Teatro e Dança
De Volta da Vertigem
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Foto Paula PerrierO CAMINHO DE RETORNO Mariana Lima no cenário de Pterodátilos. Para viver uma alcoólatra viciada em remédios, ela não precisou tomar todas as doses de uísque e pílulas ingeridas pela personagem. -
Lenise pinheiro/folhapressO CAMINHO DE IDA Mariana Lima como a prostituta soropositiva de Apocalipse 1,11. Ao interpretar peças em ambientes naturalmente sujos, a atriz contraiu uma alergia crônica, que deixava seus pés em carne viva.
Grace e Mariana são mães de família. Grace mora nos Estados Unidos, tem cerca de 50 anos, já fez várias plásticas e, entre uma dose de anfetamina e outra de uísque, esperneia ao celular, tropeça e dá conselhos para que sua filha adolescente tenha muitas relações sexuais. Mariana mora no Brasil, tem 38 anos, acorda cedo, faz exercícios e cuida carinhosamente de suas duas filhas. Aparentemente, uma não tem nada a ver com a outra. Mas, no palco do Teatro Faap, em São Paulo, as duas viram uma só. Pela interpretação da dona de casa alcoólatra na peça Pterodátilos, de autoria do norte-americano Nick Silver e dirigida por Felipe Hirsch, a atriz Mariana Lima ganhou o Prêmio Shell de 2010 na categoria melhor atriz (também foram laureados o ator Marco Nanini e a cenógrafa Daniela Thomas).
Em se tratando de teatro, pode parecer óbvio que a atriz só vire a personagem no palco, e não fora dele. Mas não é, no caso de Mariana, que ao longo de sua carreira trabalhou em grupos que exigiram imersão intensa nos papéis. Embora tal método rendesse bons frutos do ponto de vista do teatro, trouxe danos à saúde física e mental de Mariana. A experiência mais marcante que viveu foi ao longo dos sete anos em que integrou o grupo Teatro da Vertigem, fundado e dirigido por Antonio Araújo. "Eu estava desestabilizada, mas crescendo como atriz. O Antonio leva o ator aonde ele quiser. O problema é voltar", diz Mariana.
Sua primeira peça na companhia de Araújo foi O Livro de Jó, em que ela foi a esposa do protagonista vivido por Matheus Nachtergaele. Na concepção do diretor, a construção dos personagens e da própria dramaturgia dependia de "vivências", ou seja, pesquisas e improvisações dos atores. As experiências seriam o início da fase de desestabilização da atriz. Em determinada noite, Mariana e Matheus percorreram os cinco andares vazios e escuros do Hospital Umberto Primo, em São Paulo, local onde a peça era encenada, em uma improvisação que se utilizava do butô, técnica de dança criada pelo japonês Kazuo Ohno. Às 3 da manhã, Mariana se viu sobre uma cama hospitalar, em um trabalho de parto que, apesar de simbólico, parecia assombrosamente real. Quando o "filho" nasceu, Matheus o jogou escada abaixo. "Eu chorava e gritava: 'Meu filho! Meu filho!'", lembra Mariana. A preparação para o começo da peça incluía visitas às UTIs infantis dos hospitais em que se apresentava, onde ela entoava cânticos fúnebres entre bercinhos. Foram quatro anos de temporada e viagens internacionais, sempre em hospitais, em contato direto com a doença e a morte.
Em seguida viria Apocalipse 1,11, uma leitura de Araújo e do escritor Fernando Bonassi sobre o último livro da Bíblia, que estreou em São Paulo em 2000. A peça se debruçava sobre a experiência de João, um retirante nordestino que chega à cidade que reúne todos os pecados e vícios, Babilônia. Mariana interpretava uma prostituta soropositiva. Para absorver a nova atmosfera, foi colher impressões no submundo paulistano. Passou sete horas em uma delegacia no Pari, na zona leste de São Paulo, onde viu mães desesperadas atrás de seus filhos e dezenas de feridos de bala. Outra vivência aconteceu na Penitenciária do Carandiru, em São Paulo, onde ela e o ator Roberto Audio, que interpretava a Besta do apocalipse, conviveram por quatro meses com os presos. Entravam escoltados pelo carcereiro e, certa vez, viveram um começo de rebelião no presídio. Mariana fez também uma ronda nos prostíbulos mais barra pesada de São Paulo. Viu mulheres serem praticamente estupradas, fazendo sexo com muitos homens ao mesmo tempo. "É claro que isso me afetou muito. Uma mulher da classe média paulistana que tinha contato com essas realidades apenas por meio da literatura ou do jornalismo", diz Mariana.
