Música
Wilson das Neves - Com o Ritmo na Voz
O baterista, compositor e cantor Wilson das Neves, 64 anos, está em plena forma e esbanja suingue em Pra Gente Fazer Mais Um Samba. O disco reúne um grupo de instrumentistas de primeira linha para dar sequência à sua tardia, porém brilhante, carreira de cantor, que começou em 1996, com o CD O Som Sagrado de Wilson das Neves, e avançou em 2004, com Brasão de Orfeu.
Na faixa título do novo disco, o trombone generoso de Vitor Santos abre para a entrada serena de Wilson, cantando, com "gosto de orvalho", uma "doce lembrança". O violão delicado de Cláudio Jorge sustenta o pagode de Arlindo Cruz em Não Dá. Em Outono Chegou, um samba tradicional, João Carlos Rebouças faz contratempos sutis ao piano. E o CD avança com sambas cantados com a sobriedade do intérprete, que brinca com a divisão em meio a um instrumental de bases limpas e passagens arrojadas. Quando toca Estava Faltando Você, que retoma a parceria com Délcio Carvalho (o eterno companheiro de dona Ivone Lara), o violão de Cláudio Jorge e a flauta de Zé Bigorna seguem uma bateria que faz justiça ao mestre, nas baquetas de André Tandeta. O piano de Rebouças é a cereja do bolo. Wilson é doce, mas não é mole, não. Sob seu venerável talento, até Nelson Rufino aposenta a levada baiana e se curva ao cool de Minha Trajetória. Em se tratando de Wilson das Neves, o verde da esperança e o branco da paz - cores de sua escola de samba, o Império Serrano - não poderiam faltar. Aparecem na poesia de Velha Guarda do Império, um samba que honra a tradição da Serrinha de Silas de Oliveira e Mano Décio.
Wilson das Neves nasceu no Rio de Janeiro, em junho de 1936. Aos 14 anos, já batucava na Escola Flor do Ritmo, no subúrbio carioca do Méier, e aos 21 assumia o comando da bateria na Orquestra de Permínio Gonçalves, em que outros grandes nomes da MPB, como Leny Andrade, deram o pontapé inicial à trajetória artística. Atuando profissionalmente desde a década de 1950, em shows e gravações com artistas como Elza Soares, Chico Buarque, Elizeth Cardoso, Wilson Simonal, Roberto Carlos e Ataulfo Alves, ele ganhou prestígio e passou logo a ser o preferido de dez entre dez figurões da MPB, sendo uma referência em matéria de ritmo.
No final dos anos 60, ele montou seu próprio grupo e gravou discos instrumentais, nos quais o som suingado convidava para dançar. A estreia dessa fase foi com o LP Juventude 2000 (1968), reunindo músicas em versões bem balançadas de Tom Jobim (Wave), Baden Powell e Vinícius de Moraes (Tem Dó), entre outros. De lá para cá, saíram mais oito álbuns, muito pouco para tanto talento, como se comprova nesse Pra Gente Fazer Mais Um Samba.
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Julio Cesar de Barros é editor sênior da revista Veja e mantém o blog Passarela, no portal Veja.com.
O DISCOPra Gente Fazer Mais Um Samba (MPB/Universal), de Wilson das Neves. Preço médio: R$ 28.
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