
Revista BRAVO! | Julho/2008
POR HELIO PONCIANO
O dramaturgo Sérgio Roveri é um dos melhores escritores
de diálogos do teatro
brasileiro. Em peças como Andaime (2007), explorou a oposição
entre apenas dois personagens — no caso, operários suspensos
em um andaime de um prédio. Esse embate de idéias contrárias,
feito de argumentos e réplicas, é a matéria-prima
também de A Coleira de Bóris, seu novo texto. Na montagem,
dirigida por Marco Antonio Rodrigues, dois presos discutem suas opções
de vida durante a noite. Apesar de a estrutura ser similar, a nova peça
traz uma inovação na obra de Roveri.
O detento que está na prisão há mais tempo (interpretado por Nicolas Trevijano) já não sabe por que se encontra ali; o segundo (Rafael Losso) acaba de chegar, preso por tentar cruzar alguma fronteira proibida ou, segundo ele, ajudar outras pessoas a escapar para um lugar de vida mais venturosa. O primeiro, já vencido, descrê das mudanças; o outro não aceita o confinamento e quer fugir.
Mesmo que o humor fino de Roveri ainda esteja presente (como quando o prisioneiro veterano relata seu belo e cômico sonho com nhoque), há um significativo distanciamento em relação às peças anteriores nesta nova composição de um dueto. Em vez de referências diretas ao mundo concreto e cotidiano, o autor investe na imprecisão do discurso. A impressão é reforçada pela ausência de elementos realistas no cenário. De entendimento mais imediato, talvez haja apenas uma história (que não será revelada aqui, para não estragar a surpresa) contada pelo recém-detento, uma metáfora que explica o título do espetáculo.
LEITURA EM ABERTO
O maior trunfo de Roveri é justamente evitar uma leitura única
do enredo. Assim, não se pode precisar o contexto histórico
dos prisioneiros ou, graças ao trabalho de cenografia e figurino,
afirmar que o espaço (um cubo delimitado por linhas de náilon)
constitui uma cela realista. Com texto e recursos ao mesmo tempo econômicos
e expressivos, o diretor Marco Antonio Rodrigues explorou com rigor as
tensões e os dilemas de A Coleira de Bóris. O diretor já
havia enfrentado a assombrosa contundência de Sarah Kane em Blasted
(2004), que explorava a violência da guerra na esfera dos indivíduos.
As imagens do texto de Sérgio Roveri, em idioma e contexto completamente
diferentes, são de força comparável às da
dramaturga inglesa.
Que se faça justiça à performance dos atores, sobretudo a de Nicolas Trevijano, cujo preparo possibilita uma atuação vibrante. Seu rendimento no papel do preso desiludido imprime uma perspectiva curiosa à encenação: o medo do novo aparenta ter mais corpo e voz.
A PEÇA
A Coleira de Bóris, de Sérgio Roveri. Direção
de Marco Antonio Rodrigues. Com Nicolas Trevijano e Rafael Losso. Espaço
dos Satyros (praça Roosevelt, 214,
São Paulo, SP, tel. 0++/11/3258-6345). 6ª e sáb., às
21h; dom., às 19h. R$ 5 e R$ 25. Até 27/7.
VEJA TAMBÉM
Do mesmo autor e na mesma sala, Cidadão de Papel, adaptação
de textos do jornalista Gilberto Dimenstein que abordam a violência
urbana. Sab., às 19h. De R$ 5 a R$ 20. Até 27/9.