Revista

A A A
desconhecido (legado)
144_li_critica_3

Leia um capítulo do livro "O Imitador de Vozes", de Thomas Bernhard

No dia 31 de maio de 2009, a italiana Johanna Ganthaler perdeu o voo 447 da Air France que, partindo do Brasil em direção à França, desapareceria no Atlântico na mesma madrugada, deixando 228 mortos. Alguns dias depois do desastre aéreo, entretanto, Johanna morreu num acidente automobilístico em Kufstein, na Áustria. Essas fatalidades não teriam — em tese — quase nada a ver com O Imitador de Vozes, livro de relatos de Thomas Bernhard (1931-1989). Mas, incrivelmente, têm.

O paralelo inicial não passa de coincidência e é bastante óbvio: Bernhard nasceu na Holanda, porém toda a sua obra é austríaca tanto na problematização histórica quanto na confrontação política. Já a semelhança seguinte é mais fortuita: as narrativas de O Imitador de Vozes tratam quase todas de mortes, suicídios ou incidentes que decorrem de acasos e de paradoxos e, assim como o parágrafo de abertura deste texto, tiveram origem em notícias de jornal ou em fontes autobiográficas.

Explorando sua experiência de repórter na juventude, Bernhard demonstra nessa recolha de 1978, só agora lançada no Brasil, a oficina de origem de seu texto, o jornalismo. O estilo preciso e quase frio é o mesmo de seus romances mais notórios, mas sem o coloquialismo dos monólogos que sustentam sua pentalogia autobiográfica iniciada com A Origem ou da obra-prima Extinção, por exemplo. Outra característica de O Imitador de Vozes é a extrema economia de meios nos 104 relatos que não raro ultrapassam uma página.

Os temas são os usuais da dramaturgia ou dos romances de Bernhard: o flagelo da má consciência austríaca e suas tentativas hipócritas de obliterar o passado nazista; o desinteresse contemporâneo diante dos verdadeiros personagens da cultura (artistas, escritores e cientistas) contraposto à "cultura" de fachada vienense, como constata a poeta de Em Roma: "estava constantemente em fuga e sempre viu nos seres humanos o que são na realidade: a massa obtusa, inane, inescrupulosa, com a qual só resta de fato romper". Um alter ego do autor?

É bem conhecida a influência do pensamento de Pascal na obra de Thomas Bernhard. Em O Imitador de Vozes, é possível identificar outra voz insuspeitada, a do luterano Johann Peter Hebel e suas historietas de almanaque do século 18. As fábulas morais de Bernhard, entretanto, ao contrário da intenção edificante encontrada nas de Hebel, quase sempre trazem uma pulsão demolidora. Em sua secura narrativa, essas pequenas histórias parecem dizer o tempo todo que a única lei vigente na natureza é a morte.

Joca Reiners Terron é escritor, autor de Sonho Interrompido por Guilhotina, entre outros.

O LIVROO Imitador de Vozes, de Thomas Bernhard. Tradução de Sergio Tellaroli. Companhia das Letras, preço a definir.

Tags: O Imitador de Vozes, Thomas Bernhard,

Comente

Nenhum comentário