Revista

A A A

Até dia 13 de junho, o Museu de Arte Moderna de São Paulo exibe uma retrospectiva com obras de Flávio de Carvalho. O fluminense que viveu no auge do modernismo no Brasil, aventurava-se em projetos de arquitetura, ensaios sobre moda, cenários para teatro e pinturas, criações de design e performances. Um de seus trabalhos mais ousados foi a denominada Experiência nº2, quando, numa tarde de junho de 1931, durante uma procissão de Corpus Christi, andou no sentido contrário ao da multidão com um boné verde na cabeça, algo que, na época, era considerado um total desrespeito à religião. BRAVO! convidou o artista e cineasta mineiro Cao Guimarães para refazer a experiência de Flávio de Carvalho. Ele percorreu uma procissão em uma sexta-feira da Paixão, na cidade histórica de Mariana, em Minas Gerais. Confira o vídeo e o texto assinados por Cao Guimarães sobre a performance, também registrada em foto por Pedro Motta.

Quando, em 1931, Flávio de Carvalho colocou um boné de veludo verde na cabeça para enfrentar uma procissão de Corpus-Christi em São Paulo, procurava investigar por meio da provocação as possíveis reações da multidão. Nasceu dessa atitude um interessante estudo antropológico e etnológico chamado Experiência nº 2 - Uma Possível Teoria e Uma Experiência (Nau Editora, 152 págs.). Ao ser convidado por BRAVO! para repetir a ação quase 80 anos depois (dessa vez em Mariana, Minas Gerais, e numa sexta-feira da Paixão), vivi uma experiência bem menos radical. O efeito do uso do chapéu sobre a multidão foi nulo, tendo os costumes mudado bastante durante esse período (pude até observar pelo menos mais dez pessoas também vestindo chapéus ou bonés ao longo da cerimônia). Mas, para além dessa primeira proposição, o que mais me impactou nessa experiência foi a vertiginosa sensação de "furar" uma procissão no seu contra-fluxo. Longe de uma tese a esse respeito, o que tirei da oportunidade foi a chance de fazer uma homenagem ao artista.

A procissão começa a se formar na praça entre as duas igrejas. Seus elementos dispersos deslocam-se lentamente na direção de uma pequena ruela. A inicial forma amebóide da massa de gente milagrosamente vai se transformando em uma imensa lagarta. Do alto da ruela ouço a respiração compassada do monstro vindo em minha direção. Penso na entidade Flávio de Carvalho, ponho o chapéu de feltro na cabeça e me preparo para enfrentar a fera.

São oito horas da noite e uma leve chuva começa a cair. Guarda-chuvas e sombrinhas se abrindo como ouriçados pêlos de lagarta. Ela caminha devagar subindo a estreita rua de paralelepípedos. Duas fileiras de gente nas laterais sobre os passeios protegem suas entranhas do tempo e do espaço. No coração desta centopéia que atravessa os séculos vela-se e venera-se um defunto há quase dois milênios.

Penetro-a pela boca, por baixo de seu nariz em forma de cruz. Sinto seu hálito de lavanda pós-banho de freirinhas em êxtase. Sua língua apresuntada me enrola como um pedaço de melão preparando-me para ser espetado pela lança de um soldado de Pilatos.

Avanço solitário e na contramão até a medula da grande minhoca. Anjos começam a me sobrevoar. Deliro! O chão treme perto das artérias que me levam até o coração. Ali jaz o ser adorado. Levam-no morto para que ressuscite. A multidão está de luto. Os cânticos são tristes, as cabeças estão baixas. Anteparos de plástico protegem as velas contra o vento frio de um mundo sem Cristo. Todos estão mortos ("uma procissão em movimento é uma massa de crentes que aspiram se nivelar ao Cristo... exultação narcisista de se ver igual ao Cristo"1).

No contra-fluxo do cortejo de defuntos não me sinto mais vivo que eles. Na caixa toráxica do ser rastejante, estágio larval dos insetos, sinto a condensação da dor dos séculos, ouço o uivo dos lobos da manjedoura, os sinos dos templos de areia de Canaã. Apesar disso não grito, faço cara de sátiro, danço esse silêncio tumular. Um exército de leucócitos de batina me fulmina com o olhar. Apresso o passo na direção da música que vem do aparelho digestivo. Uma bandinha no melhor estilo "interior de Minas" lança jatos de bílis musical gaseificando a atmosfera de certa alegria contida (nos melhores velórios a música prenuncia a ressurreição do defunto). Delicio-me com o corte das fardas azul e branco dos arcanjos instrumentistas e com a "cola" das partituras pregadas no dorso do paletó. Salto por dentro de uma tuba e caio em posição genuflexal na altura da genitália da lepidóptera. A seda episcopal latejante avoluma-se cobrindo a grande manta de carne inerte sobre a pedra. O gozo da fé é silencioso e misteriosamente compartilhado.

Furo a Forma. Defloro-a! Sinto jatos de estalactite massageando-me as costas. Tremores tectônicos desconectam-me os pés. Caio. Fecho os olhos. Petrifico. Passam anos. Abro mares em sonhos. Corro entre paredes de água e acordo na cauda da lagarta.

Na cauda da lagarta reencontro, doce, a realidade. Gente feita de gente. Gente que foi ali pra namorar. Em cada rosto um pote de doce em calda: figo, goiaba, casca de laranja, doce-de-leite, ambrosia, marmelada, baba-de-moça, espera-marido, pecado-de-anjo, quindim. Suspiro fundo e me lanço no escorregador intestinal tornando-me enfim uma espécie de gás liberto no espaço. Um salto no abismo e o chapéu de Carvalho perdido no chão.

1Flávio de Carvalho ("Experiência N2 - uma possível teoria e uma experiência")

Assista ao video gravado durante a experiência:

Flávio de CarvalhoMuseu de Arte Moderna de São Paulo

Parque do Ibirapuera, portão 3 - São Paulo, SP

Tel. 0XX/11/5085-1300

Até 13 de junho

De 3ª a dom., das 10h às 18h.

R$ 5,50.

Tags: Viagem ao Interior de uma Lagarta,

Comente

Nenhum comentário