
Revista BRAVO! | Julho/2008
POR ARMANDO ANTENORE
ELE NÃO SE ENCONTRAVA, é verdade, em nenhum teatro lendário da Broadway ou do West End londrino. Mesmo assim, sentia-se como quem estivesse lá — ainda que, à época, não suspeitasse existirem nem a Broadway, nem o West End, nem os teatros lendários. Tinha uns 12 anos, pouco para os que já completaram 40 ou 60, mas muito para os que só viveram os 12. Talvez por isso se comportasse, naquele pequeno camarim, com a gravidade de um adulto. Usava uma casaca azul royal e uma peruca de algodão, que simulava os longos cabelos de um nobre europeu do século 17. Parecia nervoso. No colégio paulistano que freqüentava, costumava assistir às aulas de interpretação da atriz Maria Alice Vergueiro. Agora, sob a batuta da professora, enfrentaria o público pela primeira vez. Há crianças que estréiam na pele do Pinóquio, do Ursinho Puff ou do Atchim. Cacá desbravaria, logo de saída, uma peça de Molière. A comédia se chamava As Preciosas Ridículas, e o menino (gorducho) iria incorporar Mascarille, o criado que subitamente se torna marquês. Concentradíssimo, entrou em cena. Fez as mesuras que precisava fazer, declamou as galhofas que precisava declamar e caminhou para os bastidores, suspirando de alívio. Perto das coxias, tropeçou e caiu. Caiu, não. Esborrachou- se, implodiu-se, desintegrou-se diante da platéia. Um tombo vergonhoso e tão violento que o machucou. “Pronto!”, lamentou baixinho. “Me danei. Sou um fiasco.” Os espectadores, no entanto, julgaram que o script previa a queda. Hahaha! Olhem o marquês! Que idiota, não pára em pé! Os respeitáveis pais de alunos, e os amigos dos pais, e os amigos dos amigos dos pais, gargalhavam sem rédeas. O ator mirim desvendou, então, o segredo número 1 do humorismo: a dor alheia é divertida. Na segunda apresentação, o marquês caiu de novo, só que intencionalmente.
PAGANINI, NIJINSKY, PELÉ E... Le Pétomane. Lê
Pétomane? Sim, Cacá sabe detalhes do sujeito e lhe reserva
um lugar de honra no panteão em que brilham o deus do violino,
o ás da dança e o rei do futebol. Pode-se dizer que, como
aqueles gênios, Lê Pétomane se destacava pelo virtuosismo.
Nasceu em Marselha com o nome de Joseph Pujol e, na juventude, descobriu-se
dono de um talento bizarro — conseguia emitir flatulências
inodoras sempre que quisesse. De quebra, possuía o dom de controlar
a intensidade dos gases. Entre 1887 e 1914, depois de adotar o apelido
que o marcou (em português, Le Pétomane seria “O Peidorreiro”
ou algo do gênero), despontou nos cabarés da França
e alcançou fama de popstar. Intelectuais, cortesãs, artistas
e políticos lotavam o Moulin Rouge de Paris para vê-lo desfiar
anedotas escatológicas ou apagar velas com traques que duravam
10 segundos. O espetáculo atingia o clímax quando Pujol
pegava um tubo de borracha, inseria uma das pontas no bocal de um instrumento
de sopro e a outra no próprio traseiro. Convertia-se, assim, não
em um músico de vanguarda, mas de retaguarda, que assombraria Miles
Davis por tocar canções populares de maneira tão
criativa. — O altar de Cacá também abre um orgulhoso
espaço para os Três Patetas. Mais do que comediantes, o ator
considera-os bailarinos. Moe torce o nariz de Larry, Larry puxa a orelha
de Curly, Curly lasca um tabefe em Moe. Os pobres de espírito enxergam
apenas o grotesco no redemoinho de agressões em que o trio geralmente
se enrosca. Cacá identifica ali uma movimentação
complexa e requintada, digna das melhores coreografias do Bolshoi. —
Fascínio por trocas de sopapos, por brincadeiras infames e por
habilidades nojentas. Ele admite que, à beira dos 55 anos, segue
habitando o universo cruelmente ingênuo (ou ingenuamente cruel)
dos garotos de 12. Não pretende deixá-lo.
MAL SE LEMBRA DO PAI. Guarda daquele homem precocemente calvo umas raras
e tênues imagens. Falsas? A cama. Os parentes em torno da cama.
O pai na cama. “Tão moço e já moribundo”,
deviam comentar. Nem 30 anos. Um balão de oxigênio sempre
nos arredores. A morfina, o choro, a agonia. “Câncer”,
é provável que sussurrassem. Vai matá-lo em breve.
De fato o matou, Cacá ainda criança, 4 anos, uma irmã
caçula. Depois, a sensação de vazio. E o sofrimento
por perceber a sensação de vazio. No colégio, todos
exibiam um pai, todos jogavam bola com o pai, todos reclamavam do pai,
todos enalteciam o pai. Cacá somente imaginava o pai. Hoje talvez
não o imagine, mas a sensação de vazio permanece.
— Nunca teve filhos, tampouco pensava em tê-los. Um dia, e
de repente, as coisas mudaram. Não consegue explicar o que ocorreu.
Só reconhece que, agora, deseja os filhos. Saberá ser pai?
Não está seguro. O menino que cresce na companhia paterna
dispõe de referências para, adulto, criar uma nova família.
E o que não pôde crescer? — Se o pai morreu antes dos
30, Cacá também morreria. Óbvio como 2 + 2. Arrastou
a convicção por muito tempo, até que o tempo se encarregou
de desmoralizá-la. A hipocondria, porém, não o abandona.
Desde moleque, inventa doenças com a obstinação de
um Luther King e o desatino de um Salvador Dalí. Não bastasse
a memória da morfina, do choro, da agonia, a mãe e o padrasto,
médicos, lhe forneceram involuntariamente o petisco que continuou
atiçando as elucubrações — um papo sobre hemorragia
em pleno almoço, um livrinho sobre tumores na mesa da sala. Quando
realmente morrer (é líquido e certo, uma hora morrerá),
gostaria que o homenageassem com um epitáfio sucinto: “Desta
vez vocês acreditam, né?”. — Rir do outro e também
do próprio umbigo. Eis o segredo número 2 de qualquer bom
palhaço. Uma lição que Cacá (ou Carlos Eduardo
Zilberlicht Rosset) intuiu já no berço e que procura cumprir
à risca. Judeu de raízes polonesas e francesas, notou desde
cedo que os israelitas nunca se furtam a contar piadas sobre si mesmos.
Desconfia que ajam desse modo para se proteger, à semelhança
de quem toma uma vacina. Quando se esculhambam, desarmam os que cogitavam
esculhambá-los. Qual a graça, afi nal, de avacalhar o espertinho
que se avacalhou primeiro?