinês, o escritor Jie Liu-Falin, autor de Bitch (“Vagabunda”, numa tradução mais polida), romance no qual o filme se baseia. A ideia de exílio multiplica-se, assim, além da trama envolvendo uma tradutora chinesa que, abandonada por um namorado francês, engata o romance tórrido com um operário de origem árabe que pratica pequenos delitos.
Falta substância e sobra pretensão
Tudo em Amor e Dor é cuidadosamente pensado para causar desconforto – o que acaba acontecendo, mas não necessariamente pelos melhores motivos. A fotografia é suja, a montagem nervosa e os protagonistas irritantes por sua simplificação: Mathieu é ostensivamente machista e chantagista, chora que nem criança e acredita candidamente que mulher não presta; Hua, a chinesa, é dissimuladamente manipuladora e tem o misterioso dom de encantar os homens que dela se aproximam.
O que falta à trama em substância sobra em pretensão. Pois é evidente que diretor e roteirista querem imprimir conotações políticas e filosóficas aos desencontros do casal. Além das óbvias referências à situação da China – em dado momento Hua volta ao país para servir de intérprete a um documentário sobre democratização – o filme roça na marginalização dos imigrantes na França, didatizada quando se descobre que Mathieu é casado com uma mulher de Ruanda sob o pretexto de mantê-la legalmente no país.
Amor e Dor parece estar, o tempo todo, insurgindo-se contra algo que não fica bem claro ou definido. Lou Ye tem, é claro, motivos de sobra para conceber o cinema como uma forma de enfrentamento político. Mas todos sabemos que nunca se fez filme para valer com uma ideia na cabeça e uma câmera na mão – ainda mais quando a ideia não é clara e a câmera, hesitante.
PAULO ROBERTO PIRES é jornalista e escritor, autor dos romances Do Amor Ausente e Se um de Nós Dois Morrer.
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