Ratos e camisa de força
Com improvisações baseadas nas experiências foi urdido o espetáculo, que levou Mariana a situações-limite. Em um dos momentos de Apocalipse 1,11, ela cheirava um pó que simulava cocaína - uma mistura com polvilho que a deixava com o nariz congestionado - e ficava nua. No violento julgamento de sua personagem, era submetida a jatos de água de mangueira de bombeiro, amarrada em camisa de força e agredida. Caía, batia a cabeça, ficava estendida em poças. O juiz, interpretado por Sergio Siviero, urinava sobre seus pés. A peça acontecia em prisões, ambientes naturalmente sujos, e com policiais de verdade que cruzavam as cenas. Na ausência de camarins, o banho foi compartilhado com ratos. Isso desencadeou uma alergia crônica na atriz, que ficava com os pés em carne viva. O auge aconteceu no Rio de Janeiro, no depósito de armas e entorpecentes do Departamento de Ordem e Política Social, o Dops, onde se passava a peça. "Era um lugar muito, muito sujo. Eu fiquei doente, acabada. Era um trapo humano", lembra.
A experiência foi psicologicamente brutal. Ela reforça que nada era imposto: estavam todos os atores dispostos a mergulhar o mais fundo que conseguissem. "Eu queria ter disposição para me aniquilar e começar tudo outra vez. Mas eu não tinha tanta estrutura assim. Talvez ninguém tenha." A relação de profundo amor e companheirismo com Araújo e o grupo foi interrompida passionalmente - como em uma separação litigiosa, com drama, berros e promessas de nunca mais encontrar (ela e Tó, apelido do diretor, são hoje amigos próximos). Na época, ela já estava namorando seu atual marido, Enrique Diaz, o Kike, que conhecera durante as filmagens do longa Kenoma, de Eliane Caffé. Mariana diz, brincando, que se separou do Vertigem para se casar com Enrique.
O "plano saúde" para sair do buraco em que se meteu combinava remédios, análise, trabalhos com outros profissionais em outros meios (fez novelas e cinema, além de teatro) e Kike, que na "reabilitação" de Mariana foi de importância fundamental não apenas como companheiro na vida pessoal mas também como diretor. Ele conduziu a atriz na construção do elogiado monólogo A Paixão Segundo G.H., baseado no romance homônimo de Clarice Lispector, em um trabalho "profundo e muito delicado", como define Mariana. A partir daí, ela aprendeu a criar uma distância segura entre atriz e personagem: "É o tal distanciamento brechtiano, o procedimento altamente sofisticado de dar um passo atrás e conseguir dizer: 'Essa é a personagem, essa é a atriz'.", diz Mariana.
Claro que as experiências que viveu anteriormente ajudaram na composição da personagem Grace, de Pterodátilos. "Ela não tinha um mês e meio de preparação. Ela estava se preparando havia mais de 20 anos", diz o diretor Felipe Hirsch. Mas a atriz não precisou tomar todas as pílulas e garrafas de uísque que sua personagem consome. Em vez disso, para compor o personagem, passou a observar as Graces que estão entre nós - como uma senhora que encontrou na sala de espera de um consultório, com seu jeito próprio de segurar a bolsa e andar. Depois de emergir da vertigem, Mariana vê a sua arte de um jeito diferente. Ela resume: "A dedicação que eu tenho pelo meu trabalho tem a ver com amor. Eu aprendi um novo jeito de amar. Uma coisa é amar e se jogar numa pira de fogo pelo seu amante. Outra é amar e construir alguma coisa com ele".
MANOELA SAWITZKI é jornalista e escritora, autora de Suíte Dama da Noite, entre outros.
ONDE E QUANDO
Pterodátilos. De Nicky Silver. Direção de Felipe Hirsch. Com Marco Nanini, Mariana Lima, Álamo Facó e Felipe Abib. Teatro Faap (R. Alagoas, 903, SP, tel., 0/++11/3662-7233). 6ª, às 21h300; sáb., às 21h; dom., às 18h. Até dia 29. De R$ 60 a R$ 80.
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