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Rodrigo Aragão e os bonecos-zumbis que usou em Mangue Negro. “Sou um diretor regionalista e tropicalista”

 

Revista BRAVO! | Julho/2008

UMA TARDE COM... RODRIGO ARAGÃO

O cineasta capixaba faz filme de terror no quintal de casa, à base de mensagens ecológicas, sangue de groselha e gosma de polvilho

POR ANA LAURA NAHAS

 

À primeira vista, Perocão, uma pequeníssima aldeia de pescadores em Guarapari, no litoral do Espírito Santo, é um lugar bacana. Tem sol, vida mansa e um par de botecos honestos. Acontece que, logo na entrada do vilarejo, atrás do fliperama de seu Osório, mora, como diria o coronel Walter Kurtz em Apocalypse Now, “o horror, o horror”.

Era sábado. O artista plástico e cineasta Rodrigo Aragão — que, por ser filho de um ex dono de cinema e ex-mágico, cresceu “vendo pessoas transformarem coisas comuns em coisas flutuantes” — me esperava na calçada de casa. Ele assina a direção de Mangue Negro, um peculiar e fantasmagórico longa-metragem de estréia, que abre a quarta edição do Festival Internacional de Cinema Fantástico de Porto Alegre, o FantasPOA, no dia 28 deste mês.

O filme custou módicos R$ 50 mil, bancados por um empresário da região. Com uma história de amor entrecortada por ataques de zumbis (os monstrengos comem a carne dos personagens humanos para castigar os homens pelos maus-tratos à natureza), foi todo rodado em um manguezal do Perocão e no quintal da família Aragão, localizado justamente nos fundos do fliperama. Durante as filmagens, os atores — quase todos amadores e voluntários — enfrentaram sessões de maquiagem que consumiam quatro horas. Também tiveram de encarar a água suja e fria do manguezal às três da madrugada. Setecentos litros de gosma à base de polvilho e de “sangue” produzido com mel, groselha e chocolate respondiam pelos efeitos especiais.

O inusitado processo de realização do longa pode ser visto no YouTube. Ali, no documentário Sob a Lama do Mangue Negro, Rodrigo explica suas intenções — fazer tanto um filme trash de terror quanto um alerta contra a degradação ambiental — e antecipa algumas seqüências sangrentas da produção. “A dor e o sangue são passageiros, a arte é eterna”, brinca, simpaticíssimo, enquanto admite ser, de fato e desde cedo, um sujeito incomum. Aos 6 anos, assistiu a um programa de TV sobre Star Wars — O Império Contra-Ataca e enlouqueceu com as pirotecnias da série de George Lucas. Aos 9, já dominava técnicas de maquiagem que lhe permitiam assustar os parentes simulando feridas no próprio corpo. Tornou-se, assim, o “doido da vizinhança”, nas palavras dele.

Um dia, os vizinhos decidiram apostar em seu doido, financiando o curta-metragem Chupa-Cabras, que transformou o menino do rolo de filme tatuado no braço, hoje com 31 anos, em celebridade do cinema de horror. O vídeo, realizado com R$ 300 em um fim de semana de 2005, ganhou prêmios em festivais e caiu no gosto do público capixaba (era preciso repetir as sessões no Perocão e em Vitória, sempre abarrotadas). Graças principalmente à disseminação pela internet, virou hit em todo o país entre os fãs de um tipo de filme de terror conhecido como splatter — criaturas fantásticas, sangue jorrando, membros decepados e um bocado de humor.

Pelo menos quatro referências embalam o medonho, crítico e desiludido mundo de Rodrigo: a extinta revista de quadrinhos nacionais Calafrio; os filmes italianos de terror da década de 1970, que inspiraram sucessos recentes como O Albergue; e Sam Raimi e Peter Jackson, que, nos anos 80, antes de virarem super diretores, dirigiam títulos sugestivos como, respectivamente, Uma Noite Alucinante: A Morte do Demônio e Trash — Náusea Total.

Mangue Negro tem um pouco de cada um deles e um tanto do próprio Rodrigo, que aproveita a vida de aldeia para reinventar o cinema de horror independente. “Sou regionalista e tropicalista”, define-se. “Meus personagens não têm pudor em usar o termo ‘pocar’ (expressão comum no Espírito Santo, que significa rebentar). Faço um terror do Perocão.”


Veja trechos do filme Mangue Negro

 

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