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Ronaldo Aguiar
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Da esq. para a dir., as atrizes Clarissa Rockenbach, Luciana Brites e Silvia Lourenço. Montagem conserva sonhos e traumas das protagonistas

As almas das garotas que protagonizam aquele que é considerado por muitos o mais importante romance da escritora Lygia Fagundes Telles, As Meninas, retornam na adaptação teatral de Maria Adelaide Amaral, em montagem de Yara de Novaes. Escrito em 1973, o livro apresenta os conflitos internos e externos de Lorena, Lia e Ana Clara, três amigas universitárias que vivem em um pensionato em uma São Paulo transformada pela violência e opressão da ditadura militar.

A guerrilheira Lia representa a juventude engajada. É idealista, milita pelo direito de liberdade, sonhando em reencontrar o namorado, um preso político. Ana Clara, modelo e dependente química, acredita precisar de um casamento rico para libertar-se das drogas e do pavor da miséria. Já a romântica Lorena comporta-se de modo alheio à realidade, iludida com sonhos impossíveis.

Na adaptação, Maria Adelaide encontra a síntese necessária para a arte teatral: sua transposição suprime o narrador, elimina monólogos e agrupa personagens. Mas a montagem conserva sonhos e traumas das protagonistas, sem abrir mão da riqueza de detalhes com que Lygia faz, a partir do universo feminino dessas jovens, o retrato de uma época sufocante.

A encenação realista de Yara de Novaes serve bem ao texto, centrando-se nos diálogos e em ações cotidianas. O elenco é afinado. Clarissa Rockenbach, Silvia Lourenço e Luciana Brites interpretam (respectivamente) Lorena, Lia e Ana Clara com graça e vitalidade. Mas quem se destaca mesmo é Clarisse Abujamra, na pele da personagem secundária Mãezinha.

Mais abstrato do que o texto ou a direção, o cenário de André Cortez dá versatilidade à montagem. Grande parte das cenas acontece sobre um quadrado branco central, delimitado por cadeiras e outros poucos objetos igualmente brancos, como uma luminária e uma mesa lateral. O espaço simboliza o quarto de Lorena, o ponto de encontro entre as meninas, um oásis em meio às ameaças externas, representadas por duas fileiras de cadeiras negras nas laterais do palco.

Sem ousadias, mas com competência e integridade, o espetáculo ressuscita de modo fidedigno a história de um dos maiores romances da literatura brasileira — que, quando finalizado, provocou lágrimas em Lygia, separada então de meninas com as quais tinha feito uma rara conexão. Tem ela, agora, uma ótima oportunidade para matar as saudades.

Gabriela Mellão é jornalista e dramaturga, autora da peça Parasita, entre outras.

A PEÇAAs Meninas. De Lygia Fagundes Telles, adaptada por Maria Adelaide Amaral. Direção de Yara Novaes. Com Silvia Lourenço, Luciana Brites, Clarissa Rockenbach, Clarisse Abujamra e outros. Teatro Eva Herz, da Livraria Cultura (av. Paulista, 2.073, São Paulo, tel. 0++/11/3170-4059). Sáb., às 21h, e dom., às 18h. Até 13/12. R$ 40.

Tags: A Volta das Meninas - Maria Adelaide Amaral Crítica,

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