Literatura
Vila-Matas vira o Jogo
Demorou. Foi, se não na prorrogação, ao menos no segundo tempo (63 anos, 20 títulos traduzidos para 29 idiomas). Enrique Vila-Matas finalmente refutou o provérbio de que santo de casa não faz milagre. Reverenciada na América hispânica, sua obra continuava longe da unanimidade em sua Espanha natal. Mas o novo livro do autor, Ar de Dylan, acaba de virar o jogo. Para Vila-Matas, estar em casa não será mais uma roubada.
Por que a birra dos conterrâneos? Uma boa parte da crítica espanhola o reduzia a um malabarista pós-moderno, obcecado com firulas narrativas, incapaz de servir o feijão com arroz: uma fabulação realista, conflitos convincentes e personagens tridimensionais. Segundo tal perspectiva, ele escamotearia sua inépcia enchendo linguiça com citações culturalistas e gracinhas metaliterárias. Suas obras seriam eruditas, mas privadas de seiva e emoção. Enfim, um contador de histórias sem histórias para contar.
Vila-Matas é o primeiro a confessar seus “crimes”, invocando legítima defesa contra o mais do mesmo. Sim, sua obra fervilha de referências literárias. Basta ver os títulos – Batlerby e Companhia (alusão a Herman Melville), Dublinesca (pegadinha para James Joyce), História Abreviada da Literatura Portátil. Batlerby e Companhia se constitui de 86 notas de rodapé que comentam um texto invisível sobre um escritor que não escreve. Em O Mal de Montano, há um dicionário de autores que influenciaram o narrador. O tema recorrente de Vila-Matas é a porosidade das fronteiras entre literatura e vida, num mundo que questiona de modo cada vez mais impertinente a própria necessidade da literatura.
Congresso sobre o fracasso
Nem apologia nem retratação, Ar de Dylan traz novidades que desarmaram a chiadeira na Espanha. O narrador é um escritor que renunciou à escrita, mas participará de um congresso literário sobre o fracasso, outro assunto ubíquo na obra de Vila-Matas, que faz do revés uma proficiência. Lá, ele conhece o jovem Vilnius, que apresentará um relato sobre seu pai, um autor já falecido, comparado pelo filho ao músico Bob Dylan. Epa! Parece que já vimos esse filme... Vila-Matas em piloto automático, com os proverbiais quebra-cabeças bibliográficos? Nem pensar. Desta vez, ele parodia não apenas as queixas de seus críticos, mas também seus próprios dilemas e até a encruzilhada na qual a literatura contemporânea vacila. A astúcia é contrastar a inoperância criativa de Vilnius com a fecundidade antiquada do escritor veterano. Não que Vila-Matas subscreva esse último e rife o primeiro. A conclusão mordaz é a de que a literatura, por mais rarefeita que se torne, continuará ambígua. De preferência, para sempre.
Paulo Nogueira é escritor e jornalista, autor do romance O Suicida Feliz, entre outros.
O LIVRO
Ar de Dylan, de Enrique Vila-Matas. Tradução de José Rubens Siqueira. Editora Cosac Naify, 320 págs., R$ 59.
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